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Família Espírito Santo. Como a misteriosa “Ninita” se tornou a portuguesa mais rica /premium

Bisneta, neta, sobrinha e filha única, casada com um primo que liderou os Espírito Santo. Herdou várias fortunas mas manteve uma vida quase invisível. A saga e as fotos inéditas de Maria do Carmo.

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Maria do Carmo Alzina Moniz Galvão Espírito Santo Silva pode ter sido a mulher mais rica do país, mas conseguiu a proeza de atravessar quase toda a sua vida pública como um fantasma. Pode encontrar neste artigo mais lá para baixo várias imagens inéditas da sua vida, mas até esta quinta-feira, dia em que morreu aos 86 anos depois de ter sofrido um AVC, havia apenas duas fotografias suas muito parecidas em eventos empresariais, mais uma ao lado de Jorge Sampaio na inauguração da Alameda com o nome do marido, Manuel Ricardo Espírito Santo.

E com um bocadinho de esforço havia ainda uma outra, publicada numa fotobiografia, mas onde não era fácil identificá-la: foi captada em 1958, quando tinha 25 anos, na inauguração da Firestone, de lenço branco na cabeça, no meio de um grupo de 17 pessoas, incluindo o seu sogro e primo, Manuel Ribeiro Espírito Santo (que foi presidente do Banco entre 1955 e 1973) e a prima e cunhada Ana Espírito Santo.

Maria do Carmo, de lenço na cabeça, na inauguração da Firestone em 1958 (Fotobiografia de Manuel Espírito Santo Silva, por Carlos Alberto Damas)

O duplo parentesco não é gralha: Maria do Carmo, conhecida como “Ninita”, casou-se em 1954 (tinha 21 anos) com o primo Manuel Ricardo Espírito Santo, filho de um seu tio-avô. A família Espírito Santo é gigante, tem mais de 400 membros adultos, mas no ramo de Maria do Carmo, antes da geração mais nova, nunca houve muita gente. Aliás, devido a duas mortes precoces, a partir de 1975 passou a ser a única herdeira deste lado da família. É isso que explica em parte a dimensão da fortuna que acumulou ao longo da vida, substancialmente superior à de todos os primos: a diferença começou a acentuar-se com um episódio específico da saga familiar, logo em 1897.

A árvore genealógica do ramo Moniz Galvão (Fonte: “O Banco Espírito Santo, uma dinastia financeira portuguesa”, de Carlos Alberto Damas e Augusto de Athayde)

A divisão da fortuna do patriarca com a sua avó

A 16 de Dezembro de 1897, aquela que viria a ser a avó paterna de Maria do Carmo, Maria Justina, celebra uma escritura de contrato antenupcial para se casar com o médico Custódio Moniz Galvão. Nesse mesmo dia, recebe do pai, José Maria Espírito Santo Silva (1860-1915), fundador da dinastia de banqueiros (e bisavô de Maria do Carmo), metade da sua fortuna, uma vez que a mãe, Maria da Conceição, tinha morrido em 1891, com apenas 40 anos. Uma irmã (Luísa) também faleceu em 1888, com 16 anos.

Três anos antes de fechar o século XIX, o património do “capitalista”, como José Maria Espírito Santo se identifica quando lhe pedem a profissão, é avaliado em 490 contos de reis (11,7 milhões de euros a preços atuais): e 60% dessa riqueza está materializada em prédios espalhados pela capital. Maria Justina, (avó de Maria do Carmo) que recebe assim 11 edifícios em Lisboa de uma assentada: dois deles na Rua Rosa Araújo e outro, o mais valioso, no cruzamento dessa rua com a Av. da Liberdade, muito perto do local onde no fim do séc XX funcionaria a sede do BES, com o gabinete de Ricardo Salgado no 15º andar. José Maria deixa de residir neste prédio da Avenida da Liberdade para ir viver no Paço do Lumiar, numa propriedade chamada Quinta do Ministro, onde cria uma pequena produção de vinhos, como conta Carlos Alberto Damas no livro “O Banco Espírito Santo, uma dinastia financeira portuguesa”.

José Maria Espírito Santo Silva em 1887, num postal de Nova Iorque (Fonte: “O Banco Espírito Santo, uma dinastia financeira portuguesa”, de Carlos Alberto Damas e Augusto de Athayde)

Nesse ano de 1897, o patriarca da família Espírito Santo já tinha tido a filha Maria e o filho José, ambos com a sua segunda mulher, Rita de Jesus Ribeiro, filha de um casal de agricultores transmontanos de Vidago. Dessa união viriam ainda a nascer Ricardo Espírito Santo (avô de Ricardo Salgado) e Manuel (futuro sogro de Maria do Carmo).

Tal como virão a fazer alguns dos seus descendentes, José Maria desloca-se todos os anos aos Alpes suíços, mais especificamente a Interlaken, para descanso e tratamentos. De lá escreve à mulher, Rita Ribeiro, em Agosto de 1910, dois meses antes da queda da monarquia, a insistir para os filhos José e Ricardo aprenderem línguas nas férias: uma hora de escrita de inglês para ambos; e para Ricardo, mais uma hora de escrita de francês e outra de alemão em dias alternados.

Numa destas cartas, relata a sua rotina: “Todos os dias vou para o Casino ouvir música e ler jornais; é vida bem aborrecida. Não jogo porque não quero perder os meus francos, mas vejo lá cada padecente que mete dó, e as mulheres é uma desgraça, até mudam de cor”. Assina de forma ternurenta: “Recebe um grande abraço para ti e beijos assim como para todos os filhos (…). Teu marido do coração”.

Na firma J. M. Espírito Santo Silva & Companhia, o fundador assume uma quota de 360 contos, do total de 400 contos do capital social; o segundo sócio é o genro, o médico Custódio Moniz Galvão (avô de Maria do Carmo), que participa com dez contos. Mas a escritura deixa claro que “o sócio Moniz Galvão não é porém obrigado a quaisquer serviços de escritório ou que importem permanência no estabelecimento”.

