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Grande parte dos investigadores mantém-se confiante que as vacinas vão continuar a ser eficazes mesmo perante as novas variantes do coronavírus

OLE BERG-RUSTEN/NTB/AFP via Getty Images

Grande parte dos investigadores mantém-se confiante que as vacinas vão continuar a ser eficazes mesmo perante as novas variantes do coronavírus

OLE BERG-RUSTEN/NTB/AFP via Getty Images

Reino Unido, África do Sul e Brasil. Erik e Nelly, as mutações que fazem temer as três novas variantes do coronavírus /premium

Tornaram o vírus mais eficaz a atacar as nossas células ou a escapar-se dos anticorpos. Duas das três variantes já estão em Portugal, mas a forma de combater o vírus mantém-se a mesma.

A variante sul-africana do SARS-CoV-2 foi detetada em Portugal. Por enquanto ainda só foi registado um caso — diagnosticado a 7 de janeiro —, mas o próximo passo é rastrear os contactos desse cidadão sul-africano, residente em Lisboa, que regressou à capital pouco depois do Natal. Portugal regista, assim, a presença de duas das três variantes que mais atenção e preocupação estão a despertar no momento — a da África do Sul, a do Reino Unido e a do Brasil (esta última é a que ainda não foi detetada por cá).

A variante do Reino Unido pode vir a representar 60% dos casos positivos no início de fevereiro, revelou esta quarta-feira um relatório do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa) com o laboratório Unilabs. E foi motivo suficiente para o primeiro-ministro, António Costa, decidir encerrar as escolas durante 15 dias. Mas a variante da África do Sul será “potencialmente mais perigosa”, disse João Paulo Gomes, investigador do Insa, esta sexta-feira, à RTP1.

No Reino Unido, por sua vez, o primeiro-ministro Boris Johnson anunciou — com base em dados ainda pouco sólidos — que a variante britânica pode estar a aumentar a mortalidade no país. João Paulo Gomes, no entanto, disse que não existiam dados em Portugal que permitissem confirmar que era esse o caso, mas mostrou-se preocupado com o aumento da frequência da variante: no início da semana, à data que reportavam os dados do relatório, representava 13% dos casos positivos, esta sexta-feira eram já 21%.

“É preciso suprimir a transmissão de todos os vírus SARS-CoV-2 o mais rápido possível. Quanto mais lhe permitirmos que se espalhe, mais oportunidades tem de mudar.”
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde

Os dados ainda não são robustos o suficiente para permitir afirmar que a variante do Reino Unido é mais infeciosa, mas Marc Veldhoen, virologista do Instituto de Medicina Molecular, considera que os dados existentes caminham nesse sentido. Só não a vê ainda como mais letal. “A variante não parece estar a causar mais estados severos da doença. Mas como infeta mais pessoas, mais pessoas vão adoecer”, diz ao Observador. “Mais, a taxa de infeção é tão alta que os serviços de saúde estão a debater-se, o que, por si, aumenta a taxa de mortalidade.”

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, também prefere não se focar no problema de cada nova variante, mas no controlo da pandemia como um todo. “É preciso suprimir a transmissão de todos os vírus SARS-CoV-2 o mais rápido possível. Quanto mais lhe permitirmos que se espalhe, mais oportunidades tem de mudar”, disse, em dezembro, quando a preocupação era a variante britânica.

Para controlar a disseminação das novas variantes, as estratégias são iguais às que têm sido seguidas até agora: usar corretamente a máscara, manter o distanciamento social e lavar as mãos com frequência. Podem ser aplicadas medidas mais restritivas, como está a ser feito em Portugal e noutros países da Europa, como o confinamento geral. Ou a cerca sanitária em Ovar que impediu que a variante que se espalhou no município se espalhasse no país.

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Porque é que a variante da África do Sul é “potencialmente mais perigosa”?

Por causa de Erik. Mas ainda não há certezas.

Erik, o nome carinhoso para a mutação nada amigável E484K, está presente nas variantes da África do Sul e do Brasil e está associada à capacidade de escapar aos anticorpos neutralizantes. “Alguns ensaios laboratoriais revelaram que esta variante [sul-africana] poderá ser menos reconhecida por alguns dos anticorpos gerados no decurso de uma infeção, suscitando naturalmente uma preocupação acrescida”, refere o Insa em comunicado enviado às redações.

Ou seja, quando estas variantes foram colocadas em contacto com o plasma de doentes que recuperaram da infeção, os anticorpos presentes não conseguem destruir o vírus. Estes estudos, no entanto, ainda não foram revistos por cientistas independentes. O que se sabe é que a quantidade de anticorpos no plasma é muito variável — logo a capacidade neutralizante também — e que duas doses das vacinas contra a Covid-19 desencadeiam uma resposta imunitária mais forte do que uma infeção natural.

Estes resultados sobre a ineficácia dos anticorpos de doentes convalescentes têm alarmado os investigadores — e sobretudo os líderes políticos —, mas Marc Veldhoen dá voz aos investigadores mais cautelosos lembrando que, apesar de “ser importante fazer testes com plasma para se ter uma ideia”, estes testes só dão informação sobre os anticorpos, “que são importantes”, diz, “mas não são o único tipo de resposta imunitária que temos”. O investigador referia-se à resposta celular, como as células T (um tipo de glóbulos brancos).

