Enquanto Psicóloga, vivi já alguns episódios hilariantes em situações sociais como quando numa festa a pessoa que acabo de conhecer interrompe a conversa que se desenrolara perante a revelação da minha profissão para comentar “então está a avaliar-me, já sabe tudo sobre a minha personalidade?” Aceno que sim, soltando uma gargalhada perante os olhares surpresos e desconfortáveis. Depois de me divertir por uns breves instantes, tranquilizo os presentes que me rodeiam esclarecendo que não estaria ali a trabalho, que necessitaria de muito mais do que uns meros instantes e de um contexto próprio para realizar uma avaliação psicológica e que a prática da psicologia cumpre com um conjunto de princípios que constituem o código deontológico.

Por entre sorrisos e suspiros ambivalentes de alívio e alguma pena que detecto (o conhecimento acerca de nós próprios fornecido pelos outros de forma quase instantânea gera para muitos um íman difícil de atenuar) lá vou explicando alguns desses princípios que logo ali se aplicam, entre eles o da responsabilidade, o da beneficência e não-maleficência assim como o do consentimento informado. Esclarecidas as preocupações iniciais, abre-se invariavelmente um período de manifestação de curiosidade e questões várias e de partilha de informação pessoal sensível, dissimulada com “uma pessoa minha amiga está a passar por x situação. Será que…?”

Poucos são os que resistem a não tentar aproveitar momentos sociais destes para uma espécie de consultoriozinho, breve que seja. E assim foi. Logo que me apanhou sozinha a tal pessoa precipita-se a partilhar comigo que uma pessoa próxima se tinha separado, tudo muito repentino e inesperado, com várias mudanças difíceis a terem de ser feitas e que não estaria nada bem. Descreve que esta sentirá muita ansiedade, que lhe liga descontrolada e perdida na sua dor variadíssimas vezes durante o dia e até à noite e que já terá acontecido ter ataques de pânico. O mais recente tê-la-á levado às urgências de um hospital público onde relata ter recebido conselhos moralistas do tipo “Está assim por causa de um homem?! Há mais pessoas no mundo, não vale a pena sofrer assim!” e uma prescrição de psicofármacos, que não compreendeu. Nem mais. A tal pessoa questiona-me se assim é que deve ser, estupefacta. Respondo-lhe que não, que provavelmente a ajuda que teve foi porque não estão disponíveis outras formas de ajuda no SNS, como por exemplo Psicólogos, razão por que se recorre sobretudo ao tratamento farmacológico.

O mais recente Relatório de Primavera do Observatório Português dos Sistemas de Saúde é claríssimo no que à saúde mental diz respeito, colocando o dedo na ferida da escassez de Psicólogos no SNS (apenas 601, o que corresponde a um rácio de 0,285 psicólogos por 5000 habitantes e com uma distribuição manifestamente heterógena) e do elevadíssimo consumo de psicofármacos (em que Portugal se posiciona na dianteira dos demais países da OCDE). Refere igualmente as mais-valias que o investimento em mais Psicólogos no SNS significaria, em particular se nos Cuidados de Saúde Primários, para além do evidente aumento da acessibilidade dos serviços de intervenção psicológica, a ”disponibilização de tratamentos mais custo-efectivos, a diminuição da prevalência de problemas de saúde mental, a poupança em cerca de 20% a 30% dos custos e diminuição das idas às urgências, das hospitalizações e do tempo de internamento”. Não é de mais lembrar que 1 em cada 5 Portugueses tem um problema de saúde psicológica…

“E porque não se muda a Saúde?”, que é como quem diz os cuidados prestados e os profissionais disponíveis, retorquiu ainda a pessoa que acabara de conhecer. Ainda que à parte naquela situação social, tentando atender às interpelações que o estado de saúde da “pessoa amiga” causavam já não consegui responder mais (por tão pouco compreender) à indignação acerca do estado da Saúde do país: mas se assim é, porque não se muda?

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicologia da Educação, Psicoterapia e Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira