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Fernando Teles (com 37,5%) e Isabel dos Santos (com 42,5%) são os dois maiores acionistas do EuroBic (e do BIC Angola)

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Fernando Teles (com 37,5%) e Isabel dos Santos (com 42,5%) são os dois maiores acionistas do EuroBic (e do BIC Angola)

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

O homem que geria um banco com "walkie talkies" (e os outros donos do EuroBic) /premium

Isabel dos Santos está a vender os seus 42,5% no EuroBic. Quem são os seus sócios no banco? A figura-chave é Fernando Teles, mas também se junta um antigo "peso-pesado" do MPLA e um "Ás de Espadas".

Quando Luís Mira Amaral aterrou no Aeroporto 4 de Fevereiro, em Luanda, para a primeira visita enquanto responsável do BPI para Angola foi Fernando Teles quem o recebeu. Logo aí, conta ao Observador o ex-presidente do EuroBic, ficou com a ideia de que o empresário luso-angolano, um dos homens de confiança de Isabel dos Santos, era uma “força da natureza”. Estávamos em 2000 e o BIC Angola, Isabel dos Santos e Américo Amorim estavam ainda a cinco anos de distância. Já lá iremos.

“No carro andava de walkie-talkie, a falar com as agências do banco. Não o conhecia, eu estava no governo quando o [Miguel] Cadilhe o nomeou [para diretor-geral do Banco de Fomento Exterior (BFE)]. Achei que era um tipo fabuloso, uma força da natureza a atuar no terreno em Angola”, recorda Mira Amaral. E o que lhe diz esse episódio dos walkie-talkies? “Mesmo quando não estava no gabinete comandava o barco. Conhecia profundamente Angola. Conhecia aquilo tudo”, completa.

Fernando Teles era então conhecido como “a” referência portuguesa na banca angolana. Foi instrumental no crescimento do Banco de Fomento Exterior (BFE), foi figura-chave na passagem a Banco Fomento Angola, com o BPI, e o pai do BIC Angola e do seu “espelho” em Lisboa: o BIC Portugal, mais tarde renomeado EuroBic. Duas décadas depois, aos 77 anos e com Isabel dos Santos de saída do EuroBic – chamuscada pelo escândalo Luanda Leaks – Fernando Teles ganha importância redobrada.

Isabel dos Santos está a vender posição no EuroBic e já abdicou dos direitos de voto

Desde que o falecido empresário Américo Amorim decidiu sair da estrutura acionista do banco, em 2014, que este passou a ter dois acionistas principais: Isabel dos Santos, com 42,5%, e Fernando Teles, com 37,5%. O comunicado divulgado pelo banco na semana passada garante que já há interessados na compra da participação da angolana, pelo que essa transação se pode concretizar muito brevemente.

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Uma fonte do setor financeiro contou ao Observador que após o último verão foi o próprio Fernando Teles a admitir vender o banco a um grupo chinês que os abordou, via Macau — e aí foi Isabel dos Santos quem não quis vender. Contactado pelo Observador, Fernando Teles não quis falar sobre o banco que tem em Portugal e que nasceu em Angola. Este é um momento sensível para a instituição, fragilizada pelas denúncias do Luanda Leaks e pela pressão do Banco de Portugal.

423 empresas em 38 países. O império de Isabel dos Santos que já começou a encolher

O bancário de Alvarenga que se fez banqueiro após a reforma

Angola e banca são duas linhas que se cruzam na história deste luso-angolano que nasceu em Alvarenga, aldeia do concelho de Arouca. A história de Fernando Teles, contada numa entrevista ao jornal da terra enquanto ainda acumulava a presidência do BIC Angola e do BIC Portugal, começa como a de muitos portugueses que foram para África e prosperaram. Mas a prosperidade de Teles surgiu já depois da independência. “Saí de Portugal, onde era diretor de um banco, e fui para o exterior abrir um novo banco, numa altura em que ninguém queria sair de Portugal e ir para Angola quando estava ainda em guerra.

Fernando Teles é apontado como um potencial comprador do capital do EuroBic que Isabel dos Santos anunciou que vai vender

Inacio Rosa/LUSA

Começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, mas também estudou, tirou cursos superiores de contabilidade e gestão em Lisboa, estudando à noite. Chegou a Angola em meados dos anos 60, levado pelo irmão que já lá trabalhava. Meses depois de chegar entrou no Banco de Crédito e nunca mais deixou o setor, tendo passado por cinco bancos. Trabalhou durante anos no Banco Borges e Irmão, como economista, mas fez também parte da comissão de trabalhadores e foi líder sindical durante os anos da nacionalização.

