Recomendei aqui, há pouco mais de três meses que, enquanto país, nos crispássemos menos e nos uníssemos mais, porque o desafio o impunha. Dizia então: “Agora não é tempo para isso. Guardem as garras para depois, vão ter tempo. E vão ter motivos.” Como seria de esperar – não é preciso ser Nostradamus para fazer esta profecia – os governos PS, em matéria de disparates, nunca desiludem. Escusavam era de os fazer com tanta abundância, porque não há espaço mediático suficiente para cobrir tanta incompetência, nem país com tanta resiliência para lhe sobreviver.

Estava eu para aqui a pensar se escreveria esta semana sobre os puxões à ministra Temido – das orelhas pelo Dr. Costa e do tapete pelo Dr. Medina – e de como esta deve estar a ouvir o hino da CGTP, que é aquilo que faz quando está irritada, quando deveria estar a coordenar uma estratégia que seja, pelo menos, minimamente inteligível aos olhos dos portugueses; ou se sobre a ida do Dr. Costa ao programa do Ricardo Araújo Pereira onde disse disparates (sobre antibióticos e vírus) e outras coisas mais vergonhosas (como Justiça, Estado de Direito e o amigo Azeredo), que só não são escândalo em Portugal; estava eu a pensar no que escreveria esta semana, dizia, quando fui atingido por um rebate de consciência. Há quem me recomende que não critique tanto o PS e o Governo, para ter uma atitude mais positiva e um olhar mais benévolo e por isso resolvi consultar o site do Governo, para ver se encontrava ali algum motivo de elogio.

E encontrei! Nada como a boa vontade, já dizia Santo Agostinho.

O Ministro das Infraestruturas (e dos Transportes), Pedro Nuno Santos, resolveu de uma assentada dois problemas: a propagação da Covid-19 na Área Metropolitana de Lisboa e a construção sempre adiada da Feira Popular. E isso é extraordinário, porque quando acusam o Governo de não fazer nada de jeito, o ministro Santos resolve um problema de saúde pública e um problema urbanístico eternamente adiado, tudo num final de tarde. De transportes, que era aquilo de que se deveria ocupar é que não, mas não vamos agora ser picuinhas. O Colombo também não estava a caminho da Índia quando descobriu a América?

Certo é, que o homem que queria pôr as pernas dos alemães a tremer e quer pôr o povo a mandar na TAP, não consegue ver o povo a tremer de medo de apanhar Covid-19 nos comboios da Área Metropolitana de Lisboa. Não consegue, porque o povo vai tão aconchegadinho, que nem tem espaço para se mexer. Ou, porque, na versão de Pedro Nuno Santos, que encontrou uns números – cuja fonte e relatório guardou para si – que lhe mostram que os comboios da Área Metropolitana de Lisboa têm uma “lotação muito abaixo de um terço, em média, com poucos comboios perto dos dois terços”, não há ali problema nenhum. E assim, não havendo ali risco de contágio, a culpa desta subida dos números deve mesmo ser dos jovens burgueses, que na ausência de escola – obrigado, Tiago! – aproveitaram o Verão para frequentar a universidade da vida. Quem nunca?

Mas vá, Pedro Nuno Santos tem razão. Só se esqueceu foi de dizer que o referencial de lotação utilizado foi o indiano e ainda não há ninguém a viajar nos tejadilhos dos comboios. Ou isso, ou os comboios que, na sua narrativa, não oferecem problemas de contágio são comboios fantasma, daqueles que só existem na feira popular, a mesma que, num rasgo de genialidade, Pedro Nuno Santos vai devolver a Lisboa. Pelo menos os que existem já chiam e perdem peças pelo caminho, como os da antiga feira popular.

Mas se julgam que o ministro Santos se fica por aqui, é porque não lhe estão a dar o crédito que ele merece. Para além do comboio fantasma também vamos ter a montanha russa, ou melhor, a montanha soviética, que é aquilo que espera a TAP depois do senhor Ministro a largar das mãos: uma montanha de dinheiro que não temos, para pagar uma companhia que, gerida por estes senhores, dará tanto lucro como as companhias da velha URSS.

Em síntese, Pedro Nuno Santos tem uma relação especial com o povo; está sempre, sempre, ao lado do povo, o povo nos comboios da linha de Sintra e ele de Porsche (que, coitado, a autocrítica revolucionária ou o sentimento de culpa burguês, ou lá o que foi, lá o obrigou a vender); é sempre, sempre, a voz ao povo, porquanto seja ele o seu porta-voz; e sempre, sempre, o poder ao povo, porquanto seja ele o Ministro. Nós, o povo, é que não temos nem algibeiras para pagar as suas irresponsabilidades, nem pachorra para aturar o seu temperamento. A feira, essa, continua.