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Por estes dias, nada há que seja indiferente. Os comportamentos humanos, incluindo os linguísticos (sobretudo os linguísticos), são analisados à lupa por especialistas na detecção do erro e incorrigíveis apóstolos da perfeição. Chamemos-lhes micrólogos, já que a micrologia representa a atitude mental de tudo achar significativo, por mais insignificante que a coisa pareça ao comum dos humanos.

O pulular de micrólogos por esse mundo fora diz muito da perda de senso-comum que afecta as nossas sociedades. Porque o senso-comum, como lugar em que as diferenças de modos de ser e de pensar parcialmente se atenuam, permitindo assim um diálogo efectivo sobre o que, exactamente, nos é comum, exige um largo espaço para a indiferença, que é uma condição para o exercício da tolerância. Se esse espaço é reduzido, ou mesmo anulado, o comum deixa de existir. Se tudo é investido de uma importância extrema, se nada é indiferente, deixa de haver qualquer comunidade de sentido. E a orientação dos indivíduos, obrigados a viverem num oceano de pequenas diferenças, no qual pescam os micrólogos, torna-se impossível.

O que é que pescam os micrólogos? Pescam micro-agressões, que são o seu prato favorito. As grandes agressões, deixam-nas passar, porque não convêm ao seu palato requintado. A característica principal de uma micro-agressão, como coisa distinta de uma agressão pura e simples, é o ela poder ser aquilo que quisermos. Cada um pode encontrar, sem se esforçar muito, uma micro-agressão que particularmente o magoe e insuportavelmente o entristeça. E fazer do combate a essa micro-agressão uma bandeira que transporta para a vida e à qual, como nas descobertas das ciências, pode associar o seu nome. Mas, atenção, uma verdadeira micro-agressão não pode nunca ser demasiado óbvia, porque senão não é descoberta nenhuma. Uma micro-agressão demasiado óbvia é – obviamente – uma macro-agressão. As macro-agressões não interessam. É preciso mais subtileza.

Tomemos um caso particular. Eu, por exemplo, sou careca.  Mas se eu disser que me sinto agredido sempre que vejo magníficas exibições de vigor capilar em algum dos meus concidadãos, sou simplesmente ridículo, ou, numa interpretação política (descabelada, é caso para dizer), nutro por Ferro Rodrigues o ódio intenso de um vulgar negacionista. Mas se eu não for vulgar e tiver verdadeiramente capturado o espírito do tempo, tenho uma solução óptima. Basta-me assinalar que a sociedade assenta num capilarismo logocêntrico sistémico contra o qual urge lutar e que essa luta merece um lugar de honra no quadro de uma verdadeira teoria interseccionalista da sociedade. E, já agora, que os laços entre o capilarismo e o capitalismo merecem ser estudados por quem de direito, com generosos subsídios europeus. Não fica muito melhor – e nada vulgar? Obstar-se-á que assim ainda é mais ridículo. De acordo. Mas as pessoas não reparam. E, se repararem, têm medo de o dizer, não vão os outros pensar que não passam de capilaristas logocêntricos sistémicos.

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Apresso-me a dizer que, pessoalmente, esta estratégia não me convém. A minha escola é mais antiga – é a do profeta Eliseu. Ia ele, vindo de Jericó, a caminho do Monte Carmelo, quando um bando de crianças se pôs aos berros: “Anda, careca!”, ou qualquer coisa assim. O meu mestre Eliseu, muito compreensivelmente, amaldiçoou-as. E logo apareceram, vindas do nada, duas ferozes ursas que, sem saberem nada acerca do capilarismo logocêntrico sistémico, mas agindo com o natural instinto justo dos animais, mataram as 46 (acho que eram 46) criancinhas. O profeta Eliseu continuou, não sei se ainda resmungando, mas certamente já habitado por uma grande paz interior, o seu caminho em direcção ao Monte Carmelo. Eu sei que a história não deve ser entendida literalmente. Mas, às vezes, a leitura literal aquece a alma.

