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Li Si 李斯 (ca. 280—208 a.C.) não é apenas um personagem pivot na longa e rica história chinesa, mas também alguém que, de algum modo, faz lembrar Xi Jinping 習近平. Na sua juventude era um funcionário na base da pirâmide administrativa do estado de Chu .  Contam as crónicas que, tendo ido um dia, na sua condição humana, à casinha[1], viu um rato[2], sujo e magro, a comer fèn[3] humano que, assim que o viu, fugiu amedrontado. Mais tarde, nesse mesmo dia, terá ido, na sua função de funcionário público, ao celeiro estatal. Também aí terá visto um outro rato, este gordo e lustroso, a comer grão do erário público, que o olhou sem receio e com algum desprezo e condescendência.

Não é certo que Li Si tenha intuído, nesse instante, que a condição dos dois ratos era simbólica do estado em que a nação lusa iria estar na primeira metade do século 21, com políticos, empresários-conectados, funcionários, tapes, novos-bancos e outros roedores a engordarem-se, sem receio e com impunidade, à mesa do orçamento d’estado, e com agricultores, trabalhadores por conta de outrem, utentes dos serviços públicos, estudantes e empresários-da-gig-economy-com-sacos-térmicos-às-costas condenados a viver, não com os restos, mas com os dejetos. O que é certo é que, gerações posteriores de historiadores, identificam este episódio como o momento em que Li Si descobriu, e deu à humanidade, o princípio de que “quem não está bem muda-se”.

Princípio que tem movido multidões a saírem quando podem, ou a querer fazê-lo, mesmo quando não podem, de países socialistas e afins, isto é, países governados por caciques, cliques, elites, estirpes e mullahs que consideram os seus súbditos incapazes não só de prosperar, mas até sobreviver, se deixados soltos e sem trela em economias de mercado e concorrenciais. E para onde querem ir essas multidões tresloucadas? Para aqueles países onde possam ser selvaticamente exploradas num sistema capitalista desapiedado, racista e machista. Para a Austrália e Estados Unidos, para a Europa e Taiwan.

Também os portugueses têm aplicado entusiasticamente este princípio às suas vidas. Como? De dois modos. Por um lado, emigrando para a Europa & países similares. Esta solução tem tido vantagens claras e substanciais para multidões de tugas que por ela optaram, mas não está isenta de problemas, especialmente se o país de acolho vier posteriormente a abraçar o socialismo: veja-se o que aconteceu, e está a acontecer, aos nossos compatriotas na Venezuela.

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Um outro problema é que aqueles que saem, porque não se sentem bem, deixam de contribuir ativamente para a solução das condições políticas e sociais, nomeadamente o caciquismo e socialismo, que fazem com que eles, e todas as pessoas normais, não se sintam bem. A emigração, ao servir como válvula de escape, ajuda a perpetuar os nossos males estruturais ao impor que a luta, esforços e sacrifícios necessários para reformar a perversidade do nosso sistema recaia, como maior peso, no conjunto mais pequeno das pessoas que ficam. E, como é obvio, à medida que os resistentes antisocialistas diminuem em número, devido à emigração, a sua capacidade de virem a conseguir reformar o regime diminui.

Mais: o emigrante, não só não contribui para a reforma da podridão do nosso estado, mas também vai beneficiar de um medonho sistema de liberdade económica e social, no país de destino, sistema para cuja instauração ele nada ajudou. É um free-rider, alguém que beneficia de um bem sem para ele nada contribuir. De certo modo atua, portanto, como um socialista, apropriando-se do que não é seu e comendo do que não produz, indo gozar de uma liberdade—e consequente, de uma prosperidade—pela qual outros deram a vida. É portante legitima a questão: será socialmente responsável emigrar para o capitalismo sem antes partir os dentes ao socialismo no nosso país? Não demonstrará isso falta de civismo? Se não é ético não contribuir para a descarbonização na produção e consumo, será ético emigrar e, desse modo, não cooperar na descarbonização da vida política e cívica nacional?