Quando o banqueiro se encontra em Lisboa, em dias de trabalho, é frequente a mulher enviar-lhe o almoço numa cesta, entregue por um dos quatro empregados que têm em casa; no regresso, a cesta não vem vazia: para não se gastar dinheiro em dois jornais, traz muitas vezes o exemplar do dia de O Século, para Rita ir lendo – pertence à minoria de 23% das mulheres que sabem ler em 1911.

Depois de um período em que se concentrou mais no imobiliário, reforça a aposta na banca. Tinha começado em 1869 com uma casa de câmbio na Calçada do Combro, teve uma sociedade com outros empresários em 1884, em 1898 regressa à atividade bancária com a Silva, Beirão, Pinto & Cª, firma esta que em 1911 dá lugar à Casa Bancária J. M. Espírito Santo Silva, a primeira empresa com o nome de família (e que em 1915 passa a designar-se como J. M. Espírito Santo Silva & Companhia). Nesta firma, o fundador assume uma quota de 360 contos, do total de 400 contos do capital social; o segundo sócio é o genro, o médico Custódio Moniz Galvão (avô de Maria do Carmo), que participa com dez contos; o terceiro é o filho José Ribeiro do Espírito Santo Silva (tio-avô de Maria do Carmo), 19 anos, aluno do 1º ano da Faculdade de Direito de Lisboa, que acaba de chegar a Portugal depois de três anos a estudar numa escola de Edimburgo. Entra com uma quota de 5 contos, tal como outros cinco amigos, filhos de ex-sócios, parceiros noutros negócios ou ex-empregados.

A escritura deixa claro que “o sócio Moniz Galvão não é porém obrigado a quaisquer serviços de escritório ou que importem permanência no estabelecimento”. E define o montante que cada sócio pode levantar da caixa, todos os meses, por conta dos lucros prováveis: “O sócio Espírito Santo e Silva 1800 escudos e cada um dos outros 120 escudos” – ou seja, 15 vezes mais para o fundador.

Não há nenhuma dúvida sobre quem manda. As deliberações são tomadas após votações em reuniões dos sócios mas, sempre que o sócio Espírito Santo Silva queira, o seu voto vale “tantos votos quanto os dos outros sócios e mais um”. O documento também define como devem ser repartidos os lucros, depois de se pôr de parte 5% para o fundo de reserva: um primeiro bolo de 24 contos é distribuído pelos sócios na proporção das suas quotas (logo, 90%, ou seja, 21.600 escudos caberiam sempre a José Maria Espírito Santo).

14 criados e 300 coches no funeral do bisavô

José Maria do Espírito Santo Silva está com 65 anos e tudo parece correr bem: dirige um negócio com futuro, que ocupa um prédio de quatro andares na Rua do Comércio, junto ao arco da Rua Augusta; conta com 25 funcionários; e, embora viva alheado da política, chega a ser procurado por ministros das Finanças, que pretendem ouvir os seus conselhos, como viria a contar o jornal Mundo.

Só a saúde é fonte de sobressaltos. Sofre de diabetes e tem cada vez maior dificuldade em respirar devido a uma angina de peito, mas, apesar do desconforto, insiste em continuar a trabalhar. Na véspera de Natal de 1915, às 19 horas, encontra-se em casa quando o coração pára de bater.

José Maria Espírito Santo Silva, fundador da dinastia de banqueiros e bisavô de Maria do Carmo, morre na véspera de Natal de 1915 (Fonte: “O Banco Espírito Santo, uma dinastia financeira portuguesa”, de Carlos Alberto Damas e Augusto de Athayde)

No dia 25 de Dezembro, os jornais chegam à banca com o aviso de que não serão publicados no dia seguinte, por se encontrarem encerrados. A capa do jornal O Século é dividida entre reportagens sobre a consoada e as notícias de um confronto que se arrasta desde 1914, e que ficará conhecido como a I Guerra Mundial.

Lá dentro, na página da necrologia, depois de apontamentos sobre outros quatro falecidos da véspera, uma pequena breve sem fotografia dá conta da morte do banqueiro, no 1.º andar do nº. 18 da Avenida Almirante Reis, em Lisboa.

O valor da herança é de 1.200 contos -- cerca de 22,7 milhões de euros a preços de hoje. Mas Um dos homens que participa nas cerimónias fúnebres tem um nome intrigante: José Rodrigues Bastos do Espírito Santo Silva, exactamente os mesmos três apelidos do falecido

O cortejo fúnebre parte no dia 26, com destino ao jazigo 2267 do cemitério do Alto de São João. A urna em madeira de pau-santo, estofada com cetim roxo e coberta de coroas de flores, é conduzida num coche preto de primeira classe puxado por seis cavalos e escoltada por 14 criados contratados pela agência funerária António Maria Lopes. A marcha é acompanhada pela academia musical do Lumiar e por 300 coches puxados a cavalos, dez dos quais destinados à família. O funeral custará quase 600 escudos. Mas no cemitério não há discursos – justificam os jornais – para “se assinalar a modéstia e o simples motivo que caracterizou Espírito Santo Silva em vida”.

As surpresas do testamento e o bastardo que provoca a primeira guerra familiar

Um dos homens que participa nas cerimónias fúnebres aparece referido nos jornais com os mesmos três últimos apelidos do falecido, mas não é conhecido como sendo da família: José Rodrigues Bastos do Espírito Santo Silva. O mistério será desvendado na leitura do testamento. A 6 de Janeiro de 1916, exactamente 12 dias depois do funeral do marido, Rita de Jesus Ribeiro manda o seu advogado ao cartório para se avançar com o inventário orfanológico, um processo essencial para se fazerem as partilhas da herança entre os filhos menores que acabam de ficar órfãos e os demais herdeiros. O valor da herança é de 1.200 contos — cerca de 22,7 milhões de euros a preços de hoje, se aplicarmos o coeficiente de desvalorização de moeda.

