Rádio Observador

Banca

O medo do Montepio e dos devedores do Novo Banco /premium

Autor
1.171

Na última semana ficámos a saber que a Associação Mutualista Montepio Geral consegue obrigar o Governo a mudar leis. E que não se enfrentam devedores do Novo Banco por medo.

Muita coisa pode ter mudado na supervisão dos bancos. Regras mais apertadas, maiores exigências de capital, uma actuação mais baseada em regras e menos influenciada pela rede de amigos porque feita a partir Frankfurt. A margem de manobra para se fazerem asneiras neste momento reduziu-se. Só uma cosia não parece ter mudado: a protecção de antigos devedores e responsáveis, com um poder difícil de compreender. Uma revelação implícita no que disseram os dois membros da Comissão de Acompanhamento feita na semana passada. Uma semana em que também se soube que no Montepio Associação Mutualista as leis, as regras e os governos são para desprezar.

Comecemos por este último tema. Por motivos insondáveis, assistimos à incapacidade ou falta de vontade do Governo de avaliar a idoneidade de António Tomás Correia para se manter à frente dos destinos do Montepio Geral Associação Mutualista. De tal maneira que fez uma clarificação da lei à pressa, rapidamente promulgada pelo Presidente da República, para atirar a batata quente para a Autoridade de Seguros e Fundo de Pensões (ASF).

Não deixa de ser interessante ver o Governo, que tantas vezes se imiscui nas competências das autoridades de regulação e supervisão atirar para cima do supervisor uma competência que, sem a lei “clarificada”, seria sua: a de avaliar se António Tomás Correia tem condições para se manter à frente da maior associação mutualista do país. Como pode ser revelador também o facto de ter sido mais fácil tirar Ricardo Salgado, conhecido como o Dono Disto Tudo, do BES do que retirar Tomás Correia da associação mutualista do Montepio.

O centro do poder percebe-se em parte pelo que disse o Padre Vítor Melícias e foi reportado pelo Observador. “Não é um secretariozeco ou um qualquer ministro que vai afastar uns órgãos sociais democraticamente eleitos”, disse o Padre Vítor Melícias, conforme se pode ler aqui no Observador num relato do Conselho Geral da associação que decorreu na terça-feira dia 12 de Março.

O Governo não se sentiu insultado por isso, nem nenhum outro órgão democraticamente eleito, permitindo-se que os órgãos sociais de associações possam dizer e actuar como se tivessem maior legitimidade democrática e autoridade do que os governos e o parlamento. Mais: o Governo assim insultado resolveu rapidamente retirar de cima de si a competência de supervisão que lhe dava poder para demitir Tomás Correia e entregá-la ao supervisor dos seguros. O Padre Vítor Melícias poderá agora substituir “secretariozeco” e “ministro” por “supervisorzeco” e dizer a mesma coisa. Nessa altura não estranharemos se virmos o Governo a colocar-se contra o supervisor.

A tudo isto assistimos como se fosse normal. Há de facto poderes que a razão desconhece. Mas este não é único. Há outros.

A equipa da Comissão de avaliação dos ativos problemáticos do Novo Banco foi ouvida no Parlamento. O seu presidente José Rodrigues Jesus não podia ter sido mais frontal nem podia ter fornecido mais dados aos deputados para resolverem o problema, se é que o querem resolver. Disse José Rodrigues Jesus que é preciso “muita coragem” para resolver casos de crédito malparado no Novo Banco que “são muito maus”. E é preciso “coragem” por causa dos “nomes de estimação” que são os que “aparecem nos jornais”. E que estão presentes no famoso trio: CGD, BES/Novo Banco e BCP

Na prática estamos a falar de empresas e nomes que datam do tempo da troika e estão mais do que identificados. Um dos primeiros retratos foi concluído em Janeiro de 2014 no ETRICC (Exercício transversal de revisão das imparidades dos créditos concedidos a certos grupos económicos que foi publicado pela primeira vez no livro que escrevi “A vida e a morte dos nossos bancos” )

Só para identificar os grandes montantes, estamos a falar da Promovalor de Luís Filipe Vieira do Benfica que em Janeiro de 2014 era responsável pela segunda maior dívida de grandes grupos ao BES – a primeira era o próprio grupo Espírito Santo. O Novo Banco reestruturou essa dívida há um ano vendendo activos à Capital Criativo de Nuno Gaioso Ribeiro.

Mas estamos também a falar da dívida de Joe Berardo, distribuída pelos três bancos, e que ascende no seu conjunto a quase mil milhões de euros e que ninguém manifesta vontade de resolver a sério – nem que seja ficando com a colecção Berardo e outros bens, como a quinta da Bacalhoa e os imóveis que se dá ao luxo de exibir.

O que é mais preocupante nas declarações da Comissão de avaliação dos ativos problemáticos do Novo Banco é perceber que mesmo depois de já se ter decidido injectar quase dois mil milhões de euros no Novo Banco, depois da sua venda à Lone Star, há devedores que continuam intocáveis.

É preciso dizer que esses devedores, que podem continuar a dever sem pagar e que podem continuar a ter o mesmo reconhecimento social, estão a beneficiar de dinheiro que é de todos nós. É preciso dizer que é incompreensível que o Governo revele ter medo de demitir o presidente de uma associação mutualista. Há casos que nunca se resolverão na banca com este medo de enfrentar os responsáveis pelos seus problemas. Por muito que a União Bancária torne a banca mais segura.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Greve

As greves antes e depois dos motoristas /premium

Helena Garrido
759

As greves podem nunca mais voltar a ser as mesmas depois do que está a acontecer com os motoristas. Estas greves são em si efeitos de um Governo com o inédito apoio dos partidos de esquerda.

Legislação

Menos forma, mais soluções /premium

Helena Garrido
166

É aflitivo ver-nos criar leis e mais leis sem nos focarmos nas soluções. A doentia tendência em catalogar tudo como sendo de esquerda ou de direita tem agravado esta incapacidade de resolver problemas

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)