O Banco Borges e Irmão foi comprado ao Estado pelo BPI, que também adquiriu o Banco do Fomento Exterior, a primeira instituição bancária portuguesa a abrir portas em Angola e que se tornou no maior banco privado, o Banco do Fomento Angola (BFA).

"Saí de Portugal, onde era diretor de um banco e fui para o exterior abrir um novo banco numa altura em que ninguém queria sair de Portugal e ir para Angola quando estava em guerra."
Fernando Teles

“Vivo há mais de 20 anos em Angola, onde constituí dois bancos, o Banco do Fomento Exterior, atualmente Banco de Fomento Angola, e o Banco BIC”, disse em entrevista ao Roda Livre de Arouca em 2014. “Eu sou gestor, mais gestor do que banqueiro, ou até bancário, porque sou reformado da banca, e quando me reformei fi-lo como diretor central, o que quer dizer que, na verdade, sou bancário. Por acaso também sou acionista do BIC Angola e do BIC Portugal, porque já em período de quase reforma decidi arriscar. Em 1992/1993 iniciei um projeto em Angola, que foi o banco de fomento do BPI, e em 2005 apostei num novo projeto e ainda bem, porque hoje o BIC é um banco de referência em Angola”.

O BIC nasceu com capital de Américo Amorim e de Isabel dos Santos, mas é desde o seu início uma criação de Fernando Teles. O banco entrou em Portugal em 2008, com o início da crise financeira e bancária. Foi Fernando Teles quem sugeriu a Américo Amorim que escolhesse Mira Amaral como primeiro presidente executivo do BIC Portugal, como veremos adiante. A abordagem ao mercado português foi explicada na comissão de inquérito à venda do BPN em julho de 2012, meses depois de o BIC ter comprado o banco ao Estado.

“Só começámos a pensar em crescer em Portugal, quando começámos a perceber que tínhamos gestão e condições para o fazer. Por isso, se aparecesse em 2009, ou em 2008 — a oportunidade de comprar um banco —, com certeza que não tínhamos concorrido”, disse aos deputados. “Não porque não tivéssemos capital, que até poderíamos ter – porque somos um banco cujos acionistas são pessoas por de mais conhecidas e também o banco em si tem algum capital, tem quase 800 milhões em capital – mas a verdade é que, nessa altura, não tínhamos experiência suficiente em Portugal para o fazer“.

Isabel dos Santos assinalou a morte de Américo Amorim em julho de 2017 com uma fotografia junto ao empresário e a Fernando Teles

Os homens de confiança, a herança do BPN e os bancários que tomam “Lorenin”

Nas entrevistas que deu, Fernando Teles descreve-se como um empresário terra à terra e acessível. “Qualquer pessoa que queira falar comigo, incluindo os trabalhadores, sabe que se bater à minha porta eu atendo, mesmo que seja para dizer não. Para mim, as pessoas são todas iguais, independentemente da sua condição social. Dou-me bem com o ministro e com o contínuo. Não me tenho dado mal com essa postura”.

Mas quem lidou com ele de perto diz que também pode ter reações imprevisíveis quando o contrariam. Fernando Teles tornou-se uma figura incontornável do BIC em Portugal, mesmo quando não era um dos maiores acionistas, o que só aconteceu depois de comprar uma parte a Américo Amorim. Estava em todas as decisões e ao seu lado tinha Jaime Pereira, que era visto como o operacional de Fernando Teles e às vezes quem fazia de “polícia mau”. Foi também fundamental na gestão do banco na compra do BPN.

“O Dr. Jaime Pereira foi, por exemplo, a pessoa da Deloitte que acompanhou a banca toda em Angola durante 18 ou 19 anos: é vice-presidente da comissão executiva porque conhece bem o mercado angolano e está connosco há quatro anos no BIC português porque faz a ponte também”, explicou aos deputados em 2012. Mas o nome de Jaime Pereira viria a ser “vetado” pelo Banco de Portugal por suspeitas de branqueamento de capitais. E foi assim que entrou em cena no BIC Portugal Fernando Teixeira dos Santos,ex-ministro das Finanças e amigo do governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.