O outro modo que os portugueses que não se sentem bem têm adotado para se mudar para melhor é filiarem-se[4] nu ps e noutras organizações de acesso aos celeiros estatais. Tal como a emigração, esta é uma solução que potencia uma significativa melhoria no nível de vida. No entanto, também esta é uma ‘solução’ eticamente perversa porque, embora possa resolver o problema do indivíduo, agrava o da sociedade. Agrava-o ao manter, perpetuar e, quiçá, exacerbar o foço que existe entre os dois tipos de ratos. Agrava-o ao aceitar como natural que ‘os outros’, os enteados ou não-filiados, vivam em estados existenciais inumanos, sujeitos a exploração tributária, acorrentados à servidão regulatória e obrigados a chafurdar nas “melhores” escolas, hospitais e repartições públicas do mundo. E torna mais gravosas não só as condições de vida dos que são explorados pelo estado socialista, como mais difíceis os esforços para o derrube deste. Demonstra a irresponsabilidade social da atitude “os outros que se lixem enquanto eu cá me arranjo”. Se não é ético poluir o ambiente, então também parece que não o será a filiação no ps/d.

Todas estas considerações não demoveram Li Si do propósito que terá formulado nesse dia. Mas ao contrário do típico tuga, não só emigrou, como também se filiou: emigrou para Qin e, abandonada a escola de pensamento Confucionista onde fora educado por Mestre Xunzi 荀子 (c. 310—c. 235 a.C.), filiou-se no partido dos legalistas, os predecessores de todas as autocracias estatais e especialistas no controlo d’estado para o benefício pessoal de ratos filiados.

Li Si teve uma carreira política fulgurante em Qin, tendo chegado a Chanceler[5]. Foi instrumental para o sucesso do imperialismo deste estado, que resultou na conquista dos reinos vizinhos de Chu, Han, Wei, Zhao, Qi e Yan e na consequente unificação da China num Império. Ficou conhecido por algumas das políticas que implementou. Uma, ainda antes da unificação, foi a de atrair para Qin os académicos dos outros estados, com o objetivo de os fragilizar. Àqueles que as suas ofertas salariais e benefícios colaterais não atraíram, ou não queriam mudar-se porque já estavam bem, mandava assassinar por agentes secretos.

Não se pense que Li Si gostava ter perto de si pensadores independentes. Gostava era de os ter sob controlo e inoperantes. Demonstram-no duas outras políticas que arquitetou & implementou, já depois da unificação imperial, e lhe deram fama imorredoura. Uma foi a grande queima, em 213 a.C., de todos os livros de filosofia, história, política e religião que não se conformassem com a linha partidária dos legalistas, e que resultou na total perda das obras fundamentais de cem escolas de pensamento. Foi complementada, no ano seguinte, com o enterro, ainda vivos, de 460 académicos que não se conformavam com o pensamento legalista e que não tiveram a presença de espírito para emigrar atempadamente para junto das tribos bárbaras.

Que os legalistas, tal como os socialistas, identificavam o serviço do estado com o serviço dos seus interesses pessoais é demonstrado pelo facto de que, quando Qin Shi Huang 秦始皇 (259—221 a.C.), o primeiro Imperador, faleceu, Li Si manobrou e falsificou os documentos de modo que Fusu 扶蘇 (?—210 a.C), o filho mais velho e sucessor designado pelo soberano, um carácter independente, fosse preterido em favor de Huhai 胡亥 (229—207 a.C), o jovem, inexperiente e manobrável décimo-oitavo filho do Imperador.

A solidariedade entre legalistas, tal como entre socialistas, é coisa bonita de se ver. Assim, mal Hugai se tornou Imperador, Li Si foi traído por um dos seus cúmplices, Zhao Gao 趙高 (?—207 a.C.), que ocupava então a posição[6] de superintendente dos coches imperiais[7], que o tinha incentivado & ajudado na golpada. Acusado de traição pelo seu desleal camarada, Li Si foi condenado aos Cinco Castigos, tendo sofrido sequencialmente tatuagem[8], corte do nariz, amputação de um pé, castração e morte por corte em dois—pelo abdómem, como é adequado a um político cuja filosofia política é encher a sua barriga, e a dos seus familiares & amigos, com o grão dos celeiros estatais.

Li Si transformou para sempre a China, de um conjunto de estados descentralizados onde a humanidade e liberalidade do governo era considerada a suprema virtude política, num estado centralizado e totalmente dominado por uma camarilha de mandarins cujo objetivo é assegurar a servidão das populações aos interesses dessa pandilha. A camarilha pode mudar, aquando de cada mudança de dinastia, às vezes até professando ideários políticos diversos, mas o sistema instaurado por Li Si mantem-se.

O que não deixa de lembrar o estado do “nosso” estado português, com o seu perene estatismo, a sua centralização antiga, a sua regulação sufocante, os seus mandarins que nos roem & nos moem, e a subordinação permanente dos interesses dos cidadãos aos caprichos & perversões desses roedores. Será que a única solução, para quem não se sente bem numa casinha, digo, num sistema destes, é mesmo a de Li Si? Mudarmo-nos?

