Mais do que as políticas financeiras que Varoufakis propõe – aparentemente ninguém as conhece; o senhor não as quer contar a ninguém, nem aos seus pares na reunião desta semana – tem-se analisado a sua aparência. Se é sexy ou não. O seu estilo informal como afirmação política (de rutura e de esquerda). O cachecol de caxemira de marca de luxo britânica oferecido há muitos anos pela mulher.

Aprovo esta linha de escrutínio. Já referi muitas vezes como as indumentárias femininas se relacionam estreitamente com a condição feminina, como o controlo das roupas femininas é sintoma do controlo social (quase sempre politicamente sustentado) sobre as mulheres, como o dinheiro que as mulheres gastam – e publicamente exibem – na sua aparência é proporcional à liberdade e prosperidade de que as mulheres usufruem em cada país. O meu mais basilar teste ao nível de liberdade de uma sociedade é a resposta à pergunta ‘as mulheres podem usar minissaia e t-shirts de alcinhas?’. É por isto que na minha escala de liberdade a China – onde as mulheres de facto usam minissaias e alcinhas – é um país com mais liberdade do que, por exemplo, o Paquistão, onde até há eleições e é uma espécie de democracia.

Fico contente que estas cogitações entre a relação da indumentária – que é mais uma forma de cada pessoa expressar a sua individualidade e evidentemente revelador da personalidade – com o contexto e posicionamento políticos deixem de estar circunscritos a textos nas revistas femininas ou de moda. Mas, paradoxalmente, a descontração com que tudo isto foi escrutinado em Varoufakis, nos jornais puros e duros, mostrou como a restrição dos discursos (de e sobre homens e mulheres) são condicionados pelos inevitáveis amigos do progressismo intolerante e do politicamente correto.

É certo que o governo grego apoia tanto a igualdade de género que não permitiu nenhuma senhora chefiar um ministério, mas imaginemos que num momento de arrebatada e perigosa loucura Tsipras nomeava uma ministra das Finanças. (Portugal já teve duas, sempre de governos da área da direita, essa gente misógina). E que a imaginária ministra era bonita e com estilo original. Imaginam a gritaria que viria das feministas radicais, e dos seus acólitos masculinos, se a imprensa internacional ousasse comentar se a hipotética senhora era sexy ou não e lhe dissecasse a roupa escolhida para os encontros com os seus pares europeus?

Do extremo da visão da mulher como objeto sexual e avaliada sobretudo pela sua aparência e capacidade de atrair e agradar ao sexo masculino, passou-se para o exagero simétrico em que uma mulher é, oficialmente, um ser sem cara, sem sorriso, sem porte, sem elegância, e a quem é negada (porque ignorada) a possibilidade de se exprimir através da escolha da sua roupa. O discurso sobre a aparência feminina é, impõem, tabu. Se for feito na comunicação social sobre uma mulher poderosa é sexismo imperdoável e medieval e toda a gente emancipada cai em cima da pobre alma que cometer tal sacrilégio. E (agora na base da pirâmide) um humilde transeunte que tenha o desplante de fazer um elogio simpático e educado à aparência de uma senhora com quem se cruze na rua é considerado um proto-agressor sexual pela malta que vê no piropo de rua a grande causa civilizacional do Portugal dos anos 10 do século XXI.

Claro que isto é só hipocrisia. O mundo é sensível às mulheres – e, como se vê pelo caso Varoufakis, aos homens – atraentes e nada mais normal do que assumir-se isso. Estaremos civilizados q.b. quando referirmos os atrativos físicos de uma mulher na política com a mesma naturalidade com que o fizemos para o ministro das Finanças grego. Até lá somos como os homens comunistas chineses, do período da guerra contra os japoneses e, depois, contra os nacionalistas de Chiang Kai-check, que quando trocavam a sua mulher por outra mais nova e mais bonita (e geralmente citadina e educada) recusavam que o fizessem por lhes agradar a juventude e a beleza da nova eleita (comunistas são gente acima de desejos corriqueiros) mas, alegavam, porque esta era politicamente mais esclarecida (nada como as ideias políticas para tocar o coração de um homem).

Mas as constrições de discurso não se ficam por aqui.

Há uns anos na blogosfera escrevi sobre a mudança de visual de Catarina Martins quando se tornou uma das cabeças da liderança bicéfala do BE. Antes Catarina Martins ia para o Parlamento com ar ‘vesti a primeira camisola que encontrei enrolada aos pés da cama e nem me dei ao trabalho de escovar o cabelo’. Depois começou a usar casacos cintados azuis escuros e colares. Fê-lo, evidentemente, por perceber (ao contrário do líder do Podemos, que mantém o ar desmazelado) que desta forma ganharia na perceção de autoridade e credibilidade.

Apesar de isto ser evidente, eu (sexo feminino) não o podia referir. Houve quem se enxofrasse e usasse o argumento previsível: sou uma mulher fútil que repara no que os políticos vestem, porque as pessoas sérias e consistentes estão acima destes pormenores insignificantes, e eu, em boa verdade, deveria limitar-me a escrever sobre assuntos tradicionais do universo feminino, leves e sem profundidade

E isto, sim, é uma limitação de discurso muito sexista. Se uma mulher calha em elaborar pensamentos durante cinco minutos sobre algo que ocupa os políticos de ambos os sexos várias horas por semana (a escolha da indumentária; e, como se sabe, não há nada mais trabalhoso do que um look casual), ora toma que é uma criatura fútil, vá escrever para as revistas do coração, quem é que pensa que é para dar opiniões políticas?

Em resumo. As mulheres ultra-uber-mega-modernas, a.k.a. feministas radicais, não nos deixam elaborar discurso sobre senhoras atraentes. E as mesmas mulheres mais os homens super-hiper-esclarecidos acrescentam às mulheres a proibição de referir a aparência dos políticos dos dois sexos. Mas, não esquecer, os dois grupos são super-ultra-modernos. E, sobretudo, grandes amantes da liberdade de expressão e da igualdade de género.