Além de me permitir, por causa das ursas, falar de um livro maravilhoso que acabei de ler e que recomendo com entusiasmo. É de um jornalista polaco cuja existência por inteiro desconhecia, na grande tradição de Ryszard Kapuscinski, que se chama Witold Szablowski. O título do livro, na tradução inglesa, é The Dancing Bears. True Stories of People Nostalgic for Life Under Tyranny. Divide-se em duas partes. A primeira narra o modo como vários ciganos búlgaros foram obrigados pela União Europeia a abdicar do seu ganha-pão, que consistia em exibir os ursos que ensinaram (à custa de alguma violência e muito álcool – é fácil, aparentemente, tornar um urso alcoólico) a “dançar” em aldeias e cidades ou frente a turistas em estâncias de veraneio. Instalados num parque natural, os ursos mantinham vários dos reflexos adquiridos na sua anterior existência – dançando, por exemplo, para os visitantes do parque. A segunda parte narra episódios da vida, depois da queda do comunismo, em vários países, maioritariamente da chamada “Europa de Leste”. A analogia entre as duas partes é complexa, mas Szablowski não força nunca as coisas e o livro é verdadeiramente polifónico. Ouve-se o ponto de vista, por exemplo, dos ciganos dos ursos dançarinos, que falam das relações afectivas que mantinham com os ursos (mais do que um diz que eles “faziam parte da família”), ou das mulheres que trabalham, ou trabalhavam (o original polaco data de 2014, a tradução inglesa é de 2018), no Museu Estaline, em Gori, na Geórgia, e que idolatram, ou idolatravam, Estaline, recusando-se a aceitarem qualquer vestígio de maldade naquele homem tão bom para a família.

Uma das coisas curiosas na história dos ursos é o facto de muitas das fêmeas se chamarem “Isaura”. E porquê? Porque a novela brasileira, que eu ainda me lembro de ver, “A Escrava Isaura”, passara na televisão búlgara. E que melhor nome para uma ursa dançarina do que o dessa heroína? E, por esta via, chegamos ao nosso mundo contemporâneo e aos problemas do tal “interseccionalismo” que, tudo mergulhando num oceano de diferenças onde pululam os pescadores micrólogos, torna impossível um sentido comum para a sociedade e uma orientação nela. Um dos responsáveis do parque no qual os ursos libertos foram instalados conta que nada os obrigava a pagar o que quer que fosse aos ciganos pelos ursos, mas que o faziam por sentido de justiça e com medo que as associações de defesa dos ciganos lhes colocassem problemas. Difícil intersecção aqui entre os direitos dos animais e os das minorias étnicas. Mas, indo além de Szablowski, não custa imaginar uma situação ainda pior, quer dizer: mais complexa. E se os descendentes dos escravos brasileiros, à pala da “Escrava Isaura”, exigissem um pedido público de desculpas aos ciganos búlgaros por “apropriação cultural”? Já vi exigências mais insanas no capítulo do que esta. E não digo mais, porque não quero estar a dar ideias a André Ventura.

De facto, o processo que preside a estas coisas obedece a regras que não são as do saudável conflito social. São as regras da destruição do senso-comum que é fundamental para que a sociedade, com todos os seus conflitos, subsista. A lógica do “interseccionalismo” – que é a lógica da micrologia – não é uma lógica do conflito, é uma lógica da perda do sentido do social. E é um processo que não conhece qualquer princípio de autolimitação. A micrologia não conhece limites, e por isso conduz directamente à intolerância e ao delírio.

E fico por aqui, que quero começar a ler outro livro do Szablowski que encomendei, How to Feed a Dictator, onde ele fala com os cozinheiros de Fidel Castro, Saddam Hussein, Enver Hoxha, Idi Amin e Pol Pot. Se for tão bom como este, a minha raiva contra o capilarismo logocêntrico sistémico vai amansar por uns dias. A banal curiosidade é inimiga da micrologia.