U avtor não segve a graphya du nouo AcoRdo Ørtvgráphyco. Nein a do antygo. Escreue coumu qver & lhe apetece. #EncuantoNusDeixam

[1] Casinha: estrutura independente e separada da casa de habitação onde, antes da descoberta dos esgotos, as pessoas se iam aliviar dos seus excessos gastronómicos; casa onde os ministros das graças e mercês despacham com o soberano; latrina; posto do almotacel e de outros cerviços fiscais (i.e., da autoridade aduaneira e tributária). A comunalidade do termo aplicado aos edifícios dedicados à condecoração, defecação e tributação é indiciadora da natureza coprostásica comum a todas estas atividades.

[2] Rato: membro da Ordem dos Roedores; elemento de uma das ilustres famílias socialistas como os Muridae, os Cricetidae, e os Heteromydae, entre outras, que deram inúmeros ministros, secretários de estado e seus adjuntos à república; daí ser vocábulo também usado para designar pessoas consideradas como desprezíveis, especialmente aplicado a homens considerados enganadores, traiçoeiros ou desleais; bicho que, tal como Elvis Presley (1935—1977), tem fama de fazer desmaiar as jovens que os veem ou ouvem; (topon.) largo em Lisboa conhecido por ser local de reunião regular de conhecidos roedores. Pergunta-se: ninguém por aí tem um gato?

[3] Fèn : (fino) subproduto da digestão humana; (informal) caca; (infantil) cocó; (médico) fezes, matéria fecal; (castiço) enfado, excremento; (popular) merda; (anarca) merd.

[4] Filiado: (do latim filius) considerado como filho; protegido e alimentado como filho; membro de um partido político que ainda não obteve aquilo para que se filiou. Curiosamente, no caso dos warxistas do ps/d e be, apesar de os filiados nunca serem desmamados, nunca são considerados inviáveis ou parasitários. O mesmo não acontece no pcp, que purga com alguma regularidade, sempre que ocorre uma obstipação interna, warxistas que se desnaturaram. O termo “purga” é indicativo, na sua grafia e estética, de como o partido considera a natureza dos seus militantes. Certamente também é indicativo, se bem que involuntariamente, da natureza intestinal da dita organização e da ideologia que professa. Um warxista famoso, Leon Trotsky (1879—1940), depois de ser purgado teve a cabeça aberta com uma picareta. Fica a dúvida: para que servem a foice e o martelo? Trotsky não foi o único a ter este fim. O que demonstra que os warxistas, na sua luta contra o bom, o belo e o verdadeiro na Humanidade, não só tratam as pessoas como porcos, mas se relacionam ente si como suínos.

[5] Chanceler: primeiro-ministro; chefe de um bando de ministros[9]; maestro em desgovernação.

[6] Posição: local na hierarquia social em que alguém se encontra; elevação social local, i.e., relativa, frequentemente confundida como sendo uma elevação absoluta; para manter a harmonia num conjunto de camaradas é necessário assegurar que as posições que lhes são atribuídas no estado, depois da conquista do poder, não tenham elevações muito dispares.

Ele tinha uma tão alçada posição,
Na estrutura do governo da nação,
Que os outros ministros inquiriam da razão.
Não era preciso ser doutor para perceber,
Que a competência aos outros em falta,
Era perícia para coçar as costas,
Ao nosso supremo Costa.

Versos Soltos (1921), Pe. Mário Centavo, in Opera Omnia, vol. 88

[7] Isto é, era o carroceiro-mor.

[8] Tatuagem: antiga pena criminal chinesa que consiste numa marcação indelével, na pele dos condenados, de vários carateres e/ou desenhos, que serviam para prevenir a população do carater perigoso do indivíduo quando este era libertado. Apesar de abolida continua a ser usada voluntariamente por membros das mafias chinesas e japonesas para impor temor aos vizinhos. Foi recentemente adotada no Código Penal português, com notável & visível sucesso.

[9] Ministro: malfeitor; feitor de uma organização política numa quinta ou quintinha; peça instrumental no enriquecimento de familiares & amigos; feitor de uma autoridade superior com responsabilidade inferior e nomeado pelas suas qualificações, a principal das quais é um grau plausível de inveracidade; título honorífico atribuído a membro de quadrilha quando esta sucede no seu assalto ao estado; peça no tabuleiro político, correspondente ao cavalo no xadrez, que pode avançar, recuar ou mover-se lateralmente, mas sempre em movimentos não retilíneos.