Mira Amaral (à esquerda), Fernando Teles (ao centro) e Jaime Pereira (à direita)

LUSA

Diogo Barrote era outro dos homens-chave de Teles. E continua a ser: atualmente é o presidente do conselho de administração do EuroBic. “O meu principal adjunto em Angola, o Sr. Diogo Barrote, é administrador do BIC Português, e não é por acaso. Está no BIC português porque conhece bem as empresas que estão a trabalhar noutros continentes e pode ajudar-nos”, disse Fernando Teles à comissão de inquérito. E já na altura colocava a fasquia bem alta. “Vamos continuar a ser um pequeno banco, mas espero, daqui a algum tempo, estar entre os principais bancos portugueses. Se calhar, da minha parte, é algo ousado, mas é a minha esperança. Eu disse o mesmo há sete anos, quando fundei o BIC. Na altura em que fundei o BIC éramos o 14.º banco e hoje somos o 3.º/4.º e já somos o 1.º em algumas coisas, o que me dá algum gozo”.

A compra do BPN, apesar da reputação da marca, permitiu ao BIC — que teve de mudar de nome para EuroBic em 2017 depois de ter perdido um processo para o BIG (Banco de Investimento Global) — o salto de dimensão na rede e no número de colaboradores. O BIC acabou por absorver mais do que os 750 colaboradores previstos no contrato. E ficou com um dos homens que mais sabiam do Banco Português de Negócios. Rui Pedras entrou na administração do banco ainda antes da nacionalização, com Miguel Cadilhe, ficou durante os anos de gestão pública feita pela Caixa Geral de Depósitos e foi o único membro do conselho a ser convidado a ficar depois da venda ao BIC.

O BIC absorveu mais do que os 750 colaboradores previstos no contrato de compra do BPN e ficou com um dos homens que mais sabia do BPN, Rui Pedras

José Goulao/LUSA

A propósito da herança do banco que se viu envolvido num escândalo de fraudes e casos de polícia, Teles destacou alguns aspetos positivos que encontrou, mas não deixou de notar os efeitos colaterais nos colaboradores. “Posso dizer que o BPN até me parece um banco com boa organização, com bom rácio de gestão, no qual foi feito um grande investimento na área informática. Até me parece que é um banco bem organizado. No entanto, o BPN teve problemas de gestão — toda a gente sabe que teve problemas de gestão — e quem adquirir o banco (ou quem adquiriu o banco, que fomos nós) vai ter muito trabalho para pôr o banco com uma situação de motivação dos trabalhadores, dos quadros… Há muito trabalho que vai ser feito, há muitos quadros do BPN a tomar Lorenin [medicamento para ansiedade e depressão] todos os dias, e isso preocupa-nos”.

Na gestão dos ativos do BPN, e na relação difícil que viria a ter com a parte má do BPN que ficou nas mãos do Estado, o BIC e os seus dirigentes foram inflexíveis. E foram vários os conflitos que surgiram nos anos seguintes, sobre direitos e deveres do comprador, a ponto de a Parvalorem ter apresentado uma queixa em tribunal em 2016 por atrasos na transferência de créditos e comissões previstas no contrato.

“Sr. Deputado, estamos a gerir o banco e temos que fazê-lo de acordo com a nossa forma de gestão. Não lhe vou dizer como é que decidimos selecionar o crédito. Contudo, com certeza absoluta, não fomos escolher o que lá estava parado há mais tempo, ou aquele em que os clientes já estavam falidos ou tinham passado a insolventes. Isso de certeza absoluta que não fizemos”, disse Fernando Teles na comissão parlamentar.

"Vamos continuar a ser um pequeno banco, mas espero, daqui a algum tempo, estar entre os principais bancos portugueses. Se calhar, da minha parte, é algo ousado, mas é a minha esperança."
Fernando Teles, 2012

Fernando Teles fundou o BIC porque tinha linha direta não só com Isabel dos Santos como com o acionista fundador Américo Amorim. Terá sido, aliás, Fernando Teles que em 2007 sugeriu a Américo Amorim o nome de Mira Amaral para a presidência do banco em Portugal – embora, depois, tenha sido o falecido empresário a convidar Mira Amaral para jantar e a fazer-lhe o convite formal para ser o primeiro presidente-executivo da instituição.

Mira Amaral era o gestor da instituição, mas Fernando Teles, enquanto acionista, tinha uma atitude muito interventiva na gestão do banco – essa foi, aliás, uma das críticas apontadas por uma auditoria feita pelo Banco de Portugal, em 2015. Mira Amaral viria a argumentar que, “a partir do momento em que o Banco de Portugal autorizou que um acionista relevante do banco, que ainda por cima é gestor bancário e presidente executivo do Banco BIC Angola, seja presidente do Conselho de Administração, compreende-se que o Dr. Fernando Teles não se comporte como uma Rainha de Inglaterra”.

Isabel dos Santos, essa, só contactava com a equipa executiva nas reuniões do conselho de administração e nas assembleias gerais – já o contacto de Teles era diário, para não dizer ainda mais frequente. E quando Américo Amorim saiu, em 2014, os dois tomaram a posição do empresário, que tinha tentado vender a sua participação a fundos internacionais mas acabou por dividi-la entre os outros dois sócios.

O nome de Mira Amaral terá sido sugerido a Américo Amorim para a presidência do BIC em Portugal por Fernando Teles em 2007

JOAO RELVAS/LUSA

Duas paixões adicionais: Benfica e agricultura

Nem só de banca vive Fernando Teles. Na entrevista ao Roda Viva, reconheceu que, economicamente, tem um padrão de vida “confortável” – ainda que diga ser fruto de quem “foi à luta”. Mas tem mais paixões, sendo que uma delas é o Benfica. É amigo do presidente do clube, Luís Filipe Vieira, um velho conhecido do banco: foi um dos clientes do BPN que deixou uma dívida pendurada, que acabou por ficar do lado do Estado. Uma ressalva: quando o BIC – e Fernando Teles – compraram o BPN, o problema já lá não estava.

A agricultura será a sua segunda paixão. Segundo entrevistas que deu, os seus interesses económicos estendem-se da construção civil, à produção de carne, arroz, milho, mas também vinho. Tem várias fazendas em Angola e propriedades agrícolas em Portugal. Além da produção de gado de raça arouquesa, em que apostou na sua terra, tem propriedades no Alentejo. E já em 2019 foi notícia por comprar duas quintas ao antigo presidente da Casa do Douro e ex-deputado do PSD, Manuel António dos Santos, no quadro de um processo de insolvência.

Quando lhe perguntam se se sente um embaixador de Arouca, responde: “Estou numa posição de algum destaque, não o nego. Mas Arouca, ao longo do tempo, teve sempre famílias muito importantes”. Mas é um assumido apoiante da terra, que visita sempre que está em Portugal. E até é ele a anunciar – na entrevista ao Roda Viva – que serão Mickael Carreira e Mariza os artistas escolhidos para atuar nas festas da terra de 2014.  Pelo menos o filho de Toni Carreira atuou mesmo em Alvarenga. E na data anunciada por Fernando Teles: 14 de junho de 2014.

Os outros sócio: um velho peso-pesado do MPLA, um homem dos supermercados e um “Ás de Espadas”

Para o projeto BIC em Angola, Fernando Teles associou-se a três outras figuras do mundo empresarial e bancário de Angola: Sebastião Lavrador, Luís Cortez e Manuel Pinheiro Fernandes.

Sebastião Bastos Lavrador, ligado à banca desde os anos anteriores à descolonização, é um amigo de infância de José Eduardo dos Santos e é um dos homens mais ricos de Angola. Apesar dos cargos de relevância que ocupou em várias instituições bancárias, Sebastião Lavrador não frequentou estudos superiores, ficando-se pelo curso geral dos liceus da era colonial. Esteve sempre ligado à atividade bancária, entrando no antigo Banco de Crédito Comercial e Industrial (BCCI) em 1967.

Manteve-se no BCCI até à independência. Em 1976 foi nomeado diretor das dependências do Banco Central nas províncias do Huambo e do Bié. Na década de 1980 foi diretor provincial de Luanda e chefiou a direção de operações internacionais do Banco Nacional de Angola.

Foi um dos militantes da primeira vaga do MPLA, juntando-se ao partido (então em luta contra Portugal) em 1962. O facto de ser um dos pesos-pesados do partido e o facto de ser amigo de infância de José Eduardo dos Santos – o seu pai dava boleia ao pequeno José Eduardo quando os dois eram crianças na Sambizanga — valeu-lhe a ascensão ao cargo de governador do Banco Nacional de Angola, funções que ocupou em duas ocasiões (entre 1992 e 1993 e de 1996 a 1999).

Foi com Sebastião Lavrador à frente do BNA que se intensificou o processo de abertura da banca angolana a operadores privados, e mais tarde a estrangeiros. O primeiro deles foi o Banco de Fomento Exterior (BFE), no qual Fernando Teles se afirmou. Mas também autorizou a entrada em Angola de sucursais de bancos portugueses como o Banco Totta e Açores (BTA) e o Banco Português do Atlântico (BPA).