Os jornais de 1915 anunciam o livro “Amor e segurança”, “um elegante volume ilustrado com inúmeras gravuras explicativas”, que por 300 reis promete aprofundar “processos fáceis, seguros, rápidos para evitar a procriação e diversas receitas para uso interno das senhoras”. Evitar a procriação não terá sido uma das preocupações de José Maria Espírito Santo Silva. No testamento, José Maria assumiu a paternidade de quatro filhos bastardos, além dos cinco descendentes dos dois casamentos. As datas de batismo mostram que o banqueiro viveu anos preenchidos do ponto de vista emocional, a partir dos 37 anos, numa altura em que estava ainda casado com a primeira mulher, Maria da Conceição, a bisavó de Ninita.

José, Maria, Manuel e Ricardo Espírito Santo (da esquerda para a direita), os quatro filhos do segundo casamento do patriarca (Fonte: “O Banco Espírito Santo, uma dinastia financeira portuguesa”, de Carlos Alberto Damas e Augusto de Athayde)

No mesmo dia de 1887, a 28 de Novembro, em duas freguesias diferentes de Lisboa (São José e Santa Justa), são batizados dois dos seus filhos ilegítimos, de duas mulheres: Maria Josefa Gilberta, filha de Maria Elise Févez; e José Rodrigues Bastos do Espírito Santo Silva, filho de uma relação com Margarida Bastos, residente na Rua da Escola Politécnica. Em 1889, é batizado Francisco Maria, segundo filho da sua relação com Maria Elise Févez. E em 1902, já depois de lhe terem nascido os primeiros 3 filhos da união com Rita Ribeiro, é batizado nas Mercês o último filho ilegítimo, José Estêvão dos Santos.

Só em Abril de 1907, um ano antes do nascimento do filho mais novo, é que José Maria e Rita Ribeiro celebram o casamento, com separação total de bens. No dia 6, entram num cartório de Lisboa e cada um indica um endereço – ele no Paço do Lumiar, ela na Av. D. Amélia (futura Av. Almirante Reis, depois da proclamação da República), número 18, a morada onde ele viria a falecer na véspera de Natal oito anos mais tarde.

Entretanto, José Maria também já se tinha tornado avô: a sua filha mais velha, Maria Justina, e o médico Custódio Moniz Galvão foram em 1900 pais de uma menina, Maria Cristina; em 1905 nasceu Fernando Eduardo Moniz Galvão, que virá a ser o pai de Maria do Carmo.

A distribuição da fortuna: casas, empresas, dinheiro. E um relógio para o avô de Ninita

Em Maio de 1915, na quarta-feira dia 5, o notário José Maria de Barcellos Júnior desceu os 500 metros que separam o seu cartório, na Rua Áurea, 265, da sede da casa bancária na Rua do Comércio, 95. Sete meses antes de morrer, perante cinco testemunhas, o banqueiro entrega-lhe duas folhas e meia, sem borrões, rubricadas, “declarando ser o seu testamento e disposição da última vontade”.

  • Deixou dinheiro a sete entidades que acolhiam pobres ou crianças, à Santa Casa da Misericórdia e à assistência nacional dos tuberculosos, num montante total de 30 contos, exatamente o mesmo valor que deixou à mulher em dinheiro.
  • A viúva ficaria também com a quinta do banqueiro no Paço do Lumiar e todo o recheio dessa casa.
  • À filha mais velha do seu primeiro casamento, Maria Justina Moniz Galvão, foi destinado mais um prédio (além dos 11 que lhe deu em 1897), este na rua do conselheiro Monteverde, nº 32, junto à Estefânia.
  • A filha Maria Ribeiro herdaria um edifício na rua do Crucifixo, na Baixa.
  • Os três rapazes legítimos, José, Ricardo e Manuel, ficariam com o prédio onde funcionava a casa bancária, entre a rua do Comércio e a rua Augusta.
  • Estes cinco filhos legítimos deveriam ainda dividir entre si os capitais do pai nas suas empresas: a sociedade agrícola de Cassequel, a António da Costa, a Empresa Açucareira do Buzi e a casa bancária.
  • A cada um dos 25 empregados da instituição financeira e aos quatro criados que tinha na residência, deixava 50 escudos.
  • Ao genro, o médico Moniz Galvão (avô de Maria do Carmo), “como demonstração de estima e consideração”, legou o relógio de repetição em caixas de ouro 14 quilates e a cadeia de ouro que usava regularmente, que pesava 22 gramas – as duas jóias virão a ser avaliadas pela Casa da Moeda em 20 e 15 escudos, respectivamente.

Seguia-se a parte que viria a estar na origem de uma luta judicial: “Perfilho para todos os efeitos legais os meus quatro filhos que tenho”. E enumera-os por esta ordem: Maria Josepha Gilberta, Francisco Maria Raymundo Fevez, José Estevão dos Santos e José.  Este José é o único apenas referido pelo primeiro nome. E aparece em último apesar de ser dos mais velhos. Mas talvez a ordem não tenha sido inocente, tendo em conta o seu feitio conflituoso, prenúncio de todos os problemas que viria a criar. Sabendo que este seu filho também já tinha tido uma filha ilegítima, determinou que essa neta, Maria José, recebesse 6 mil escudos, mas só no caso de o pai ainda ser vivo. Ou seja, caso José Rodrigues Bastos tivesse morrido entre Maio e Dezembro de 1915, a sua filha ficaria de fora da herança.

O filho bastardo José Rodrigues Bastos contesta tudo o que pode, desde a escolha da viúva para cabeça de casal até à forma de gestão da fortuna enquanto não se fechassem as partilhas, insinua que o pai teria dinheiro escondido num banco suíço [como alguns dos seus descendentes cem anos mais tarde], e tenta ficar com o prédio que tinha sido deixado à avó de Ninita

José Maria nomeou como testamenteira a sua mulher, Rita, e apontou quatro homens para a ajudarem: o genro, Custódio José Moniz Galvão, o primo Miguel Júlio Saraiva, e os sócios Ricardo Apolinário Dias (padrinho de baptismo de Ricardo Espírito Santo) e Liberato Augusto Correa Brandão. Cada um destes quatro coadjuvantes receberia 5 contos por ter aceite a missão. Manifestou um último desejo, condizente com a forma resguardada como alguns dos seus descendentes (a começar por Maria do Carmo) ainda viriam a usufruir da riqueza: “Peço que o meu testamento não seja publicado nos jornais”.

