Passaram três meses desde a eleição e ficou claro que António Costa não podia perder mais tempo: não é possível ser presidente da maior autarquia do país e ser candidato a primeiro-ministro. Não a seis meses de eleições. O PS sabe disso, Costa também. E mesmo que não o soubessem, as sondagens estariam aí para o mostrar.

A saída da Câmara de Lisboa – muito pressionada pelo próprio PS – é um bom lembrete para o líder socialista, ainda em tempo certo: o grande desafio de qualquer bom líder é tomar decisões, não adiá-las. É decidir no tempo certo, com os cenários medidos e o caminho traçado.

Há três meses, quando António Costa chegou à liderança socialista, escrevi por aqui sobre os 14 desafios que ele tinha pela frente. Gostava voltar a esses pontos, para mostrar como estes primeiros meses foram, em muitos casos, tempo desperdiçado. E para defender que o líder da oposição já não tem mais tempo a perder. Um a um, aqui estão.

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A luta interna foi feia e deixou marcas a quem a seguiu. Ao fim dos primeiros 100 dias, não era fácil unir as peças – e isso António Costa conseguiu fazer, com a ativa colaboração de quem saiu do Rato – Seguro saiu, os seus mais próximos protegeram o novo líder.

Mas a entrada em cena de Costa tinha outro desafio implícito: mobilizar o eleitorado do centro (essencial para uma vitória nas legislativas) para a batalha final. O que mostram os últimos estudos de opinião é que alguma coisa se recuperou, mas só para os níveis de popularidade de antes da crise interna.

Construir uma equipa

É claro que demora tempo a concretizar, é evidente que só mais perto das legislativas será possível a António Costa mostrar que tem uma equipa sólida e transversal para dar garantias ao país. Mas, até aqui, esta etapa parece ainda em construção. Na bancada parlamentar, escolheu Ferro Rodrigues para dar estabilidade interna; no Rato, a equipa que levou tem poucas surpresas, para além da ala esquerda que chegou. Há porém uns sinais: a ampla equipa que prepara o programa e a que estuda os cenários tem uma boa mistura entre juventude e experiência – com Mário Centeno, do Banco de Portugal, a dar garantias de solidez.

Faltarão os apoios de fora – o que lhe começará a ser cobrado rapidamente. E vozes fortes em cada uma das áreas setoriais. Veremos se aparecem nos próximos três meses.

Unir as peças de um aparelho dividido

Há três meses, era obrigatório serenar os ânimos e mobilizar todos. O resultado é curioso: nos últimos meses, a pressão mais forte não veio dos que saíram derrotados – antes dos que o apoiaram na luta interna. A expectativa é sempre a mais difícil de gerir, mais ainda quando o líder se divide entre uma câmara e a liderança da oposição.

Uma coisa é certa: o líder do partido não tem hoje oposição interna.

Recompor a bancada, de fora desta

Costa precisou de recorrer a um ex-líder do partido para estabilizar uma bancada que era sua, na maioria, mas não unânime. Nesta frente, teve uma vitória e uma derrota: a bancada está serena. Mas os debates não são ganhos. Costa teve já de sair em defesa de Ferro Rodrigues, o que não é sintoma bom. De quinze em quinze dias, há uma nova oportunidade de marcar pontos.

A saída de Costa para o Rato pode, neste particular, ajudar à coordenação. Mas não fará milagres numa frente onde o líder só comanda à distância.

Encontrar uma estratégia contra o Governo

Começo pelo melhor: Costa entrou a medo no jogo da personalização da política. Evitou os casos, explicou que essa não é a sua vontade. Tem tentado (repito, tentado) evitar frases sonoras que o comprometam demais no futuro. E não hesitou em acordar com o Governo as matérias que exigiam diálogo imediato. Sim, tudo isso é bom. Mas não tem sido sido tudo assim.

Houve momentos de hesitação, que deixaram o PS nervoso (deixarão sempre), algumas promessas irreversíveis (baixar o IVA da restauração, aumentar salário mínimo, repor salários, feriados, etc). Houve também alguma dificuldade em gerir um discurso sobre a retoma da economia, como também a vitória do Syriza na Grécia.

