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União Europeia

E da Irlanda, ninguém fala?

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Fiquei a admirar a força de vontade dos irlandeses. Um país que sofria (e não sofreu menos do que os outros), mas mantinha o orgulho e a dignidade. Assumia as suas culpas sem as passar aos outros.

Na zona Euro, há vida para além da Grécia. A Irlanda é um bom exemplo que contrasta com a Grécia. Foi o segundo país a necessitar da ajuda da União Europeia e do FMI. No caso irlandês, os grandes responsáveis pelo desastre financeiro foram os bancos, com comportamentos verdadeiramente criminosos. De um dia para o outro – literalmente – o anterior governo irlandês foi forçado a salvar o sistema bancário irlandês, aumentando assim o endividamento público. No final de 2010, início de 2011, o país foi obrigado a pedir ajuda externa, para evitar a falência.

Tal como na Grécia, em Portugal e em Espanha, o desemprego aumentou, os jovens irlandeses tiveram que emigrar, os ordenados baixaram, as pensões foram reduzidas, e a economia entrou em recessão. Lembro-me de um dia, em Dublin, um taxista contar-me o seu desespero, por causa dos seus dois filhos terem emigrado para a Austrália. Disse-me com tristeza que não conseguia ver um futuro melhor para o seu país. Falei com outros irlandeses, e os sentimentos eram iguais. Mas nunca me esqueço que ouvi também os irlandeses dizerem que não haveria outra solução senão enfrentar as dificuldades. Ignorar a realidade não era uma opção. E sobretudo não ouvi ninguém queixar-se da Europa ou da Alemanha. Pelo contrário, ouvi palavras de reconhecimento pela ajuda que evitou a falência. E ouvi críticas e ataques duríssimos contra o governo e os bancos. Mas os irlandeses sabiam que tinham sido os culpados da situação que o seu país havia chegado, e nunca culparam os outros países europeus.

Fiquei a admirar a força de vontade dos irlandeses. Um país que sofria (e não sofreu menos do que os outros), mas mantinha o seu orgulho e a sua dignidade. Assumia as suas culpas sem se desculpar com os outros. Em vez de radicalismos infantis e absolutamente inúteis, os irlandeses elegerem um governo de grande coligação entre os liberais-conservadores de direita e os trabalhistas. Tomaram as medidas adequadas, e fizeram as reformas necessárias. Quatro anos depois, a economia irlandesa é das que mais cresce na zona Euro, o desemprego baixou, os irlandeses estão a regressar, e outros europeus – polacos, bálticos e croatas – voltaram a emigrar para a Irlanda.

Perante situações igualmente dramáticas, a Irlanda e a Grécia constituem dois exemplos distintos. Uns – os gregos – procuraram sempre desculpas, nunca assumiram as suas responsabilidades e culparam sempre os outros. Os irlandeses assumiram as suas culpas e nunca atacaram os outros países europeus. E mostraram a maior das virtudes. Quando cometemos erros – e todos os países cometem erros – os outros podem ajudar, mas somos nós que devemos resolver os problemas. Nenhuma Europa pode dar a dignidade de assumir erros e a força e a maturidade de os ultrapassar. Os testes difíceis mostram que uns são capazes, e outros não. O resto não é mais do que desculpas políticas.

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