“Há herdeiros que são senhoras e que não podem colaborar na gerência”

Uma das primeiras decisões a tomar antes de se partilhar a herança é a criação de um conselho de família. Salvaguardando a diferença de se tratar de uma obrigação decretada pela justiça, poderia ser semelhante ao que 75 anos mais tarde viria a ser o conselho superior do grupo, com um representante de cada um dos cinco ramos familiares, para decidir o destino dos negócios. Mas aqui a família ainda está tão no início, que não há mais parentes moradores em Lisboa para lá dos herdeiros, pelo que a viúva decide indicar para o conselho de família aqueles que considera os cinco “amigos mais íntimos do falecido”.

Mas o filho bastardo José Rodrigues Bastos, representado por Francisco Veiga Beirão (que tinha sido ministro e chefe do governo na monarquia), contesta tudo o que pode, desde a escolha da viúva para cabeça de casal até à forma de gestão da fortuna enquanto não se fechassem as partilhas, insinua que o pai teria dinheiro escondido num banco suíço [como alguns dos seus descendentes cem anos mais tarde], e inicia uma espécie de leilão entre os herdeiros, oferecendo-se para pagar dez escudos acima do valor da avaliação, para ficar com dois dos prédios do pai, sendo um deles o que tinha sido deixado à filha Maria Justina. Como estratégia negocial, resultou: a família pagou 90 contos ao filho bastardo para chegarem a acordo e se livrar do problema, 9 meses depois da morte de José Maria.

Removido o principal obstáculo, é convocada nova reunião do conselho de família para 16 de Outubro, onde todas as decisões já são aprovadas por unanimidade. A principal deliberação é que seja respeitado o desejo do falecido e que os negócios que possuía fiquem nas mãos dos cinco filhos legítimos – a casa bancária continuará a ser liderada por José Espírito Santo, que está com 21 anos.

Há mais duas deliberações neste encontro. Uma diz respeito a Custódio Moniz Galvão, marido da filha mais velha do banqueiro: quando morrer, se ainda for sócio da casa bancária, a sua quota deve ser vendida aos seus herdeiros, pelos cinco filhos legítimos de José Maria Espírito Santo, por 40 contos, a pagar em cinco anos, com um juro de 5% ao ano.

A outra deliberação tem a ver com a mudança de algumas cláusulas da escritura do banco, porque “há herdeiros que são senhoras e que não podem colaborar na gerência da referida sociedade”. O facto de as mulheres não trabalharem confere com o resto da sociedade em 1916 – mas entre os Espírito Santo é uma tradição que perdurará pelo resto do século: até ao fim do séc. XX serão raras as senhoras a intrometerem-se na gestão dos negócios de família. Maria do Carmo Moniz Galvão também acabou sempre por confiar a gestão aos homens que a rodearam: sucessivamente o pai, o marido, os amigos do marido e os filhos.

Maria do Carmo Moniz Galvão e o primo e marido Manuel Ricardo Espírito Santo (foto DR)

A casa bancária deixa de ter o nome completo do fundador e passa a ser apenas os três apelidos: “Espírito Santo Silva & Companhia”. Cada um dos cinco filhos tem agora uma quota de 72 contos, os restantes sete sócios mantêm as posições anteriores,  ou seja, Custódio Moniz Galvão mantém os dez contos — o que significa que os avós de Ninita, juntos, detêm 82 contos.

As regras constantes da nova escritura procuram blindar o poder da família: a gerência ficará a cargo de um representante e descendente directo de José Maria Espírito Santo Silva; o seu filho José Espírito Santo fica investido na qualidade de gerente vitalício; os descendentes dos cinco filhos legítimos do fundador, assim que atingem a maioridade, podem representá-los na empresa, “entrando em exercício como se já fossem sócios, inclusive com direito na gerência”.

Na partilha dos lucros, há ligeiras alterações: os primeiros 30% são para fundos de reserva; depois é retirada uma percentagem para os empregados; do que sobrar, cada um dos sete sócios que já vinham do tempo do fundador (incluindo o seu filho José e o genro Moniz Galvão) recebe 7%. O restante é para dividir entre os cinco filhos legítimos em partes iguais. Por conta dos lucros, cada filho pode levantar da caixa 300 escudos por mês, o dobro do valor permitido aos outros sócios. O negócio continua a correr tão bem que a 9 de Abril de 1920, a casa bancária passa a ser um banco. O Banco Espírito Santo.

O pai de Ninita: a influência na fusão com os Queiroz Pereira e os concursos de cães

O médico Custódio Moniz Galvão lidera o Conselho Fiscal do banco em 1920 e 1921, mas rapidamente se desinteressa das funções e é substituído pelo Duque de Palmela. O seu filho, Fernando Eduardo Moniz Galvão (que viria a ser o pai de Maria do Carmo), forma-se em Engenharia, mas também acaba por ingressar na banca, assumindo um cargo de direção na concorrência: o Banco Comercial de Lisboa, mesmo ao lado do BES, na Rua do Comércio, liderado na altura por Carlos Pereira, dono da Companhia das Águas, pai de Manuel Queiroz Pereira e avô de Pedro Queiroz Pereira. O cargo do pai de Ninita no banco vizinho ajudou seguramente à fusão das duas instituições bancárias, formalizada no papel em Outubro de 1937, e concretizada com o derrube da parede que dividia os dois edifícios. Nasceu assim o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, onde Fernando assumiu o cargo de inspetor-geral. Nasceu também aí a aliança histórica entre os Espírito Santo e os Queiroz Pereira, que acabaria em guerra 75 anos mais tarde, nos anos finais da instituição financeira antes de deixar de pertencer à família e passar a chamar-se Novo Banco.

Antes da fusão, já Fernando Eduardo Moniz Galvão se tinha casado com Maria Carolina Norton de Sommer Alzina e é desta união que nasce Maria do Carmo, em 1933, um ano de grandes mudanças: no país, com a instauração da ditadura do Estado Novo e a afirmação de Salazar como presidente do Conselho; e também no Banco Espírito Santo, que mudou de liderança — José Espírito Santo, que tinha sido o presidente até aí, apaixonou-se pela cunhada, com quem fugiu para Paris para atenuar o escândalo na alta sociedade (ambos eram casados), e foi substituído pelo irmão Ricardo Espírito Santo, avô de Ricardo Salgado (que só nasceria em 1944, sendo 11 anos mais novo que a sua prima Ninita).

