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Abri o WhatsApp e encontrei as imagens que tinham acabado de chegar. Eram meu pai e minha mãe sendo vacinados contra a Covid-19. Desabei no choro no meio do escritório. Meu irmão chorou antes de entrar em uma reunião importante. Minha irmã chorou enquanto doava sangue.

Eu não pude abraçar meus pais nenhuma vez desde que me separei. Por vezes me sentei no chão, de máscara, para poder abraçar pelo menos as suas pernas. Eu não pude abraçar meus pais quando entreguei minha tese de doutorado. Fizemos um triste brinde através de telas. Eu não pude abraçar meu pai no dia 12, quando ele completou seus 70 anos de idade. Comemorámos por Zoom.

Hoje, eu resgato um pouco da esperança de voltar a abraçá-los. Mas isso acontece na mesma semana em que o meu amigo Guilherme perdeu a mãe e o meu amigo Marcello perdeu o pai. Pais da mesma idade dos meus, que estavam bem, saudáveis, ativos. Pais, que em menos de 10 dias deixaram de ser presença diária amorosa e sólida para se transformarem num repentino vazio de saudade.

Eu não consigo comemorar de forma plena. O Brasil superou essa semana a marca dos 300 mil mortos. E não há acaso, nem há mistério: os números de mortes no Brasil são resultado direto da irresponsabilidade, da negligência e da falta de humanidade do governo Bolsonaro. Não se trata de mera má gestão. São ações articuladas que ameaçam o mundo como um todo.

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“Gripezinha.” “Não sou coveiro.” “E daí?” “Vacina só se for na casa da sua mãe.” “País de maricas.” “Vão chorar até quando?” Essas foram algumas das falas do presidente sobre a pandemia. Essas foram as respostas do governo brasileiro a uma desgraça desse porte. E esse ainda é o nosso governo, estejam meus pais vacinados ou não. E, como mencionei, esse não é um problema só do Brasil, trata-se, de facto, de uma ameaça global.

O Brasil precisa de ajuda. Precisa de articulações internacionais, precisa da atuação das organizações internacionais para tentar frear esta catástrofe. O Brasil precisa de ajuda com urgência. Sim, eu estou feliz com a vacina dos meus pais. Mas os pais dos meus amigos não vão acordar. Não haverá abraço depois da segunda dose, nem comemoração posterior. E, por tudo isso, eu não consigo comemorar.

Alguns dizem que rotular o presidente brasileiro de genocida é um exagero. Eu, depois de muitos anos de estudo do Direito, não acho que seja. O que está acontecendo no Brasil é um genocídio, liderado pela ignorância, pelo negacionismo e pela desinformação proposital. E, embora meus pais estejam vacinados e meus olhos continuem cheios d’água ao ver aquela imagem, eu, sinceramente, não tenho condições de comemorar. O Brasil é um luto diário desesperador. O Brasil precisa de ajuda.