Neste isolamento forçado em que vivemos e que levou a pesadíssima piedade de António Guterres, que aprecia caricaturar-se a si mesmo antes de tudo o mais, e consegue sempre, a pedir aos povos todos do mundo que cessassem as guerras para se dedicarem ao combate ao coronavírus, não há filme, em dvd ou na Netflix, que não nos lembre o modo passado de viver, com grupos de pessoas juntas em festas ou em outras actividades mais nobres ou mais reprováveis. E não são só os filmes. Os anúncios televisivos estão cheios de famílias alegres, com muitas criancinhas, que se passeiam, aquisitivas, por supermercados e coisas assim. Nada poderia contrastar mais com as paisagens urbanas desertas que os telejornais nos mostram diariamente, onde nem uma pessoa bebe uma cerveja numa esplanada ou compra jornais numa tabacaria.

Pessoalmente, não me queixo em particular deste isolamento, e isso por, pelo menos, duas razões. Primeiro, porque não houve praticamente intervalo algum entre o fim de uma estadia de quase um mês numa cama de hospital, onde fui serrado e esfaqueado, e o estado de emergência decretado. Ainda ando maravilhado com o recentemente readquirido prazer de me poder espreguiçar (um prazer, garanto, muito subvalorizado) e de dormir na minha cama, com livros e cds à mão. Depois, porque eu e a minha mulher vivemos, desde há muito, uma vida de eremitas, saindo de casa apenas na estrita medida do necessário. Tenho, é claro, saudades de idas a restaurantes, com ela, com um amigo ou dois, ou então sozinho, eu e um livro. O resto, em geral, passo. É como se a minha vida tivesse sido uma longa preparação para a presente calamidade. Nestas condições, o estoicismo é fácil, quase imperceptível.

O contacto com o mundo faz-se através dos jornais na net, da televisão e da rádio do Observador. A televisão provoca-me uma espécie de angústia metafísica porque revela a minha fraqueza de vontade, aquilo que Aristóteles chamava akrasia, que a filosofia contemporânea continua disciplinadamente a discutir. A minha fraqueza de vontade manifesta-se, neste capítulo, na tendência quase invencível a ligar a SIC Notícias, com o seu cortejo diário de críticas, combinando indignação empolada e ironia forçada, a Trump, Bolsonaro e Boris Johnson, numa manifestação de inferioridade própria a uma província longínqua e pouco abastada do Império. Estas três muito diferentes pessoas merecem certamente críticas, aqui e ali, umas mais, outras menos, mesmo talvez em muitos aquis e alis. Mas que tudo o que elas façam seja visto, sem excepção, como simultaneamente maléfico e ridículo, é de tal modo contra-intuitivo (ninguém pode ser assim tão coerente) que o espectáculo, dada a inverosimilhança, se desmente a si mesmo. No entanto, a terrível akrasia não me dá paz. Video meliora proboque, deteriora sequor, como dizia o outro: vejo o melhor, aprovo-o, mas faço o pior. Como um drogado, continuo com a SIC Notícias, quando sei pertinentemente que devia era ver a CMTV. Com todos os seus defeitos, a CMTV não padece daquela combinação de moralismo e lirismo de fancaria que a SIC e, em grau ligeiramente menor, a RTP e a TVI, nos oferecem diariamente, na convicção que a sua missão no mundo é aprimorar-nos civicamente, como se não existissem muitos livros mais fiáveis na matéria que se encontram ao alcance de qualquer um. Dito de outra maneira: a CMTV é menos inferior e mais objectiva, às vezes exasperadamente objectiva no cuidado com a minúcia dos detalhes.

E o que interessa, em tempos de crise como em tempos normais, é ter a visão o mais objectiva possível desse objecto impossível que é a sociedade. Digo “objecto impossível” porque, contrariamente ao que se passa nas ciências, não nos é permitido, quando se fala da sociedade, adoptar uma teoria explicativa única. O que temos são várias visões que não se anulam umas às outras nem se completam umas às outras harmoniosamente. Há uma indeterminação teórica radical do objecto, para retomar um tema caro, num outro contexto, a uma corrente influente da filosofia contemporânea: o referente das teorias da sociedade é, em larga medida, inescrutável, impenetrável. Obviamente que ele existe, obviamente que a sociedade existe, e certamente que há muitas teorias que iluminam vários dos seus aspectos, mas não há tradução teórica única, de direito e de facto, do modo de ser da sociedade como um todo. A pluralidade é irredutível.

O que não significa que não se possa conhecer aproximadamente a natureza de sociedades particulares. Montesquieu, com uma intenção complexa, perguntava-se: “Como se pode ser persa?”, o que equivale à pergunta: “O que é ser persa?”. Um filósofo dos nossos dias pergunta-se: “Como é ser um morcego?”. É impossível, apesar de Batman, responder à segunda pergunta: ninguém pode ter o conjunto de experiências que um morcego tem, que fazem com que um morcego seja um morcego. Em contrapartida, é possível, através de abismos de profundidade variável, responder à primeira: é possível compreender em larga medida o que é ser persa, asteca ou vitoriano. É sem dúvida difícil, e por isso tantos livros de história nos deixam com uma profunda insatisfação. Não capturam o modo de ser dessas sociedades particulares, por mais dados que sabiamente acumulem. O que é possível – e alguns livros dão-nos isso, parcial mas eficazmente – é determinar o conjunto de crenças de certas sociedades e o modo como os indivíduos produzidos por essas sociedades as viviam. Porque é que os astecas praticavam sacrifícios humanos, que crenças experienciadas por eles os justificavam aos seus olhos, ou porque é que os vitorianos, sobretudo os vitorianos tardios, se preocupavam com a pobreza e o trabalho infantil ou as condições sanitárias da população. Descobrir como as crenças sociais foram e são vividas pelos indivíduos de uma determinada sociedade é uma das razões do maravilhamento que a história deve suscitar em nós.

Mas essa possibilidade, que por vezes é realizada, manifesta-se contra o pano de fundo da própria indeterminação radical do objecto sociedade. Repito: não é que não haja nenhuma teoria iluminante sobre esse objecto. O problema é que há um número indefinido delas, e são grandemente incompatíveis entre si. O seu referente, aquilo de que elas todas falam, é impenetrável.

Nestes dias de isolamento, paradoxalmente, estamos mais conscientes do que nunca da existência da sociedade. Precisamos dela e fazemos sacrifícios para que ela sobreviva, quanto mais não seja porque a sua sobrevivência é condição da nossa sobrevivência pessoal. O que só mostra que as questões teóricas (“O que é a sociedade?”) se calam face às questões práticas, como em vários outros casos igualmente acontece. Incidentalmente, é essa a razão pela qual há uma flagrante obscenidade no aproveitamento da presente crise para tentar impor uma concepção teórica da sociedade a outras. A ideologia, como um dia lembrou Fernando Gil, é numa certa medida inescapável, o modo como ela estrutura as nossas crenças não é nunca completamente eliminável. Mas convém ter em conta que há limites que o pudor devia ditar para a sua manifestação.