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A recente chegada do veículo Peserverance à superfície de Marte trouxe-me à memória, entre muitas outras lembranças, o filme magistral de Stanley Kubrick, 2001: A Space Odissey. Certo é que existem muitas outras representações cinematográficas, bibliográficas e até musicais – entre elas a suite The Planets, de Gustav Holst – das aventuras do homem no Espaço, mas a película de Kubrick sobressai pela sua profunda carga enigmática e simbólica da história da humanidade e da sua relação com o universo. Nem a propósito, o primeiro segmento de Odisseia no Espaço – entitulado o “Nascimento do Homem” – descreve a condição primitiva da espécie humana, mais concretamente sob a forma de símios que coabitavam num mundo selvagem.

Estes símios agrupavam-se em diversas tribos, certamente tendo presente afinidades comuns – quanto mais não seja, laços familiares – que disputavam de forma pouco civilizada o acesso a um charco de água para assim saciarem a sede. Num primeiro confronto, a força bruta de combate de um dos clãs superiorizou-se ao adversário, conquistando o acesso à água. Após o embate, um dos membros do grupo derrotado tomou contacto com um estranho monolítico e, como que tocado por uma inspiração, aprende a usar um osso como arma, naquele que é um momento emblemático da sétima arte.

O símio – ou hominídio – tratou de partilhar a sua descoberta com os membros do seu clã. Esta técnica recém-adquirida conferia-lhes uma grande vantagem no duro contexto em que viviam, permitindo-lhes desenvolver métodos de caça mais eficientes e, acima de tudo, reconquistar o acesso à água anteriormente perdido. Esta sequência de acontecimentos é bastante elucidativa daquelas que terão sido as origens da humanidade – é possível que o monolítico esteja a mais –, mas talvez represente muito mais do que isso.

O comportamento dos diversos clãs, visível neste segmento, evidenciava um certo pendor tribal. Vários elementos agrupados em tribos através de determinado elemento aglutinador, mas separados de outros grupos tidos como rivais. É certo que hoje não vemos disputas arcaicas por charcos de água – o que não quer dizer que não existam ou não venham a existir –, mas não podemos deixar de reconhecer que, nos nossos dias, o comportamento humano não deixa de ter fortes influências tribais, ainda que mais sofisticadas.

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Ilustrativo de tal facto é a sobejamente conhecida “experiência de Robbers Cave” conduzida por uma equipa de investigadores liderada por Muzafer Sherif, da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos. A experiência consistiu na seleção de 22 rapazes de contexto familiar semelhante, sem qualquer conhecimento prévio entre si, que foram aleatoriamente divididos em dois grupos. Os dois conjuntos foram colocados em locais distintos no Robbers Cave State Park, um parque de escuteiros em Oklahoma, não tendo conhecimento um do outro durante a primeira semana. Este período permitiu a dinamização de atividades que reforçassem os laços entre os membros de cada equipa, dando lugar ao estabelecimento de normas e convenções entre cada grupo e à escolha de um nome que os designasse – os Águias e os Cascavéis.

Na segunda semana, os grupos encontraram-se, finalmente, através de diversos desafios em que competiam entre si, havendo prémios para os vencedores. A animosidade entre os Águias e os Cascavéis, inicialmente verbal, rapidamente escalou para confrontos físicos, tornando necessária a intervenção dos investigadores – que estavam disfarçados de monitores das equipas – para separar os dois conjuntos à força ao fim de cinco dias. Nos dois dias seguintes, seguiu-se um período de acalmia, com os investigadores a isolar novamente os Águias e os Cascavéis para lhes perguntarem que características associavam ao seu clã e ao rival. A tendência era que cada um olhasse para o seu lado de forma favorável, associando predicados negativos ao outro. Houve ainda lugar a uma terceira fase de reconciliação, apenas atingida com a resolução comum de desafios propostos aos dois conjuntos.

O que esta experiência demonstra é a predisposição para uma competição feroz entre grupos rivais, mesmo sem haver condições de partida que expliquem tal animosidade. Reforçando o enquadramento acima referido, os rapazes eram totalmente desconhecidos entre si e eram oriundos de famílias com perfil bastante semelhante, não havendo lugar a diferenças étnicas, raciais, religiosas ou outras de qualquer tipo. No entanto, a formação de grupos que concorriam pelos mesmos objetivos estimulou o surgimento de violência crescente, podendo ter consequências imprevisíveis, não fosse a intervenção da equipa de investigadores.

Esta tendência para a competição feroz parece estar profundamente enraizada na condição humana desde os seus antípodas. Surpreendemente – ou talvez não – essa tendência nada se tem esbatido, talvez se venha mesmo agravando, apesar da tremenda evolução que a humanidade tem conhecido. Basta olharmos para as redes sociais e para o ambiente de discussão tóxica que nelas prolifera. Numa ferramenta inovadora que nos permite estarmos todos “ligados”, parece paradoxal que dê cada vez mais azo a divisionismos insanáveis, que surjem de divergências muito mais facilmente superadas através de argumentações cordiais. Se atentarmos à realidade portuguesa, à semelhança de outras geografias pelo mundo fora, as redes sociais parecem espelhar um panorama político que tem exibido uma crescente polarização entre dois extremos, um de índole mais à esquerda e o outro de direita.

Estes dois polos procuram afirmar-se, em primeiro lugar, por antagonismo e oposição ao outro, cavalgando ressentimentos e acicatando um fosso cada vez maior numa sociedade fragmentada. Disso são exemplo as inúmeras referências simplistas e sem conteúdo de crítica a Nicolás Maduro e à Coreia do Norte, ou a Trump e a Bolsonaro, com o mero objetivo de granjear pontos garantidos de popularidade dentro da sua tribo, obtendo massagens grátis ao próprio ego. Adicionalmente, o tratamento binário que cada um destes polos dá a qualquer pessoa – ou alinha pelo seu lado ou é inimigo – é totalmente contrário a um espírito democrático e construtivo, atirando a moderação e independência para uma “terra de ninguém”, recebendo um ódio visceral de ambos os extremos.

Tudo isto merece, no mínimo, uma reflexão. O Homem que soube vencer o frio ou a escuridão, que construiu formas de organização cada vez mais complexas, que desenvolveu instrumentos que muito melhoraram a sua qualidade de vida, ou que foi das profundezas do mar ao espaço sem fim, é o mesmo ser que não consegue abandonar o seu instinto para a competição selvagem, que muitas vezes faz perigar esses e outros progressos. O Homem que largou os paus e as pedras, abandonou as frias e escuras cavernas, muniu-se de teclados e internet para competir pela a afirmação da sua tribo, comodamente sentado numa toca eletrónica de onde não consegue emergir para pensar com clarividência.

É importante que aqueles que conservam a sua independência e que partilham as suas convicções de forma cordial e franca não cedam à força centrifugadora dos extremos. São esses que poderão criar pontes onde reina a divisão e, à semelhança da equipa de Sherif, dar objetivos comuns a todos para que possam vencer as suas divisões e trabalhar em conjunto para os atingir. A manter-se este divisionismo crescente, corremos o risco de ver a humanidade pisar Marte enquanto se afunda numa caverna digital, embrutecida como um símio que luta pelo seu charco de água, martelando furiosamente num teclado na sua cruzada para humilhar a tribo rival.