O whistleblower do Football Leaks, Rui Pinto, e a estudante sueca que se tornou num símbolo de um grito global contra a inação face às alterações climáticas, Greta Thunberg, são as figuras do ano escolhidas pelos jornalistas da Lusa.

Rui Pinto foi eleito pelos jornalistas da Lusa como a figura nacional de 2019, ano em que foi detido na Hungria e enviado para Portugal, onde está em prisão preventiva acusado de 147 crimes, com 27 votos.

Do anonimato em 29 de setembro de 2015 — quando criou a plataforma eletrónica que se tornaria conhecida por revelar milhares de documentos confidenciais sobre contratos de jogadores e transferências entre clubes, empresários e fundos de investimento — até à detenção em Budapeste, em 16 de janeiro, ao abrigo de um mandado de detenção europeu (MDE), Rui Pinto tornou-se, em pouco mais de três anos, um dos nomes que mais impacto causaram no mundo do futebol.

“Herói” para uns, por expor na Internet alegadas práticas ilícitas e potenciais esquemas milionários de evasão fiscal por grandes nomes e instituições do futebol, “vilão” para outros, por ter acedido ilegalmente a sistemas informáticos privados, assim é a polarização mediática criada em torno de um jovem, de 31 anos, que frequentou na Universidade do Porto a licenciatura em História e se fez autodidata ao nível dos conhecimentos de informática.

O “caso Rui Pinto” não tem paralelo na história recente da justiça portuguesa e provocou um debate internacional sobre o conceito de whistleblower (denunciante) e o equilíbrio entre o direito à reserva de pessoas e empresas, e o alegado interesse público nas informações obtidas através da plataforma Football Leaks.

Um debate que ganhou ainda mais força com a aprovação no Parlamento Europeu, em abril deste ano, de uma diretiva de proteção aos denunciantes, com vista a abranger pessoas que pretendam alertar para eventuais violações do direito da União Europeia em vários domínios, nomeadamente branqueamento de capitais e fraude fiscal.

A ex-eurodeputada portuguesa Ana Gomes afirmou-se como uma das vozes defensoras da inclusão de Rui Pinto sob o estatuto de denunciante, ao invocar o interesse público das informações reveladas e a colaboração com diversas investigações em alguns estados-membros, como França, Holanda e Bélgica, surgindo ao lado dos advogados do jovem: William Bourdon (que já representou denunciantes como Edward Snowden ou Antoine Deltour) e Francisco Teixeira da Mota.

Rui Pinto — que recorreu ao longo dos anos ao pseudónimo “John” — começou por ser indiciado pelo Ministério Público (MP) pela prática de seis crimes relacionados com acesso aos sistemas informáticos do Sporting e da Doyen e por uma tentativa de extorsão a este fundo de investimento: dois de acesso ilegítimo, dois de violação de segredo, um de ofensa a pessoa coletiva e outro de extorsão na forma tentada, crimes estes que fundamentavam o MDE.

Como o criador do Football Leaks nunca renunciou ao princípio de especialidade — para que a justiça portuguesa o pudesse vir a acusar e julgar por outros factos e crimes que não estes –, o MP teve de pedir a extensão do MDE às autoridades húngaras, que autorizaram, em 29 de agosto, com base em novos factos e indícios entretanto apurados no decorrer da investigação.

Assim, em 19 de setembro, o MP acusou Rui Pinto de 147 crimes, 75 dos quais de acesso ilegítimo, 70 de violação de correspondência, sete deles agravados, um de sabotagem informática e um de tentativa de extorsão, por aceder aos sistemas informáticos do Sporting, do fundo de investimento Doyen, da sociedade de advogados PLMJ, da Federação Portuguesa de Futebol e da Procuradoria-Geral da República (PGR), e posterior divulgação de dezenas de documentos confidenciais destas entidades.

De acordo com a acusação, o criador do Football Leaks “efetuou um total de 307 acessos” à PGR entre 6 de novembro de 2018 e 7 de janeiro de 2019, e obteve documentos dos processos de Tancos, BES e Operação Marquês, entre outros.

Rui Pinto é ainda suspeito de ser o autor do furto dos e-mails do Benfica, em 2017, que viriam a originar o caso E-Toupeira, tendo o clube da Luz — à imagem do Sporting e da Doyen — se constituído como assistente do processo.

O início da fase de instrução do processo de Rui Pinto — fase facultativa que visa decidir por um juiz de instrução criminal (JIC) se o processo segue e em que moldes para julgamento — arrancou esta quarta-feira, no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa.

Depois de marcar de forma indelével o ano de 2019 em Portugal, o futuro de Rui Pinto e do seu processo prometem continuar a agitar a sociedade portuguesa e internacional em 2020, ano em que provavelmente haverá mais processos e acusações da justiça portuguesa contra o criador do Football Leaks, fruto das investigações ainda em curso.

O segundo nome mais votado para esta categoria foi José Tolentino Mendonça, investido cardeal e com um percurso intelectual e evangélico e com uma ascensão meteórica na hierarquia da Igreja Católica em 2019. É apontado como integrando o grupo de cardeais mais próximos do Papa Francisco (20 votos).

Também foram submetidos a votação o ministro das Finanças, Mário Centeno, o treinador de futebol Jorge Jesus, o cineasta Pedro Costa e a figura dos sem-abrigo.

