1 Em Dezembro de 2001, depois de perder umas autárquicas, António Guterres demitiu-se porque o país estava num pântano político, na feliz expressão do então Primeiro-Ministro. Na altura, o pântano era um país cuja dívida pública era de 57.4% do PIB, tinha atravessado uma década cujas taxas médias de crescimento económico eram de 3.5%, com um desemprego historicamente baixo. António Guterres demitiu-se porque percebeu que, na matemática parlamentar, o seu PS tinha chegado ao fim da linha. Nestes quase vinte anos, o significado de pântano mudou significativamente. Hoje, o PS, igualmente em minoria, com uma elite política que é, no fundamental, uma continuação do período de Sócrates, convive bem com uma dívida pública que, antes da pandemia, era de 130% do PIB. O investimento público do Estado Português em ajudas à economia para aguentar o embate da pandemia é dos mais baixos da União Europeia, simplesmente porque, ao contrário do que Costa diz, o milagre da geringonça nunca existiu. É curioso, aliás, perceber, no meio da crise pandémica, que a Troika e Passos Coelho ganharam. O ethos da necessidade de controlo da dívida e do défice são agora regras não-escritas inculcadas na cultura política nacional.

2 Infelizmente, estamos a pagar com língua de pau a manutenção do pântano Socialista. Para garantir a aprovação do OE, o governo negociou com o PCP um conjunto de contrapartidas, na casa dos mil milhões de Euros, para satisfazer as clientelas comunistas. Importa sublinhar que o OE para 2021, com o elevadíssimo grau de incerteza existente devido à pandemia, tem pouco (nenhum?) valor do ponto de vista político. Uma alteração da situação sanitária pode levar a que, de um momento para o outro, todas as premissas em que o OE foi construído desabem. No entanto, fica o sinal que o governo deu que, ao invés de pensar o país a longo prazo, com medidas estruturantes para o futuro, está a trocar a sua manutenção no poder por medidas avulsas e sem qualquer plano. António Costa e os seus parceiros de esquerda podem querer montar uma história alternativa para efeitos políticos. No entanto, o fantástico desenvolvimento que Portugal viveu desde 1974, e todos os indicadores apontam para aí, foi obra de dois partidos: PS e PSD. O Serviço Nacional de Saúde e a Educação foram obra dos dois partidos, com o forte apoio da União Europeia. Como podem PCP e BE clamar os louros sobre a evolução do país se, até 2015, nunca estiveram no poder? Relembre-se, por exemplo, que os Comunistas, parceiros privilegiados do PS em 2020, sempre foram anti-Europeus. Onde estaria Portugal sem a União Europeia e a sua preciosa ajuda, especialmente neste momento de crise profunda?

3 Pensando no futuro do país certamente, esta semana o Ministério da Ciência e Tecnologia anunciou a abertura de concursos de financiamento de investigação. Há uns anos, o dinheiro gasto pelos países em investigação poderia parecer ao cidadão comum algo esotérico ou a satisfação dos desejos de uma elite intelectual que não contribuía com algo tangível para o desenvolvimento dos países. Creio que, em 2020, esta narrativa acabou. A ciência e a indústria farmacêutica – é certo que com grandes lucros — preparam-se para, basicamente, salvar o mundo da pandemia. Assumindo que todo o processo de vacinação corre como se espera, podemos agradecer aos milhares de milhões que países civilizados foram investindo em ciência ao longo das últimas décadas. Nunca, como hoje, a serendipidade foi tão importante. A vacina contra o vírus permitirá o arrancar da economia e o regresso à vida normal. Ora, neste cenário, depois de ter “pago” mil milhões ao PCP para manter o governo à tona, António Costa prepara-se para gastar 75 milhões de euros em investigação científica. Apesar da paixão pela educação, pela ciência e pela nova economia, verde, claro, a Ciência continua a ser o parente pobre do investimento público, apesar de 2020 demonstrar à saciedade os benefícios que os países podem retirar do investimento desta área. Os outros países, claro.

4 O actual pântano político, que será rapidamente posto à vista de toda a gente finda pandemia, teve a contribuição muito especial do Senhor Presidente da República. Ao contrário de Cavaco Silva, muitíssimo criticado por exigir acordos escritos entre os parceiros da geringonça, com a sua proverbial tibieza, Marcelo Rebelo de Sousa não fez quaisquer exigências a António Costa. Deixou-o navegar à vista. Existe ampla investigação académica que demonstra que a existência de acordos parlamentares ou de governo entre os partidos diminuem o que os economistas chamam de custos da transação, facilitando a governação, diminuindo a incerteza, tudo aspectos que seriam indispensáveis nesta fase difícil que o país atravessa.

5 Olhando para o cenário geral, estamos a navegar à vista, com um governo fraco, sem qualquer visão para o país (onde está o magnífico plano de António Costa e Silva?), e que aguarda ansiosamente o dinheiro Europeu para começar a reanimar a economia, baseado, novamente no betão travestido, naturalmente, de economia verde. Pobre sina a nossa.