José Eduardo dos Santos é amigo de infância de Sebastião Bastos Lavrador, um dos homens mais ricos de Angola

AMPE ROGÉRIO/LUSA

Após a aprovação da Lei das Instituições Financeiras angolana, em 1991, o Banco Nacional de Angola passou a exercer a função de Banco Central, “consagrado como autoridade monetária, agente da autoridade cambial e separado das funções comerciais”, indica o próprio site da instituição. Foi também num mandato seu, neste caso em 1996, que o Banco Nacional de Angola passou a sua, na altura, extensa rede bancária para a CAP – Caixa de Crédito Agro-Pecuária e Pescas. A CAP seria um banco controlado pelo Estado, à imagem do que existia em Portugal com a Caixa Geral de Depósitos.

Em 1996, com Angola a registar uma taxa de inflação anual de 7.635%, Sebastião Lavrador iniciou um conjunto de medidas de política cambial: proibiu as casas de câmbio (o mercado informal) de venderem moeda estrangeira em espécie e uniformizou as taxas de câmbio, com taxas únicas iguais entre o sistema bancário e as casas de câmbio. Pormenor: na altura da decisão enquanto governador do Banco Nacional de Angola, Sebastião Lavrador era também proprietário de uma casa de câmbios, a “Ouro Verde.

Ao anunciar a medida enquanto governador do BNA, numa conferência de imprensa, Sebastião Lavrador não resistiu a falar também “na qualidade de empresário”.

“(Quero) apelar aos meus colegas para que olhemos um pouco mais para a população e deixemos de ganhar tanto dinheiro nas especulações e viremo-nos um pouco mais para os pobres”, disse.

Em 2011, o jornal brasileiro O Globo noticiou outros pormenores sobre os negócios de Sebastião Lavrador, neste caso com o empresário brasileiro Valdomiro Minoru Dondo, acusado de enriquecimento ilícito à custa de negócios com vários dirigentes de topo em Angola, entre os quais o General Dino (acionista, ao lado de Isabel dos Santos, na Unitel) e o General Manuel Hélder Vieira Dias, “Kopelipa”, acionista do BIG, em Lisboa.

Voltando a Lavrador: a investigação do jornal O Globo em 2011 revelava que Minoru fez dois negócios com o então governador do Banco Nacional de Angola. Em novembro de 1997, o empresário brasileiro foi procurador de Maria Fernanda Nogueira Alcântara Monteiro Lavrador (mulher de Sebastião Lavrador) na compra de um apartamento na Praça Atahualpa, no Leblon (Rio de Janeiro), o bairro mais caro do Brasil. Dois anos depois, em 9 de julho de 1999, o empresário vendeu ao próprio Lavrador uma propriedade na Barra da Tijuca, outra zona exclusiva no Rio.

Mesmo depois de reformado, Sebastião Lavrador continuou, como consultor, a ajudar os seus sucessores na liderança do supervisor.

O Banco Nacional de Angola autorizou a entrada no país de sucursais de bancos portugueses, como o BTA, o BFE e o BPA

AMPE ROGÉRIO/LUSA

Além da participação de 5% no Eurobic, tem 5,5% do BCH, o Banco Comercial do Huambo, uma instituição em que dois dos três administradores partilham o seu sobrenome (o presidente, seu filho, Natalino Bastos Lavrador, que tem 51,5% do banco, e a administradora Cristiana de Azevedo Neto Lavrador). O influente empresário António Mosquito, que chegou a ter participações em Portugal na Soares da Costa e na Global Media, tem 20%.

O BCH, que tem cinco agências em Luanda e uma no Huambo, foi em julho autorizado pelo Banco de Portugal a abrir um escritório de representação em Portugal, que ficou na Rua Arquitecto Cassiano Barbosa, no Porto –  escritório liderado por José Rui Campos Arnaud, um gestor bancário outrora ligado ao BCP, que fica a dois passos de uma agência do EuroBic.

Em Angola, Sebastião Lavrador é talvez mais conhecido por ser o fundador e antigo acionista do Banco Sol. Este banco é conhecido como “o banco do MPLA”, o partido no poder em Angola há mais de 40 anos — antes, durante e depois de José Eduardo dos Santos. E porquê? A estrutura acionista indica que o Banco Sol é detido maioritariamente pela Sansul.

