A Europa começa a votar já na próxima quinta-feira e é bem provável que acorde estremunhada segunda-feira quando esse exercício terminar. É que tudo indica que estas eleições europeias vão abrir de par em par as portas do Parlamento Europeu a vários partidos extremistas, a maior parte deles partidos de extrema-direita, mas também alguns de extrema-esquerda. Para além disso deverão também ser eleitos muitos deputados por partidos que não são tão facilmente catalogáveis mas que se caracterizam pelo seu eurocepticismo e/ou pelo seu populismo.

Não me surpreenderia que o politicamente correcto europeu tratasse de meter todas essas forças políticas no mesmo saco, apesar das evidentes diferenças entre, por exemplo, uma Frente Nacional francesa e uma Alternativa para a Alemanha. Já se nota isso em muitos noticiários e é um comportamento que apenas obscurece o sentido e o significado do vendaval que pode marcar estas eleições europeias.

Uma coisa são partidos abertamente xenófobos e racistas – como a Aurora Dourada grega, uma formação de inspiração neonazi –, outra coisa partidos que oscilam entre o populismo, o eurocepticismo visceral e a tentarão xenófoba – como UKIP inglês, a Liga Norte italiana, até o próprio movimento de Beppe Grillo –, e partidos que sendo contra o actual modelo de construção da União Europeia, são partidos respeitáveis que têm coisas importantes a dizer – como a Alternativa para a Alemanha ou, noutro plano, os conservadores britânicos.

A Europa devia saber escutar as mensagens que os eleitores lhe estão a enviar ao escolherem votar nesses partidos. Porque há mais de uma mensagem no ar destes tempos.

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A primeira mensagem é relativa à crescente desafectação entre os eleitorados e as elites europeias. Há um evidente mal-estar relativamente à forma como a democracia funciona no espaço europeu – ou, para ser mais exacto, face à forma como não funciona – e esse mal-estar não será ultrapassado apenas porque, desta vez, as principais forças políticas escolheram candidatos à presidência da Comissão ou porque ocorreram alguns debates entre Juncker e Schulz com audiências residuais. As instituições europeias não são vistas como democráticas, os eleitores europeus não sentem que votando podem mudar o sentido das políticas em vigor e por isso ou se abstêm, ou votam em partidos de protesto.

A segunda mensagem é relativa às políticas de austeridade. Muitos eleitorados até podem aceitar essas políticas – muitos eleitorados até já as aceitaram, diga-se em abono da verdade. Mas há duas coisas que os deixam profundamente desconfortáveis. A primeira é a percepção de que essas políticas estão a ser impostas de fora para dentro. Às vezes isso é verdade, às vezes isso traduz apenas a mensagem cobarde dos políticos nacionais, que preferem colocar o ónus das medidas difíceis em Berlim ou em Bruxelas. A segunda é a ideia de que os políticos dos partidos de governo são “todos iguais” e que todos acabam sempre por fazer as mesmas coisas, por aplicar as mesmas políticas.

Já aqui abordámos este tema ontem e é preciso voltar a ele as vezes que foram necessárias, pois a percepção de que não existem alternativas dentro do mainstream é quase tão corrosiva para os sistemas políticos como a decepção causada pelos que propõem políticas alternativas e, depois, acabam por fazer mais ou menos o mesmo. O que se está a passar na França de Hollande ilustra bem esta situação e mostra-nos quais as consequências de uma política que é, antes do mais, uma enorme desilusão por se ter baseado numa enorme ilusão.

É com esta grelha de análise que temos de analisar propostas como as apresentadas este fim-de-semana pelo Partido Socialista. E fazer a seguinte pergunta: se o crescimento da economia ficar aquém do necessário para pagar as promessas eleitorais do PS, cenário que pode sempre acontecer, para não dizer que é mesmo o mais provável, como vai justificar Seguro a enésima desilusão, o enésimo incumprimento de uma promessa eleitoral? Começam a faltar “desvios colossais” para explicar tudo.