Em 1938, quando Maria do Carmo tinha 5 anos, o seu pai foi notícia nos jornais por ter vencido a 10.ª Exposição Canina Internacional de Lisboa, um evento organizado no Jardim Zoológico pela secção de canicultura do Club dos Caçadores Portugueses, e que contou com a presença do então Presidente da República, Óscar Carmona, acompanhado pela mulher e pela filha.

“Recebido com uma salva de palmas pela numerosa assistência, o sr. Presidente da República tomou lugar perto da mesa do júri. Este fez então apresentar no ring os animais que tinham obtido as maiores classificações, para dentre eles selecionar aquele a que competiria o prémio de honra, a taça do Club dos Caçadores Portugueses, a qual coube a um lindo animal, preto azulado e branco, propriedade do sr. eng. Fernando Espírito Santo Moniz Galvão”, lê-se no jornal O Século.

O prémio foi-lhe entregue pelo próprio Chefe de Estado. Outro dos seus cães, “Dennegannon Daphne”, também foi premiado na categoria de cães de caça. Uma fotografia que não saiu publicada no jornal mas está arquivada na Torre do Tombo mostra o pai de Maria do Carmo em plena exibição, de fato e gravata, agachado junto a um cocker spaniel.

Maria do Carmo Moniz Galvão também recebeu troféus em concursos de canídeos, tal como o pai (Foto DR)

No ano seguinte, 1939, morre Maria Justina, a avó de Ninita, deixando o marido e os dois filhos como herdeiros. Fernando Eduardo já é formalmente o proprietário do prédio nº 32 da Rua Aquiles Monteverde, em Arroios (um dos que tinha vindo do património do fundador, José Maria), em 1941, ano em que intenta uma ação de despejo contra o inquilino do 4º esquerdo, que deixou de pagar a renda mensal de 270 escudos. Maria do Carmo viveria na altura com os pais, num segundo andar do 211 da Av. da Liberdade, quando a família foi abalada pelo nascimento e morte de uma bebé, Maria Carolina. Ninita tinha 8 anos.

Maria do Carmo Moniz Galvão foi filha única, sobrinha única, neta única e bisneta única pelo lado materno

O facto de não ter tido mais irmãos fez dela a única herdeira das fortunas de todo este ramo da família Espírito Santo, cuja origem não se limitava ao negócio bancário. Em 1946, um ano depois de se ter tornado sócio do Turf Club (como era tradição na família Espírito Santo), o pai lança uma importadora de carros a que chamou Mocar, o segundo nome da filha (Carmo) com as sílabas trocadas, e que viria a dar origem ao que é hoje a Santogal.

Em 1948, morre o avô de Maria do Carmo. A perda do médico Custódio Moniz Galvão é assinalada no relatório e contas do Banco, numa mensagem assinada por Ricardo Espírito Santo e Manuel Queiroz Pereira, sendo descrito como“pessoa que aliava aos primores do espírito e do coração uma inexcedível dedicação por esta Casa”.

O casamento com o primo e a cumplicidade entre os pais dos noivos

Quando completa 21 anos, em 1954, Ninita casa-se com o primo Manuel Ricardo Espírito Santo, filho homem mais velho de Manuel Espírito Santo, e sobrinho do presidente do banco, Ricardo Espírito Santo. É assim abençoada a junção de dois ramos da família e respetivas fortunas. No ano seguinte, marcado pela morte de Ricardo Espírito Santo, a liderança do Banco e do grupo familiar passa a ser assegurada por Manuel Espírito Santo, o sogro de Maria de Carmo, que nesse ano de 1955 lhe dá uma neta, Mafalda, a primeira filha do casamento: seguir-se-iam Madalena (1957), Manuel Fernando (1958) e Fernando (1963).

Fernando Moniz Galvão e Manuel Espírito Santo, com as respetivas mulheres e os atores Tony Curtis e Debbie Reynolds, na visita a Hollywood (Fotobiografia de Manuel Espírito Santo Silva, por Carlos Alberto Damas)

A relação entre os pais dos noivos não podia ser melhor. Apesar de ser três anos mais velho, o pai de Ninita era sobrinho de Manuel Espírito Santo, passando também depois do casamento dos filhos a serem compadres. Em 1959, viajam com as respetivas mulheres aos EUA. Vão a Hollywood e posam numa foto com a atriz Debbie Reynolds, o ator Tony Curtis e o diretor dos Estúdios Paramount.

A partir de 1960, Fernando Eduardo Moniz Galvão passa a integrar o Conselho de Administração do Banco, onde coincide, entre outros, com Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, o Duque de Palmela, embaixador em Londres, António Manuel Almeida (melhor amigo de José Espírito Santo), António Medeiros de Almeida (outro empresário que também fez fortuna no ramo automóvel) e, claro, Manuel Queiroz Pereira e o comandante António Ricciardi, genro do falecido Ricardo Espírito Santo.

Ninita numa competição de raças caninas, gosto que herdou do pai (Foto DR)

Além dos hobbies da caça e dos concursos de canídeos, o pai de Ninita tem um iate, no qual vive um pequeno susto em 1962: escreve a Manuel Espírito Santo a partir de Zurique para contar que tinha havido um “fogo a bordo do iate mas a sorte foi que ninguém sofreu muito”. Também Manuel Queiroz Pereira relata por carta ao presidente do banco esse incidente, a meio de uma viagem pelo Mediterrâneo.

No Verão do ano seguinte, Ninita e Manuel Ricardo Espírito Santo fazem um cruzeiro que passa por Formentera e saem em Cannes. Manuel Queiroz Pereira acompanha-os nessa “viagem óptima”. Continua no cruzeiro, mas avisa Manuel Espírito Santo que Maria do Carmo e Manuel Ricardo iam voltar a Lisboa e por eles mandava notícias. Em Janeiro de 1964, o marido de Ninita assume no BESCL o cargo de inspetor geral, que tinha antes sido desempenhado pelo sogro: mas Fernando Eduardo Moniz Galvão mantém a influência no banco presidido pelo sobrinho.