Criada em 1995, a Sansul é detida em 99% pela GEFI, a holding do MPLA que controla mais de 60 das empresas do partido. “A percentagem restante é repartida entre quatro membros do MPLA, apenas para cumprir o número de cinco elementos, necessário à constituição de uma sociedade anónima. Logo, a empresa é detida na totalidade pelo MPLA”, escrevia o Maka Angola em agosto do ano passado.

Entre os acionistas também se conta Ana Paula dos Santos – a mulher do ex-Presidente José Eduardo dos Santos – e a Azury, uma sociedade ligada ao novo Presidente angolano, João Lourenço, que durante anos foi acionista direto no Banco Sol, com o nome inscrito nos relatórios e contas. De acordo com a imprensa angolana e com o Expresso, João Lourenço terá posto as ações que tinha no banco Sol na Azury poucos dias antes das eleições presidenciais angolanas, no verão de 2017.

João Lourenço foi durante anos acionista direto do Banco Sol, mas terá posto as ações que detinha na instituição na Azury poucos dias antes das presidenciais de 2017, que lhe deram a vitória

AMPE ROGÉRIO/LUSA

Mas qual é a ligação do Banco Sol ao BIC Angola e, por efeito espelho, ao EuroBic? Têm acionistas em comum. Um deles, com 5%, é Manuel Pinheiro Fernandes, cuja atividade conhecida é a gestão da sociedade comercial Martal, a empresa dona dos supermercados com o mesmo nome. Um na zona da Maianga, em Luanda, e outro na cidade de Gabela. Esta sociedade detém 5,42% do Banco Sol e o empresário é vice-presidente da Mesa da assembleia-geral.

Contudo, não é reconhecida qualquer intervenção prática deste acionista na gestão do banco. Aliás, a sociedade nos dois bancos não parece estar a ajudar o empresário a expandir ou sequer a modernizar uma retalhista que, como relatam clientes com quem o Observador falou, teria muito espaço para se tornar mais organizada, limpa e variada – até para se manter minimamente competitiva perante o crescimento de cadeias como a Casa dos Frescos.

Quem também aparece na lista de acionistas com 5% (no BIC Angola e no EuroBic) é Luís Cortez. O empresário, disse ao Observador um próximo, estudou Economia no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa (ISEG) e foi à procura da sorte para Angola, dar aulas de economia. Passou tempos difíceis — chegando a contar que o dinheiro não dava para comprar sabão — mas deu a volta por cima, enriquecendo no negócio dos ares condicionados.

De facto, Lu´s Cortez é mais conhecido em Angola por ser o dono da Soclima, uma empresa de instalação e manutenção de sistemas de climatização e ar condicionado. Fundada em 1991, com sede e armazém em Luanda, a Soclima diz ser “a mais antiga empresa do ramo a operar em Angola”. Clientes da Soclima? Efacec Angola (ligada a Isabel dos Santos), Unitel (ligada a Isabel dos Santos), a TPA ou a Odebrecht Angola. E mais um: os empreiteiros angolanos Grupo 7 Cunhas.

Luís Cortez, um dos acionistas do EuroBic, entrou em 2010 na Cotarco, empresa portuguesa de comércio internacional, que é a distribuidora exclusivo para Angola do champanhe Armand de Brignac

Getty Images

Além da Soclima, Luís Cortez entrou em 2010 na Cotarco, uma empresa portuguesa de Aveiro dedicada ao comércio internacional. A Cotarco — a partir desse ano uma sociedade por quotas que inclui Cortez — passou a estar registada e a ter sede em Lisboa. A Cotarco hoje é muito mais do que import/export. Hoje a Cotarco aparece como um grupo com três ramos: a Cotarco – Tecnologia em Ar Condicionado, a Cotarco – Beverages & Gourmet, e a Cotarco – Comércio Internacional.

Aqui a particularidade vai para a Cotarco Gourmet, o importador e distribuidor exclusivo para Angola do champanhe Armand de Brignac. Este champanhe, conhecido como o “Ás de Espadas”, por causa do seu logótipo, é produzido pela Champagne Cattier e é vendido em garrafas metálicas opacas com preços que variam entre os 245 e os mais de 2.000 euros.

O Observador tentou sem sucesso contactar, pelos meios possíveis, estes dois empresários, não sendo, por isso, possível perguntar-lhes que papel ativo desempenham num banco onde a figura-chave é, sem dúvida, Fernando Teles.

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