Política

O mundo aos pedaços

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Ninguém se incomoda com a esquerda se considerar dona do país e agir em conformidade com esse título de proveniência duvidosa, procurando abafar tudo o que represente independência e contra-poder.

Não sei se o mundo anda particularmente mais perigoso por estes dias, mas sei que anda mais próximo do sem-sentido do que estamos habituados a tolerar. Muitos anos de ilusões e de desatenção à realidade pagam-se caro, e parece que é a hora de os pagar todos ao mesmo tempo. Quem gosta de tempos interessantes tem todas as razões para andar feliz. O comum das pessoas, no entanto, não gosta. E, se me é permitida uma opinião, tem todas as razões para não gostar.

Comecemos pelo mais longínquo. O último avatar da dinastia dos Kim da Coreia do Norte ameaça tudo e todos com armas nucleares. Como de costume, o grotesco daquele regime impediu-nos, durante anos, de o levarmos verdadeiramente a sério. O riso protege a psique de maus pensamentos. De repente, já não é mais bem assim. E se a loucura der o passo que à loucura convém? Impossível? O impossível já esteve muito mais distante.

E o destino das muito celebradas “primaveras árabes”? Tirando um lugar ou outro, por regressão a um estado anterior ao seu eclodir ou pela existência de um poder relativamente forte que evitou o pior, o caos absoluto, de que a Síria é o exemplo mais gritante, embora longe de ser o único. Vagas e vagas de refugiados que morrem no Mediterrâneo e outros que conseguem chegar à querida Europa. Quem se lembra da confiança sanguínea depositada nas virtudes daquelas revoltas, das quais pouco se sabia e nada se percebia? Certamente que não os seus mais vocais apologistas, que agora, com a costumeira irresponsabilidade, se recusam a ver os problemas bem reais que tais migrações nos podem criar, sobretudo a médio prazo, com o acentuar das incompatibilidades culturais que fatalmente se manifestarão um dia de forma violenta.

E a tão adorada Venezuela “bolivariana”? Seria bom recordar os entusiasmos extremos e líricos que ela provocou muito para lá dos seus inícios, quando já tudo era previsível (já era, é claro, previsível nos seus inícios). Há gente que, decididamente, se dá bem com a monstruosidade e lhe descobre encantos tão sobrenaturais como o passarinho de Maduro. O que sobra desse lindo empreendimento? Uma sociedade em pedaços, completamente destruída, à beira de uma guerra civil ou já quase dentro dela.

Um salto, agora, para o mais próximo. Durante muito tempo distraídos com Trump e o Brexit, acordamos com Marine Le Pen à porta. Só quem não veja um palmo à frente do nariz pode confundir os três fenómenos e não perceber a gravidade suprema do último. Marine Le Pen é a herdeira de uma longa tradição francesa com os piores pergaminhos imagináveis. À porta do poder, uma parte substancial da esquerda francesa, aquela representada por Jean-Luc Mélenchon (que defende, de resto, uma “Aliança Bolivariana” com Cuba e a Venezuela), vê com maus olhos o voto em Macron, sórdido representante dos interesses capitalistas. Como aqui ontem lembrou José Manuel Fernandes, o nosso delegado caseiro dessa escola de pensamento, Francisco Louçã, partilha a doutrina. A atitude é pura e simplesmente criminosa e resultado de velhíssimas alucinações ideológicas. Criminosa, e não apenas idiota, porque Le Pen pode mesmo chegar ao poder. E a chegada de Le Pen ao poder representa o fim da Europa tal como a conhecemos. (A responsabilidade da União Europeia na chegada a este estado de coisas é algo de efectivo, e também ela feita de erros e ilusões sem conta, que os seus mais dogmáticos apóstolos se recusam sistematicamente a aceitar.)

E, a acabar, o nosso pequeno quintal? Aparentemente anda pacato, com futebol e Ronaldo, muito Ronaldo, e Marcelo, muitíssimo Marcelo (como não se cansa ele de falar?). Ninguém se incomoda muito com a esquerda se considerar proprietária do país e agir em conformidade com esse título de proveniência duvidosa, procurando abafar tudo o que represente independência e contra-poder. Os tradicionais defeitos aparentemente tornaram-se virtudes, com José Miguel Júdice a elogiar Marcelo e Costa pela sua habilidade em mentirem (ele acha graça). E tivemos mais uma comemoração do 25 de Abril e vamos ter Fátima e feriados e “pontes”. Quem julgar que isto vai por muito maus caminhos e que a retórica ambiente tresanda a hipocrisia e irresponsabilidade é claramente fascista.

Quando conviria ajustar o nosso pensamento para responder às consequências da prática continuada da ilusão e da desatenção à realidade, o que se vê? Um carregar no pedal de mais ilusão e irrealidade. A facilidade de acreditar perpetua-se até se tornar uma segunda natureza, imune a qualquer desmentido. Os tempos andam, de facto, interessantes: arriscam-se a ficar interessantíssimos. A questão está em saber qual é o limite do sem-sentido tolerável neste mundo aos pedaços.

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