Fernando Moniz Galvão, pai de Maria do Carmo, é o segundo a contar da direita, ao lado do comandante Ricciardi, no momento em que entregam a Américo Tomás o donativo para a Fundação Salazar (Fotobiografia de Manuel Espírito Santo Silva, por Carlos Alberto Damas)

Em Maio de 1969, junta-se a Manuel Espírito Santo, Manuel Queiroz Pereira, Rogério Cândido da Silva (um diretor histórico do banco) e António Ricciardi na delegação que se desloca ao Palácio de Belém, para comunicar ao então Presidente, Américo Tomás, o donativo que o grupo iria fazer à Fundação Salazar, uma iniciativa promovida pelo chefe de Estado para promover a habitação social, usando o nome do ditador, que tinha deixado o poder no ano anterior. O Banco Espírito Santo e as várias empresas onde detinha quotas relevantes, como a SACOR e a Cidla, oferece à Fundação 18 mil contos (6,2 milhões de euros a preços de hoje). No total, somando as contribuições das grandes empresas e instituições (a Gulbenkian deu 30 mil contos) com os pequenos donativos anónimos, a Fundação Salazar angariou 228 mil contos (o equivalente hoje a 78,6 milhões de euros).

A escolha de Manuel Ricardo, marido de Maria do Carmo, para liderar o grupo

Em Janeiro de 1973, o sogro de Maria do Carmo regressa de Paris mal disposto, por o avião não ter aterrado bem à primeira tentativa. Quando entra em casa, ainda oferece um anel à mulher, mas não se sente bem. “Tire-me os sapatos que eu não consigo”, pede ao filho Jorge, a caminho do quarto. Na madrugada seguinte, às 6 da manhã, a mulher acorda e vê o marido numa poça de sangue. O banqueiro pede que chamem o padre Manuel da Silva, para a extrema-unção. Quer reunir todos os filhos, mas o mais velho, Manuel Ricardo, está no Porto e ainda vai demorar até chegar ao Lumiar. Como não sabe quanto tempo lhe sobra, diz a todos os outros dez filhos: “Não tenho testamento, mas sei os filhos que tenho. Dêem tudo à mãe e à Igreja. O Peru [Quinta do Peru, em Azeitão] é da mãe. E gostava que os rapazes ficassem com as ações do banco, sem prejudicar as irmãs”.

Duas horas mais tarde chega Manuel Ricardo e ainda encontra o pai vivo, para o ouvir repetir o que tinha dito aos outros irmãos. Ao funeral de Manuel Espírito Santo assistem centenas de pessoas, incluindo o Presidente da República e o Presidente do Conselho.

Manuel Espírito Santo rodeado pelos filhos no dia em que recebeu o Presidente da República Américo Tomás (Fotobiografia de Manuel Espírito Santo Silva, por Carlos Alberto Damas)

Os principais administradores do banco e os representantes de todos os ramos da família começam a discutir a sucessão. Há dois candidatos naturais: um é o marido de Maria do Carmo Moniz Galvão e filho mais velho de Manuel Espírito Santo; outro é o seu primo, José Maria Borges Coutinho Espírito Santo, filho de José Espírito Santo. A decisão é tomada depois de uma reunião de meia hora entre os dois. José Maria diz que prefere concentrar-se na seguradora Tranquilidade e deixa o caminho livre a Manuel Ricardo, que de qualquer forma já somaria sempre o peso acionista que herdou do ramo do pai, com a participação da família da mulher — e a influência favorável do pai de Maria do Carmo.

Em 1974, o nome da tia de Ninita, Maria Cristina Moniz Galvão, é denunciado pelos sindicalistas por ser titular de uma conta que lhe permite gastar até 25 mil contos em condições especiais de crédito. Esta tia virá a morrer em 2 de Dezembro de 1974, o que foi aproveitado pelos sindicalistas para mais uma denúncia pública: “Todos os valores à guarda do Banco deveriam estar em contencioso a partir da data do seu falecimento, o que aliás se não verificou.” 

Manuel Ricardo herda aos 40 anos a liderança de um grupo com interesses que vão muito para além do banco da família: a seguradora Tranquilidade, participações importantes na Sacor (empresa de petróleos que está na origem da GALP), na Sociedade Central de Cervejas, no Hotel Ritz, nas Sociedades Agrícolas do Cassequel, em Angola, e do Incomati, em Moçambique, na Companhia Portuguesa de Celulose e na Firestone (pneus).  A estes interesses acrescem as empresas do ramo automóvel e os negócios imobiliários do lado da mulher. Os membros da família ocupam 40 cargos em 20 sociedades de todos os sectores, cujo capital ascende a mais de 4 milhões de contos. Mas quase todo este poder vai desaparecer em menos de dois anos, com a chegada do 25 de Abril.

Revolução: a detenção do marido dois dias após a morte do pai

A revolução empurra Manuel Ricardo Espírito Santo para os corredores da influência política, num instinto de tentativa de sobrevivência. Quatro dias depois do 25 de Abril, juntamente com António Champalimaud, José Manuel de Mello, Miguel Quina e outros banqueiros, é recebido por Spínola, presidente da Junta de Salvação Nacional, e Vasco Vieira de Almeida, ministro da Economia no I Governo Provisório. Os principais empresários do país chegam a criar o Movimento Dinamizador Empresa/Sociedade (MDE/S) para fazer lobby a favor da manutenção da iniciativa privada e tentar modificar a imagem do capitalismo português. Elogiam mesmo o MFA e o seu programa, por terem libertado a economia portuguesa “dos falsos proteccionismos e de pesados condicionalismos que impediam um efectivo desenvolvimento da actividade económica”.

Ao mesmo tempo começa a enfrentar a tensão sindical dentro do banco, cedendo às reivindicações: logo na primeira reunião, decide dar um aumento de 2 contos a todos os trabalhadores e pensionistas. E o uso de gravata no BES deixa de ser obrigatório.

