António Costa

Obviamente, não se demitiu /premium

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À semelhança dos cachorros da lenda os profissionais do comentário ouvem as campainhas e reagem em conformidade, no caso em auxílio do dono que ameaçava repetir o trágico resultado eleitoral de Seguro

Foi a pior decisão desde que a Decca rejeitou os Beatles. Ou desde que os fundadores do Burundi olharam em redor e anunciaram que sim, senhor, aquilo daria uma nação próspera e impecável. Escolhi mal a semana de férias e vi-me privado de elogiar a interpretação do dr. Costa na já célebre rábula da “demissão”. Felizmente, não faltou quem elogiasse. Nas televisões, nas rádios, na “net” e, dizem-me, nos jornais tradicionais, cerca de 97% dos comentadores nativos souberam homenagear devidamente o grande estadista que nos tocou em sorte. E que sorte! Segundo a opinião geral, o dr. Costa teve uma prestação brilhante. O dr. Costa é um estratega raro. O dr. Costa frequenta a vizinhança do génio absoluto. De brinde, apurou-se que, em parelha com a risonha figura das Finanças, o dr. Costa é um modelo de escrúpulos contabilísticos.

Por sorte, o Observador é um espaço de liberdade que me permite, mesmo com imperdoável atraso, juntar a minha modesta voz a vozes respeitadíssimas do calibre de um Marques Mendes ou de dois José Miguel Júdice. Por azar, não sou capaz. A escassa atenção que dediquei ao assunto sugeriu-me que em lugares civilizados o assunto nunca passaria das secções dedicadas ao insólito, ao lado de ameixas siamesas e da velhinha que desceu nove andares pendurada em varandas: “Governante com 9 anos de idade mental presume que os eleitores têm 8”. Naturalmente, tratou-se apenas de uma golpada baixa, tosca e digna do dr. Costa, que, apavorado com as perspectivas para as “europeias” e munido do domínio da língua que Deus lhe deu e os professores (lá está) não lhe deram, convocou os “media” para fingir, muito mal, uma birra.

A patranha era a de que, em nome do rigor orçamental, o governo apresentaria a demissão se se visse obrigado a largar 800 milhões – ou 600, ou 300, que a ciência dos números é fluída – para “descongelar” professores. O dr. Costa, o exacto dr. Costa que não saiu após a derrota de 2015, dos incêndios (excepto para uma praia espanhola), de Tancos, da rede de nomeações familiares e, consta, na juventude se viu arrastado de uma associação estudantil que perdera nas urnas, iria abdicar de mandar nisto por causa de 800 milhões fatalmente roubados ao contribuinte? É menos do que, ainda há pouco, o Estado prometeu “investir” em “acessibilidades”, “passes” e transportes, incluindo bicicletas. É menos do que o custo estimado do novo aeroporto do Montijo. É menos do que o que se despeja com regularidade na banca (cujos senhores, com divertido descaramento, se apressaram a louvar a “estabilidade política” logo que os efeitos da rábula se dissiparam). E é mais, bastante mais, do que o cidadão com dois neurónios devia estar disposto a engolir.

Estranhamente, ou, para quem conhece as tradições locais, nem por isso, os profissionais do comentário engolem o que calha. É possível que alguns só possuam um neurónio. Os restantes talvez tenham colocado todos os neurónios em sabática, a fim de disponibilizar a totalidade do córtex para a exaltação do Supremo Líder. Não importa perceber como é que essa gente consegue dormir à noite. A pergunta adequada é: como é que permanecem acordados de dia? Não se envergonham do papel que desempenham à vista desarmada? Não sentem um pingo de embaraço? Sequer um nozinho na garganta? E as respostas são não, nada e nem por sombras. À semelhança dos cachorros da lenda, os profissionais do comentário ouvem as campainhas e reagem em conformidade, no caso em auxílio do dono que ameaça repetir o trágico resultado eleitoral do dr. Seguro, que Deus guarde. A conveniência, o estipêndio directo e a mera rotina condicionam de facto os reflexos. A natureza é fascinante.

E os profissionais do comentário não se limitaram a canonizar o dr. Costa, um profissional da irresponsabilidade que, à imagem de certo “irrevogável”, usa o poder que lhe caiu em cima para artimanhas e chantagens reles. Dado que lhes falta em vergonha o que lhes sobra em método, lançaram-se em simultâneo na excomunhão do dr. Rio, acarinhado diariamente enquanto o PSD afocinhava nas sondagens. O dr. Rio é um desastre desde a primeira hora? É. Por isso convinha promovê-lo a título de “moderado”, por oposição (real) a Pedro Passos Coelho e para oposição (nula) ao PS. Assim que os inúmeros parentes do sr. César, os enxovalhos da economia e um candidato inacreditável sugeriram estragar a festa de 26 de Maio, o dr. Rio tornou-se o protagonista da chacota colectiva.

Diga-se que o dr. Rio, que junto com o CDS acabou por ceder à miserável encenação do dr. Costa, merece a chacota. Diga-se que o prof. Marcelo, que aproveitou a “crise” para sumir durante uma semana, merece o descanso. Diga-se que os professores, que confiaram num sindicato movido por interesses alheios aos assalariados que representa, merecem a desfeita. Diga-se que os portugueses, cuja maioria parece apoiar o “ultimato” do dr. Costa, merecem o dr. Costa. E diga-se que os profissionais do comentário, que alimentaram a anedótica “demissão”, mereciam ser demitidos.

Nota de rodapé

O parlamento aprovou por unanimidade o convite a uma criança sueca preocupada com as alterações climáticas. Há meses, a criança celebrizou-se ao declarar greve à escola para combater o capitalismo, a suposta causa das referidas alterações e a causa comprovada dos confortos de que a criança usufrui. A criança inspirou milhares de crianças em todo o mundo a fazerem greve à escola, uma impossibilidade logística: à escola, faz-se gazeta. A criança, que é autista, chegará a Portugal de comboio para não poluir muito o ambiente. De seguida, a criança discursará na AR sobre os males que a consomem e a urgência de um mundo melhor. Até porque pior é impossível.

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