Durante anos, a relação dos partidos com o Chega (CH) foi obsessivamente escrutinada, ao ponto de se ter tornado numa das grandes discussões da política nacional. À direita, importava definir as alianças, nomeadamente se o PSD e a IL estariam disponíveis para incluir o CH em algum acordo para formar ou suportar um governo. À esquerda, importava fazer do CH um alvo a abater, de forma a despertar medos no eleitorado. A clarificação trazida pelo PSD de Luís Montenegro (“não é não”) acabou com esse debate, que tanto havia favorecido o PS nas legislativas de 2022: o CH fica à margem.

Esta clarificação impôs três consequências para o debate político, forçando a redefinição de estratégias para as eleições legislativas 2024. Primeiro, à direita, o PSD teve de fixar como meta desejável obter um resultado superior ao da esquerda (PSD+IL+CDS > esquerda parlamentar), de forma que a exclusão do CH implique o menor dano possível na estabilidade de um novo governo. Segundo, à esquerda, os partidos tiveram de adoptar um novo papão discursivo para assustar o eleitorado nos comícios — o PSD deixou de ser perigoso porque se ia aliar ao CH e passou a ser perigoso porque se vai aliar ao “radicalismo” da IL.

A terceira consequência foi a mais interessante: o CH ficou sob escrutínio e obrigado a definir-se quanto ao PSD e à IL. Está o partido de André Ventura disponível, caso a nova composição parlamentar o imponha, para votar favoravelmente um governo PSD, mesmo ficando completamente à margem? Se o estiver, essa disponibilidade será factor de estabilidade e durabilidade (um compromisso mínimo de 2 anos), ou de instabilidade (com ameaças constantes de derrubar o governo)? E, caso não exista essa disponibilidade, pretende o CH forçar a negociação de uma coligação formal de governo ou de um acordo parlamentar — se sim, com que termos ou prioridades?

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