Manuel Ricardo, num retrato póstumo da autoria de Pedro Leitão (Fotobiografia de Manuel Espírito Santo Silva, por Carlos Alberto Damas)

Os sindicalistas começam a usar a informação interna a que têm acesso para denunciar movimentos considerados reacionários e financiamentos a partidos de centro e de direita. E a Polícia Judiciária Militar virá a concluir que a intenção de organizar a manifestação de apoio a Spínola a 28 de Setembro não teria avançado tanto sem o apoio financeiro do BESCL, apontando responsabilidades diretamente a Manuel Ricardo. Os delegados sindicais denunciam também à PJM várias “operações de financiamento a familiares da administração ou indivíduos das suas relações”, que criticam por mobilizarem “avultados capitais em detrimento do interesse da economia do país”.

Entre os familiares é referido especificamente o nome da tia de Ninita, Maria Cristina Moniz Galvão, por ser titular de uma conta que lhe permite gastar até 25 mil contos em condições especiais de crédito. Esta tia virá a morrer em 2 de Dezembro de 1974, o que foi aproveitado pelos sindicalistas para mais uma denúncia pública: “Todos os valores à guarda do Banco deveriam estar em contencioso a partir da data do seu falecimento, o que aliás se não verificou.” Maria Cristina não deixou descendentes, pelo que a sobrinha Maria do Carmo também acabou por ser sua herdeira.

Também a transferência de elevados montantes para empresas do grupo é considerada no relatório da Polícia Judiciária Militar um “desvio de capitais” e um conjunto de “manobras contra a economia nacional”. Um dos exemplos é a transferência de 19.500 contos para a Mocar, a empresa automóvel criada pelo pai de Maria do Carmo.

São acusados de pertencerem a uma associação de malfeitores, de serem exploradores do povo e de sabotarem a economia. Fecham-nos numa cela com cinco beliches, uma mesa com bancos e uma janela. É a sala 6 da prisão de Caxias, onde vão viver os próximos meses. Manuel Ricardo Espírito Santo, líder do grupo há apenas dois anos, desabafa com o irmão Jorge: “Somos a terceira geração à frente do banco e vamos perder tudo”.

No livro “Sabotagem Económica Dossier Banco Espírito Santo”, as comissões de delegados sindicais do BESCL denunciam ainda o facto de a instituição financeira ter reembolsado os administradores dos impostos cobrados pelo fisco, divulgando os valores de Manuel Ricardo Espírito Santo Silva (248 contos) e de [Fernando] Moniz Galvão (87 contos).

Face à radicalização do ambiente social, Manuel Ricardo Espírito Santo dá instruções às quatro irmãs para saírem de Portugal no fim de Setembro. A embaixada americana em Madrid comunica ao Departamento de Estado os relatos da chegada à capital espanhola de um número significativo de banqueiros portugueses, citando o nome da família “Espiritu Santo” (sic).

O pai de Ninita, Fernando Moniz Galvão, morre em Março de 1975, com 70 anos. Dois dias depois, a situação para a família agrava-se de facto, na sequência da assembleia selvagem do MFA que decide a nacionalização da banca, com os sindicalistas a cercarem os administradores na sala de refeições.

“Acabou-se a brincadeira, agora é a sério, estes senhores estão presos”, anuncia o tenente Rosário Dias, assessor económico do primeiro-ministro, quando entra, de arma em punho. Manuel Ricardo Espírito Santo é transportado no Citroen boca-de-sapo do chefe do governo provisório, Vasco Gonçalves, acompanhado pelo irmão mais novo, José Manuel, e por José Roquette. Em mais dois Peugeots do banco, seguem António Ricciardi, Carlos Mello, José Maria Borges Coutinho Espírito Santo, Jorge Espírito Santo e Manuel Couto.

São acusados de pertencerem a uma associação de malfeitores, de serem exploradores do povo e de sabotarem a economia. Fecham-nos numa cela com cinco beliches, uma mesa com bancos e uma janela. É a sala 6 da prisão de Caxias, onde vão viver os próximos meses. Manuel Ricardo Espírito Santo, líder do grupo há apenas dois anos, desabafa com o irmão Jorge: “Somos a terceira geração à frente do banco e vamos perder tudo”.

Três gerações de Manuéis: o avô, à direita, Manuel Ricardo ao centro, e o filho de Maria do Carmo, Manuel Fernando Moniz Galvão Espírito Santo (Fotobiografia de Manuel Espírito Santo Silva, por Carlos Alberto Damas)

A família mobiliza-se para uma série de movimentações políticas e diplomáticas com o objectivo de conseguir a libertação dos banqueiros, junto do presidente francês Giscard d’Estaing, da família real espanhola e do príncipe Bernardo da Holanda, entre outros.

Ao fim de 3 meses, os Espírito Santo são transferidos para a prisão da PJ, onde encontram Jorge de Brito, ex-presidente do Banco Intercontinental Português. Manuel Ricardo Espírito Santo, seu padrinho de casamento e padrinho de um dos seus filhos, demove-o de elaborar um plano para fugir dali. Os Espírito Santo ainda passam depois uns meses na cadeia de Monsanto, onde já beneficiam de algumas regalias, porque o diretor da prisão conhece pessoalmente Manuel Ricardo Espírito Santo, dos tempos em que dirigira a cadeia de Pinheiro da Cruz, perto da Herdade da Comporta (pertencente à família dos banqueiros). Em Monsanto já pagam a um dos reclusos mais novos para lhes tratar das tarefas domésticas. Já podem receber visitas com mais regularidade. E a comida já é muitas vezes fornecida pelos principais restaurantes de Lisboa, que não se esquecem dos seus antigos clientes, sobretudo de Manuel Ricardo Espírito Santo. No dia 4 de Julho de 1975, quando o marido de Ninita completa 42 anos, recebe 14 bolos de aniversário na prisão de Monsanto, enviados por amigos, por familiares e pelos caseiros da Herdade da Comporta e da Quinta do Peru, propriedades da família.

