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Política

Podemos falar de coisas sérias?

Autor
  • Salvador Furtado
327

Outubro já não está assim tão distante, e o governo sabe isso. Mas o assunto da maior carga fiscal de sempre? E o da corrupção? E o de sermos um dos países com um dos piores crescimentos da zona euro?

Isto é um pedido sério. Eu sei que é difícil pedir ao atual governo que seja sério com os portugueses, nunca o foi, nem nunca o será. Mas é preciso ser sério, isso é.

Sou da opinião que não se deve ir atrás de fantasmas de governos anteriores, nem tão pouco, fazer campanha atrás de alguém em particular. Mas por uma simples razão: há tantos outros assuntos para demonstrar a falta de competência deste governo.

Podia evocar a (ainda) falta de competência em lidar com os incêndios de Pedrogão ou falar do desastre na pedreira de Borba. Podia explicar que há mães que têm de se deslocar oitenta quilómetros para ter um filho, uma vez que não existem hospitais próximos das suas residências. Enumerar até a falta de camas em inúmeros hospitais do país. Se quisesse ser mesmo sério, falava das greves dos professores ou das perseguições a condutores nas autoestradas por parte do fisco. Mas isso era se eu estivesse representado por uma instituição séria. Em virtude de não existir seriedade, não vale a pena trazer tais assuntos para a ordem do dia, visto que tudo acontece por mero acaso.

Mas peço, mais uma vez, sejamos sérios.

Sejamos sérios pois essa é a nossa maior vantagem – não deixemos cair em esquecimento todos os problemas acima descritos. Não toleremos que uma tragédia que tirou a vida a inúmeros portugueses seja só uma pedra no sapato de António Costa. Não aceitemos que uma simples demissão da ministra da administração interna seja suficiente.

Não nos conformemos com o desaparecimento das armas em Tancos. Não podemos admitir que a simples troca de ministro seja um pedido de desculpas do governo. Não compactuemos com a constante falta de segurança a que estamos sujeitos – onde é que estão os verdadeiros responsáveis? É preciso apurar até ao mais ínfimo detalhe, até lá, não nos conformemos.

Não toleremos o Ministério da Cultura que no site oficial do governo afirma e leia-se “A área de Governo da Cultura tem por missão formular, conduzir, … designadamente, na salvaguarda e valorização do património cultural”, contudo, não sabe a localização exata de cerca de 170 obras de arte.

Não compactuemos com o Ministério das Infraestruturas que falha todos os dias no serviço de transportes públicos. Não sejamos cúmplices das constantes falhas da CP, que já proibiu os seus funcionários de denunciarem problemas internos. Não sejamos cúmplices das supressões dos comboios na linha de Sintra ou na linha do Algarve. Não toleremos um governo que permite a circulação de comboios onde existe a possibilidade da queda do motor.

Outubro já não está assim tão distante — e o governo sabe isso. Já deu início à sua arte de confundir os Portugueses: anunciou a descida do preço dos passes de metro; reduziu o imposto sobre o preço da gasolina; reduziu a taxa do iva na eletricidade e até já foi prometida a redução de propinas escolares. Mas e os outros assuntos? O assunto da maior carga fiscal de sempre? E o assunto da corrupção? E o assunto de sermos um dos países com um dos piores crescimentos económicos da zona euro? E os meios de transporte? E os hospitais? E os responsáveis de Tancos? E os incêndios florestais? E as obras de artes perdidas?

Falemos de coisas importantes. Mas sejamos sérios.

Se o governo não é sério, sejamos nós.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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