Em menos de dois meses, a diplomacia europeia sofreu duas humilhações diplomáticas à frente das câmaras de televisão que transmitiam para todo o mundo.

A primeira foi em fevereiro, quando Sergei Lavrov disse ao seu convidado Joseph Borrell que a instituição que este representava era um “parceiro no qual não se podia confiar”. O Alto Representante da União Europeia tinha censurado Moscovo relativamente ao caso Navalny e o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo não aceitou a crítica, ainda que não fosse a primeira vez que esta lhe era dirigida por outros chefes de Estado.

A segunda teve lugar há dois dias, quando Ursula von der Leyen e Charles Michel visitaram a Turquia e Recep Tayyip Erdoğan ofereceu um lugar numa cadeira a seu lado (em pé de igualdade) ao Presidente do Conselho Europeu, deixando a Presidente da Comissão de pé e acabando por relegá-la para um sofá lateral, sublinhando o tratamento desigual entre os dois representantes.

Em ambos os incidentes, os visados ficaram tão surpreendidos que foram incapazes de reagir no momento. Também não houve propriamente uma resposta firme mais tarde. Mas este não é o único elemento que estes dois casos têm em comum. Ambos os episódios mostram a forma como a Europa é percecionada pelos seus adversários. E não se pode dizer que saia muito bem na fotografia. A fraqueza europeia parece um dado adquirido internacionalmente.

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Um conjunto de fatores explica esta perceção internacional da fragilidade europeia.

Em primeiro lugar, está um paradoxo que a Europa não está a conseguir resolver. Por um lado, procura uma “autonomia estratégica” das grandes potências que estão, cada vez mais nitidamente, em confronto – Estados Unidos, China e, de forma menos determinante, Rússia – que pressupõe uma neutralidade política impossível num sistema internacional em mudança. E. H. Carr explicou porquê. A neutralidade só foi possível enquanto houve entendimento entre todas as grandes potências. Quando esse entendimento acabou definitivamente depois da II Guerra Mundial, os Estados fracos passaram a estar obrigados a pedir guarida a quem lhes proporcionasse segurança. A Europa parece não querer nem constituir-se como um força política, nem como aliado firme de uma grande potência. Quer uma liberdade neutra para fazer o que bem entender.

Mas o outro lado do paradoxo é que, apesar desta indecisão, a União Europeia quer ser um ator global respeitado noutros domínios, do comércio à tecnologia, passando pela liderança nas alterações climáticas. Quer ser um poder normativo ou, em linguagem mais recente, quer ser um poder “regulador”. Parece esquecer-se que, para ditar regras, é preciso poder. E a ausência de solidez política e de poder militar num ambiente internacional onde a cooperação foi essencialmente substituída pela competição, escolher um papel internacional sem bases que o sustentem é não só impossível do ponto de vista político, como perigoso do ponto de vista da segurança. E é esta falta de solidez política que dá um sinal muito claro aos adversários europeus: que podem cometer abusos sem sofrer represálias de maior.

Em segundo lugar, a neutralidade europeia é, também ela, duvidosa. Durante quatro anos, os líderes europeus queixaram-se abundantemente da ausência americana na liderança internacional e nas instituições atlânticas. Agora que os Estados Unidos estão de volta com uma oferta de parceria privilegiada, a Europa parece não saber o que fazer.

A Europa precisa da NATO (voltamos ao problema de ausência de poder militar autónomo) e, por conseguinte, do chapéu-de-chuva de segurança norte-americano. Mas ao mesmo tempo tem imensa dificuldade em seguir a administração Biden numa questão central para os EUA: o desacoplamento da economia dos países ocidentais da chinesa. Há duas razões distintas: as economias europeias mais frágeis já são dependentes da China de facto e algumas das economias mais fortes não querem prescindir de negócios com os adversários de Washington, prevenindo a União de ter uma política relativamente coordenada no que diz respeito à sua política de alianças. E se isto se passa com a China, passa-se com outros países. A economia e a segurança entraram em choque e não há visão estratégica que a desempate. Mais uma vez, os adversários têm espaço de manobra para porem e disporem dos líderes europeus.

Finalmente, constata-se uma ironia, também ela paradoxal. Em 2008, quer John McCain, quer Barack Obama propuseram como tema das suas campanhas estender a comunidade de segurança das democracias liberais para fora do espaço geográfico do Ocidente. A ideia foi acolhida com entusiasmo pela Europa e rejeitada pelas democracias fora do espaço atlântico, que queriam manter um certa margem de manobra para reagirem à ascensão chinesa. Hoje, essas democracias perceberam que só aliando-se aos Estados Unidos conseguem fazer face a Pequim, cada vez mais assertiva. A aliança das democracias versão Biden está a acontecer com o Japão, a Índia e a Austrália, e – de uma forma menos evidente – com a Coreia do Sul, a Nova Zelândia e o Vietname. Agora, a Europa, a da “Comissão Geopolítica”, parece querer ficar de fora. Uma comunidade de democracias duradoura é um dos mais inestimáveis bens internacionais, especialmente para um continente enfraquecido. Trocá-la por negócios no curto prazo é, no mínimo, um erro enorme.

É isto que os adversários da Europa percebem. Que esta está perdida: não sabe se deve optar pela neutralidade ou pelos seus aliados de sempre; se quer fazer negócios com a China e a Rússia ou preservar a sua segurança; diz que quer liderar dossiers complexos sem verdadeiro poder diplomático para o fazer. E enquanto a Europa não se decide, enquanto os Estados europeus continuarem a não se entender quanto a elementos centrais no sistema internacional de hoje, os adversários continuarão a fazer o que bem entendem. Porque sabem que a Europa não tem como responder.