Só a 25 de Julho é que os banqueiros são libertados. Manuel Ricardo liga para casa: “Mãe, já saí”. Ao fim de uns dias escondidos em casas de amigos, os três irmãos (Manuel Ricardo, Jorge e José Manuel) e António Ricciardi rumam a norte, disfarçam-se com boinas e gabardinas para não serem apanhados pelas barricadas populares que queriam voltar a pô-los na cadeia, e atravessam a fronteira para Espanha, onde se reencontram com o resto da família numa quinta de um amigo, perto de Toledo.

Depois de um mês a planear como iriam reconstruir os negócios fora de Portugal, dividem-se entre Brasil, Espanha, Suíça e Inglaterra. Manuel Ricardo Espírito Santo passa a maior parte dos anos seguintes em Lausanne, com deslocações regulares a Londres, a cidade favorita da mulher, Maria do Carmo. Com o apoio de empresas internacionais com as quais tinham cumplicidades antes da revolução, os Espírito Santo conseguem relançar-se nos negócios a partir do exterior, através de uma cascata de holdings centralizada na Espírito Santo Control, com sede no Luxemburgo, até surgir a oportunidade de concorrerem à reprivatização do banco da família, 16 anos depois da nacionalização, em 1991, num governo de Cavaco Silva. Manuel Ricardo já não assistie a essa reconquista: morre na véspera do anúncio da decisão, aos 57 anos.

Tinha um quisto no pulmão, emagreceu bastante, mas não abrandou o ritmo de viagens entre os vários países onde o Grupo Espírito Santo tinha negócios. Como contou na altura o jornal O Independente, foi operado em Londres, depois de uma viagem aos EUA, com o primo Machado Macedo, que era bastonário da Ordem dos Médicos, a assistir. Após de 6 dias de convalescença, foi para a sua casa de Londres, em Kensington Court Gardens. Na noite seguinte, sentiu-se bastante agitado e acabou por morrer às 3 da manhã, vítima de uma embolia pulmonar.

Além de Maria do Carmo, estavam com ele em Londres as duas filhas, Mafalda e Madalena, e o filho mais velho, Manuel Fernando. Franco Nogueira, seu grande amigo, ia fazer-lhe uma visita surpresa na convalescença mas já não chegou a tempo de o encontrar com vida. Três dias depois da morte, a família Espírito Santo reuniu-se na casa de Santa Marta em Cascais, para receber o telefonema de condolências do Rei Juan Carlos. A 26 de Março de 1991, realizou-se a missa de corpo presente nos Jerónimos, antes de Manuel Ricardo ser sepultado no cemitério dos Prazeres.

A nova luta pela sucessão e o escândalo do fim

A morte de Manuel Ricardo abre uma nova luta pela sucessão do grupo. Segundo fontes próximas da família que acompanharam este processo, a viúva, Maria do Carmo, teria preferido que a escolha recaísse no cunhado António Espírito Santo, com quem tinha maior proximidade, mas acabou por ser encontrada uma solução diferente. António fica encarregue da área não financeira, mas Ricardo Salgado fica como presidente do Banco e responsável pela área financeira. O Conselho Superior e a ESI passam a ter a presidência do comandante António Ricciardi. Ou seja, 46 anos depois, o poder no grupo volta a passar para o ramo de Ricardo Espírito Santo, em detrimento dos ramos de Manuel Espírito Santo e Moniz Galvão.

Uma das raríssimas imagens conhecidas de Maria do Carmo Moniz Galvão

Viúva, e com os filhos ainda demasiado novos para poderem assumir os negócios, Maria do Carmo confia a gestão das empresas sobretudo a Fernando Martorell. Já antes, quando o marido tinha estado preso, tinha sido Miguel Jorge Horta e Costa, outro amigo da família a assumir a gestão, tendo recebido uma procuração com plenos poderes para gerir os negócios.

No fim da primeira década do novo milénio, Ninita começa a aparecer destacada nas listas dos mais ricos publicadas na imprensa. Em 2o07 era a mulher mais rica de Portugal, com um património avaliado pela revista Exame em 768 milhões de euros. Era a maior accionista da Espírito Santo Control, a holding que geria os negócios do grupo, onde chegou a deter 19,3%. E tinha além disso os negócios da venda de automóveis através da Santogal. Maria do Carmo Moniz Galvão ainda chegou a tentar desfazer-se da sua participação no grupo, mas essa intenção acabou por nunca se concretizar.

A gestão foi passando naturalmente para os filhos, com o mais novo a assegurar a Santogal, e o mais velho, Manuel Fernando, a ficar responsável por representar a mãe nos negócios do Grupo Espírito Santo e nas reuniões do Conselho Superior, que entretanto foram gravadas e divulgadas, para embaraço da maioria dos participantes. A crise do grupo tirou Manuel Fernando Espírito Santo do anonimato relativo em que vivia, tendo chegado a passar por um momento constrangedor num restaurante, quando outros clientes começaram a agitar ruidosamente os talheres assim que o viram, o que o deixou incomodado, abandonando o local pouco depois, como contou na altura a revista Sábado.

Manuel Fernando Espírito Santo, filho mais velho de Maria do Carmo, ficou a gerir as participações da mãe no Grupo Espírito Santo

© Hugo Amaral/Observador

Da vida pessoal da matriarca soube-se sempre muito pouco. Num perfil publicado em 2007 pela revista Sábado contava-se que adorava conduzir modelos desportivos, um prazer que herdou do pai, e que gostava de antiguidades. A destruição do grupo e a saída das listas dos mais ricos não alterou a postura de Maria do Carmo, que durante todos estes anos continuou a manter-se, conta quem a conheceu bem, “cordial e simpática, mas reservada, introvertida e discreta” — quase invisível. Morreu esta quinta, 2 de Janeiro, na sequência de um AVC. Ao contrário do que aconteceu quase sempre até aqui nos últimos 120 anos no seu ramo da família, a sua fortuna não terá apenas um herdeiro: a maior parte terá de ser dividida pelo menos pelos quatro filhos.

* Pedro Jorge Castro é autor dos livros “Salazar e os Milionários” e “O Ataque aos Milionários”, e de vários artigos sobre a família Espírito Santo, onde foram publicadas algumas das informações referidas neste artigo

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