Tenho pena, há coisas em que sou mesmo pessimista. O meu amigo Miguel Pinheiro acredita que “mesmo num país como Portugal há limites” e que, tendo Berardo passado todos os limites, “o regime não pode sobreviver com Berardo a rir-se”. Pois eu creio que ele vai continuar a rir-se, que os figurões vão rasgar as vestes durante mais algumas semanas e que depois tudo se arrastará anos sem fim nos tribunais até todos se esquecerem. Quanto a perder a comenda deve ser mesmo, no meio disto tudo, o que menos preocupa o “comendador” e o mais evidente sinal da impotência (ou deveria escrever antes cumplicidade?) do regime.

Não são poucos os motivos para o meu pessimismo, mas se pudesse resumi-los numa só frase ela seria lapidar: “nunca aprendemos nada, nunca queremos aprender nada”.

Primeiro que tudo é bom ter memória. Ou na falta dela consultar os arquivos. Ora quando o fazemos, como o Observador fez, verificamos que uma das primeiras vítimas que Berardo fez em Portugal foi uma vítima da liberdade de imprensa, mais exactamente Joaquim Vieira que, ainda no início da década de 1990, foi obrigado a demitir-se da direcção do Expresso por ter acrescentado à notícia da entrada de Joe Berardo para o capital da SIC informação de enquadramento sobre processos por evasão fiscal. Não foi ontem, foi há mais de 25 anos. Podia ter sido um aviso à navegação, não foi.

Sem ter de recuar tanto no tempo, demos um salto até há uma dúzia de anos atrás, até ao final de 2007. Nessa época Joe Berardo estava nos píncaros. Foi nesse 16 de Dezembro que Marcelo Rebelo de Sousa o escolheria mesmo como “figura do ano no meio empresarial”. Dir-se-ia que todo o país aplaudia. Todo não. Alguns “irredutíveis gauleses” resistiam.

Como vos digo não há nada como vasculhar os arquivos para descobrir coincidências – e acontece que por coincidência no editorial da edição de Natal desse ano do Público, apenas oito dias depois, eu o tratei como “um especulador que o governo tem protegido”. Porquê? Por causa do que acabara de acontecer – a nomeação de Santos Ferreira e Armando Vara para a administração do BCP, vindos directamente da Caixa Geral de Depósitos –, algo que logo classifiquei como “um assalto do poder político ao maior banco privado”. Na altura essa ideia de que se tratava de um “assalto” era anátema, hoje é consensual. Os tempos mudam.

Mesmo assim já havia por esses dias mais indícios que deviam ter, pelo menos, levado as pessoas a desconfiar. Por essa altura já Joe Berardo fora um pivot fundamental (a par com Nuno Vasconcelos, outro dos que deixaram um enorme calote na banca portuguesa e hoje vive regalado no Brasil) na operação montada por Ricardo Salgado para impedir a OPA da Sonaecom à PT. Sabemos como tudo acabou em tragédia, com a destruição da que chegou a ser a maior empresa portuguesa, mas não devemos esquecer como Berardo festejou o seu triunfo perante os deliciados repórteres das televisões, para logo depois fez as suas mais-valias e partir para outra. Tal como não devemos esquecer a forma como festejou a sua vitória no assalto ao BCP e o destino que esse banco logo a seguir teve.

Pelo meio houve ainda o nebulosíssimo acordo para a instalação da colecção Berardo no CCB, em condições contratuais ainda hoje opacas, um acordo de que resultou a nomeação por escolha conjunta do Governo e do “comendador” do advogado José António Pinto Ribeiro para administração da novíssima Fundação Berardo. Ora o que é que sucede em Janeiro de 2008? José Sócrates remodela o seu Governo, despede a ministra da Cultura Isabel Pires de Lima e chama para o seu lugar exactamente… José António Pinto Ribeiro. É o que se chama mais o diabo de uma coincidência.

Antes de prosseguir, deixem-me recordar que estávamos no final de 2007, inícios de 2008. Nessa altura Joe Berardo passeava-se pelas televisões, celebrado como o “novo Gulbenkian”, e José Sócrates era o “animal político” a que até alguma (muita) direita se tinha rendido. Estavam frescas as imagens do abraço com Durão Barroso e ainda ecoava o “porreiro, pá!” Quem se atrevia a remar contra a maré?