Greta Thunberg pôs o mundo a discutir o clima

Greta Thunberg, que mereceu 77 votos, começou sozinha, aos 15 anos, uma “greve climática” que cresceu para um movimento internacional, mobilizando milhões. Tornou-se num símbolo de um grito global contra a inação face às alterações climáticas, sendo ouvida em parlamentos e na assembleia-geral da ONU, tendo o seu nome sido incluído na shortlist para o Nobel da Paz. Aos 16 anos, alcançou o primeiro objetivo a que se propôs na luta contra as alterações climáticas: captou a atenção dos líderes mundiais, organizou os jovens e mobilizou consciências entre a sociedade civil.

Tal como a causa que defende, a ativista climática, escolhida pela redação da Lusa como personalidade do ano em 2019, acabou por se tornar ela própria num tema fraturante.

Dos elogios do Papa à manifesta irritação de Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, passando pelo desdém com que o chefe de Estado norte-americano, Donald Trump, o mundo parece não ficar indiferente à jovem sueca, que começou um movimento internacional pelo clima sozinha, com um cartaz de papelão, em frente ao parlamento do seu país, uma cruzada que a leva hoje às mais altas instâncias.

Uma “pirralha”, nas palavras de Bolsonaro, que não perdoou a Greta Thunberg a defesa dos índios da Amazónia, uma “criança muito feliz”, na ironia de Donald Trump, quando confrontado com a revolta da adolescente no palco das Nações Unidas, onde se dirigiu diretamente aos líderes mundiais para lhes perguntar “como se atrevem” a roubar-lhe os sonhos, a pôr em causa o futuro nas novas gerações, num planeta que a cada dia dá sinais de profundas mudanças no clima que suporta a humanidade.

Às críticas, pelo ativismo, pelo aspeto físico, pelas roupas que veste, pela própria doença de Asperger — que assumiu como uma diferença que usa a seu favor –, Greta Thunberg responde com a maturidade de quem sabe que está a criar incómodo: “Ouçam apenas e ajam de acordo com a ciência”.

Do Papa Francisco recebeu palavras de estímulo. “Vai em frente e que Deus te abençoe”, disse o líder da Igreja Católica à jovem ativista, no Vaticano, depois de esta lhe agradecer as posições que tem assumido em defesa do ambiente.

Face aos inúmeros convites que recebe para estar presente em manifestações, conferências e entregas de prémios, Greta Thunberg tem gerido a agenda, com algumas restrições, nomeadamente no que toca aos meios de deslocação, privilegiando as travessias do Atlântico em veleiros e usando o comboio para deslocações na Europa.

Foi assim que aconteceu, quando a caminho da cimeira da ONU sobre o clima, em Madrid, passou este mês por Lisboa, onde foi recebida na doca de Santo Amaro por jovens ativistas, mas também pelo presidente da Câmara Municipal, Fernando Medina, e representantes do parlamento.

Ao aparato à sua volta, a jovem sueca responde que não se sente uma “estrela pop”. Ainda assim, foi obrigada a abandonar a manifestação em que participava em Espanha, por recomendação da polícia.

À COP 25, Greta Thunberg levou preocupações, mas também esperança, embora considere que a esperança está em cada cidadão e não tanto nos governos ou nas grandes empresas. “Não há sentido de urgência porque os nossos líderes não se comportam como se houvesse”, afirmou perante uma plateia de dezenas de delegações nacionais e de organizações, defendendo que só a “pressão popular” os pode levar a agir.

Enquanto decorria a cimeira de Madrid, que terminou no domingo com resultados desapontantes, Greta Thunberg foi eleita “Personalidade do Ano” pela revista Time.

Na eleição realizada entre os jornalistas da Lusa, a ativista sueca foi também a vencedora entre uma lista de nomeados para “Personalidade Internacional do Ano 2019” que incluía o Papa, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, e o Presidente norte-americano, Donald Trump.

Da greve às aulas, que decidiu iniciar sozinha para protestar frente ao parlamento sueco, depois das ondas de calor e incêndios que assolaram o país, no ano passado, a adolescente inspirou manifestações com milhares de participantes em vários países e saltou para a capa da Time em maio.

“Agora estou a falar para o mundo inteiro”, escreveu ao partilhar o artigo nas redes sociais a promotora das chamadas “sextas-feiras pelo futuro”, em que muitos jovens faltam às aulas para exigir medidas dos governos em defesa do ambiente.

Nascida em Estocolmo em janeiro de 2003, filha de uma cantora de ópera e de um ator, Greta Thunberg tem motivado as mais diversas reações, com muitos dos críticos a considerarem que está a ser manipulada ou que representa uma visão radical na questão das alterações climáticas.

Pelo caminho vai também recolhendo apoios e tentando dar a outros jovens um pouco do protagonismo que atraiu para si.

A segunda figura internacional mais votada foi o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed (10 votos), que venceu o Nobel da Paz de 2019 e é um dos símbolos da nova Etiópia, que quebrou tradição de gestão autoritária e sectária, reforçando a abertura política e económica do único país africano que nunca foi colónia europeia.

Os restantes candidatos eram o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o Papa Francisco.

Participaram na escolha das figuras e acontecimentos do ano 102 jornalistas da Lusa.