Há muito que os deuses abandonaram o Olimpo sem que ninguém os tenha substituído. Porém, novos salvadores apareceram. Residem agora noutra morada, Olisipo, de seu nome. E na sua sobrenatural clarividência, desprovidos de quaisquer complexos, demonstram diariamente aos portugueses a sua extraordinariedade.

Poderão estar a indagar de onde provém esta fenomenal qualidade? Da ausência do erro. Assim, como o erro é revelador do humano, a inexistência dessa lacuna é denunciadora do ultranatural. É por isso que a observância de determinados articulados jurídicos – como o Código de Conduta dos Trabalhadores da Autoridade Tributária e Aduaneira ou o Código do Procedimento Administrativo e todos aqueles que se referirem a responsabilidade dos titulares de cargos públicos – não lhes são aplicáveis. Daí que as oferendas dos mortais (lembram-se das viagens da Galp?) sejam perfeitamente normais. Para além disso, não sendo estas dádivas extraordinárias, são integralmente irrelevantes para qualquer conflito de interesses. Mas não fiquem em cuidado. Perturbados com a constatação da normalidade, os novos salvadores elaboraram um código de conduta deveras extraordinário e exclusivamente adequado ao seu comportamento sobre-humano. Porquê? Porque a lei só obriga os mortais. Ou seja, observar a lei é normal. Já a inimputabilidade é que é ímpar. Ou aparenta ser.

Esta extraordinariedade não possui apenas um cariz geral e abstracto. Também é possível aplicá-la em contextos específicos, intangíveis e tangíveis. Para ilustrar esta afirmação não há melhor exemplo do que o do Primeiro dos novos salvadores, António Costa, o qual, convicto do seu destino, persiste no autoproclamar das suas virtudes e glória. Que não hajam dúvidas nesse sentido. Tanto a sua acção como a sua retórica são extramundanas. Ora vejamos.

Em 2016, com uma pompa e circunstância inaudita, António Costa disse que o clima do Verão não era um factor a ter em conta porque “não é por haver vento ou calor que há incêndios”. Apesar da irrelevância destes factores, o Primeiro dos novos salvadores também defendeu uma floresta mais resistente e sustentável, i.e., uma reforma e reestruturação das florestas (provavelmente através de inovações biotecnológicas que estariam para além da nossa compreensão).

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