Poucos, demasiado poucos. Tão poucos que, nesse mês de Dezembro de 2007 o jornalista do Liberation Jean Quatremer, um veterano de Bruxelas, vem a Lisboa para conhecer o fenómeno Sócrates e escreve um texto, Il l’a traité, apoteótico (vale a pena lê-lo só para recordar o que Sócrates dizia nesse tempo…). Foi para o fazer que me veio bater à porta pois, como de resto refere na reportagem, eu era para Sócrates o seu “melhor inimigo”. Descontando a paranoia do antigo primeiro-ministro com os jornalistas, a verdade é que nessa época a oposição estava um frangalho e a sociedade portuguesa se recusava a ver o que ele estava a fazer – recusava-se a generalidade dos comentadores e dos jornalistas, mas também a maioria dos empresários e dos membros das chamadas elites.

Dei esta volta toda, e recuperei estas memórias – peço desculpa pelas que são mais pessoais, mas quem viveu por dentro aqueles anos não as esquece – porque, mais uma dúzia de anos passados, há lições que não aprendemos. Tal como há realidades que não mudam.

As realidades que não mudam são as do quadro legal que tecemos, ou que teceram por nós. Berardo riu-se no Parlamento porque tinha a seu lado um advogado esperto que sabe explorar bem os interstícios da lei e, como não se podem fazer leis retroactivas, suspeito que vai ser mesmo difícil recuperar os créditos que deixou por pagar – isto é, o calote de mil milhões de euros, pois ele, como diz, “não deve nada”, o que juridicamente é verdade. Soa como um insulto, mas é verdade.

Mas o principal nem estas são as questões jurídicas. O principal é que hoje, como há 12 anos, a sociedade portuguesa continua a encantar-se com os “animais políticos” e a preocupar-se pouco com a substância das políticas. O problema é que hoje, como há 12 anos, se acredita que os problemas se resolvem dando mais poderes aos governos, quando é exactamente o contrário que devia acontecer. O problema é que hoje se volta a regredir no poder das instituições independentes, acreditando que a mão do governo pode fazer mais pela economia do que a livre competição entre as empresas. O problema é que hoje continua a haver muito concubinato com empresários, sempre “em nome do interesse nacional”, claro está.

Há 12 anos havia criminosos com a mão na massa e um país a aplaudir a sua eficiência acriticamente. Agora não haverá criminosos à solta, mas isso não aconteceu como sabemos por passar a haver mais espírito crítico ou mais gosto por uma sociedade livre e menos tutelada pelo poder político. Aconteceu por termos alguns magistrados corajosos.

Mesmo assim nós somos aquele país onde quem esteve no Governo nos anos em que se fizeram, à vista de todos, os negócios com Joe Berardo, se construiu a aliança com Ricardo Salgado na PT, se assaltou o BCP e por fim se levou o país à bancarrota entende que só pode orgulhar-se do que fez, como ainda esta semana Pedro Marques disse no seu debate com Paulo Rangel. Quem não admite que errou pode corrigir o erro?

E o que se passa com o país, a quem tudo isto é indiferente?

Com o país passa-se algo que me incomoda até mais não: quase nunca perceber o essencial. O que se está a passar com a sindicância à Ordem dos Enfermeiros é disso um bom exemplo. Imaginem que era com a Ordem dos Médicos ou dos Advogados. Imaginem que não era depois de uma greve impopular. Mas sobretudo reflitam no essencial: alguma vez se viu, mesmo na ditadura, um Governo usar um braço administrativo sob sua tutela para intervir numa ordem profissional? Não tenho memória.

O correcto, a haver queixas, era deixar tudo por conta da PGR, que é independente. Fazê-lo da forma que está a ser feito – pensemos o que pensemos da senhora bastonária – é um abuso de poder, é agir com o mesmo tipo de métodos que Victor Orban usa na Hungria. Isto é fazer aquilo a que ele chama “democracia iliberal”, porventura ao som do ainda mais iliberal hino da CGTP.

Contudo ninguém protesta, ninguém fala, ninguém se incomoda, todos devem achar que não é com eles, o silêncio é ensurdecedor. E em silêncio ficarão até ao dia que chegar a vez deles, quando for tarde demais.

País amorfo, país próprio para Joe Berardo se ria dele. Lamento, mas não posso estar optimista.