Tem uma desculpa boa, neste campo: enquanto se prepara um programa, é sempre mais difícil gerir as palavras. Tão difícil como era a António José Seguro.

Como gerir a Câmara e as relações com o Governo

A Câmara só deu problemas ao líder da oposição. Foram as inundações, as taxas, o Benfica, o dia da saída, a próprio gestão de tempo. Desde que foi eleito líder da oposição, Costa passou a estar sob permanente escrutínio mediático. E não é fácil, nestes dias, gerir os dois planos com eficácia – e sem contradições.

Mesmo as guerras que o opunham ao Governo começaram a ser vistas como um mero prolongamento da sua atividade na liderança do PS – caso da Carris e do Metro, que Passos quer entregar a privados. Ficar mais tempo era perder tempo.

As listas

Não há momento mais complicado de gerir num partido do que a construção das listas de deputados – e esse momento ainda nem chegou. Vai ser preciso juntar as tendências, unir desavindos, gerir expectativas de centenas de apoiantes com a ambição de ir para o Parlamento ou para o Governo.

Essa frente começa lá para junho, quando vier também o programa de Governo.

Abrir portas para um futuro Governo

O novo líder terá sempre de pedir a maioria absoluta, mas sabe que isso é difícil. Por isso, tem de gerir com cuidado as pontes com futuros parceiros de coligação – conciliando isso com um discurso de campanha eleitoral, onde a crítica ao Governo é permanente.

 

Neste plano, Costa tem sido hábil. Foi falar a cada uma das sedes partidárias, sendo até recebido por Paulo Portas. Atacou o PSD, disse que não quer ser eleito para manter políticas, mas nunca se atreveu a usar o “não definitivo” que lhe é proibido (e até evitou o ataque pessoal a Passos, que lhe cortaria caminhos que podem vir a ser necessários). Geriu a outra alternativa que lhe parece à mão, o Livre de Rui Tavares – embora neste plano com consequências imprevisíveis ao nível das votações no dia d. Mais difícil é Marinho Pinto, que claramente não tem por Costa grande simpatia.

Não é que esta missão seja fácil, mas é possível dizer que fez o que podia até aqui.

Apostar nas presidenciais

António Guterres não facilitou – e logo Costa lançou o isco a Vitorino. Vitorino não facilitou e logo apareceu Sampaio da Nóvoa, um plano C. Por azar, atravessou-se Henrique Neto e o seu PS logo disparou sobre ele – ignorando a sua proclamada “indiferença”.

O plano das presidenciais não tem sido fácil de gerir. Mas ainda há a fé de que Guterres apareça. Haverá ainda tempo, se for ele.

Construir um programa, mostrando algo de novo

Nota de prudência: até aqui, nada de novo se viu no horizonte socialista. Mas é verdade que Costa tem grupos a trabalhar num programa, fazendo até algumas contas. Isso será mesmo o seu maior desafio – e repito o que aqui disse em outubro: Costa terá de ser muito mais específico quanto aos temas financeiros, que são os que mais limitarão o próximo Governo: que medidas para controlar o défice e reduzir a dívida? Aceitar ou não os objetivos definidos com a Europa? O que fazer a impostos, salários, pensões? O que fazer desta Administração Pública, desta estrutura económica? Investir com dinheiro do Estado ou sem ele? É um mundo de perguntas – e algumas respostas terão que aparecer até às legislativas.

Mas há um problema ainda maior do que este: a António Costa não basta ter uma equipa (ou duas) a preparar um programa. Ele próprio precisa de se sentar com eles, de conhecer os dossiês em profundidade, de fazer contas e equacionar alternativas. Costa não é só líder da oposição: é o homem que se propõe a governar em tempos muito difíceis. O mínimo que se lhe exige é que se prepare. Não dá para fazer isso de uma janela da Câmara.

Gerir expectativas de um grupo de apoiantes muito diverso

Não é fácil gerir um grupo heterogéneo, que vai de Mário Soares e Ferro Rodrigues a António Vitorino ou Luís Amado – menos ainda quando se mete pelo caminho o Syriza, ou quando todos esperam que venha aí uma maioria absoluta. Costa tem feito uma coisa: tem falado com muita gente, discretamente, pelo país. Mas ainda lhe falta muito caminho. E seis meses para gerir.