Na entrevista ao jornal Público do passado Domingo, o ministro das finanças Mário Centeno confessou ter tido medo nos primeiros tempos da governação da Geringonça. Teria entrado em pânico se tivesse chegado ao Ministério das Finanças em 2011?

O medo de Centeno é um bom sentimento. Assumiu com responsabilidade as funções que lhe foram confiadas e, sendo um bom economista, tinha consciência que não poderia falhar nas metas orçamentais. Hoje sabemos que as alcançou com um grande aumento da receita (+13% entre 2015 e 2018), com a poupança em juros da dívida (-15%) e com o investimento público em valores mínimos (-12%) e serviços e transportes públicos à beira da ruptura. Ainda assim houve espaço para aumentar a despesa com pessoal (+7,4%) e, apesar da extraordinária queda do desemprego, as prestações sociais (+6,5%). Globalmente, em termos reais, a despesa em 2018 foi praticamente igual à de 2015. Percebe-se assim que não houve uma mudança dramática na austeridade, como Centeno confessou em abril deste ano ao Financial Times.

Centeno foi um Ronaldo, nas palavras do ex-ministro das Finanças alemão Schauble; um ponto de lança, nas palavras do primeiro-ministro. Satisfez a esquerda com muito pouco e convenceu os mercados da sua determinação em consolidar as finanças públicas. Usou as cativações com mão férrea para controlar a execução orçamental. Subordinou toda a política do Governo às suas decisões.

O ministro das Finanças ganhou contornos de astro e foi decisivo para que a narrativa do Governo ganhasse adesão. Mais do que uma narrativa, tornou-se um mantra: a devolução dos rendimentos gerou confiança, que permitiu que o investimento e as exportações aumentassem e, assim, a economia crescesse. Como em todas as histórias que colhem junto da população, há aqui uma parte de verdade. A devolução de rendimentos apaziguou a sociedade portuguesa. Esse apaziguamento fortaleceu a coesão e, nesse sentido, aumentou a confiança. No entanto, a confiança que fez aumentar o investimento a partir da segunda metade de 2016 não resultou da devolução dos rendimentos. Pelo contrário, resultou da confiança dos mercados e dos investidores no compromisso do Governo com as metas orçamentais, ou seja, de que, no essencial, não haveria uma mudança dramática na austeridade.

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