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Mas há uma outra preocupação crescente: as mutações partilhadas entre as variantes sul-africana (501Y.V2) e brasileira (P.1) parecem estar associadas a um aumento rápido dos casos em regiões que já foram fortemente atingidas pela pandemia numa fase anterior. “É imperativo investigar rapidamente se há um aumento das reinfeções nos indivíduos que já tinham estado expostos ao vírus”, refere uma equipa de investigadores britânicos e brasileiros, num artigo publicado no fórum de discussão Virological, e que ainda não foi revisto por cientistas independentes.

Todas as amostras de P.1 analisadas pela equipa de Nuno Faria, investigador no Imperial College de Londres, tinham a mutação Erik, segundo o estudo publicado na Virological. A mesma mutação já existia no Brasil, mas foi identificada em apenas 13% das amostras analisadas da linhagem B.1.1.28 (a mesma que acabou por dar origem a P.1), que está espalhada um pouco por todo o Brasil, incluindo na zona de Manaus (Amazonas).

Reforçando a ideia do potencial de reinfeção, uma equipa de investigadores brasileira estimou que, até outubro, mais de 70% da população de Manaus teria sido infetada com o SARS-CoV-2 desde o início da pandemia, conforme publicado na Science. A presença de anticorpos em todas estas pessoas podia ser motivo para acreditar que tinha sido alcançada a imunidade de grupo, mas os investigadores receiam que a imunidade não seja de longo prazo.

O número crescente de novas infeções e mortes no estado do Amazonas faz recear que a imunidade não se manteve por muito tempo ou, pior, que a variante P.1 consegue contornar essa resposta imunitária e reinfetar pessoas — como, aliás, já foi reportado. Pode dar-se o caso de variante P.1 (que terá tido origem em Manaus) ser tão eficaz a transmitir-se que consegue continuar a propagar-se mesmo numa população que tem mais de 70% imunes, como especula o STATNews.

Ou o problema está no próprio valor de 70% estimado pelos investigadores. Marc Veldhoen diz que muitos especialistas na área questionaram as suposições apresentadas, mas a equipa não conseguiu dar uma resposta clara. “Isto pode comprometer as alegações sobre as reinfeções.”

A região de Manaus foi uma das mais atingidas no Brasil durante a primeira vaga da pandemia — Getty Images

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A variante do Reino Unido vai ser dominante?

A variante do Reino Unido tem 17 mutações, mas nenhuma delas é nova para os cientistas. O inesperado foi terem surgido todas juntas — tal como se veio a verificar nas variantes da África do Sul e do Brasil. Esta evolução convergente, em que três variantes surgem em países distintos, evoluem independentemente, mas mostram semelhanças entre si está a preocupar os investigadores, refere o jornal El País. Porquê? Pode acontecer mais vezes.

No caso da variante do Reino Unido, pensa-se que terá tido origem numa única pessoa — imunocomprometida (com sistema imunitário debilitado) e com uma doença crónica rara —, que terá servido de incubadora à nova variante. A pessoa esteve infetada durante um longo período, o vírus teve tempo para se multiplicar inúmeras vezes e acumular uma série de mutações, refere o STATNews. Mais tarde, esse vírus com a combinação de mutações, foi transmitido a outras pessoas.

A variante britânica (B.1.1.7) espalhou-se rapidamente em Inglaterra e já foi detetada em vários países, incluindo fora da Europa. Os investigadores suspeitam que as mutações, que afetam a proteína spike (a que dá o aspeto coroado ao vírus), possam facilitar a infeção e transmissão — embora, isto ainda não esteja completamente provado e a rápida disseminação possa ter sido fruto do acaso ou do comportamento das pessoas.

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Mais incerto ainda é o anúncio feito esta sexta-feira pelo o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que referia que existia “alguma evidência” que a variante B.1.1.7 poderia estar associada a uma maior mortalidade, noticiou o jornal The Guardian. Por enquanto, os estudos disponíveis dizem isso e o seu contrário, portanto é preciso continuar a estudar o impacto desta variante no Reino Unido e nos restantes países onde já está presente na comunidade.

Uma das mutações mais relevantes desta variante é a Nelly (N501Y), precisamente no gene que tem as instruções do local de ligação da spike às proteínas da superfície das células humanas. O resultado é que esta mutação faz com que a chave do vírus esteja ainda mais bem calibrada para a fechadura nas células humanas. E esta mutação aparece não só na variante do Reino Unido como na da África do Sul e Brasil. Aliás, no Brasil, esta mutação ainda não tinha sido identificada antes e agora está presente em 100% dos vírus analisados da variante P.1, segundo o artigo publicado na Virological.

Quantas novas variantes existem?

É praticamente impossível dizer quantas variantes diferentes existem neste momento em todo o mundo porque o vírus está constantemente em mutação, as variantes podem surgir em simultâneo em várias regiões do globo e não há recursos suficientes para sequenciar geneticamente todos os vírus — ou seja, para descodificar todas as letras das frases que compõem o genoma. Ou só mais tarde vimos a descobrir que elas estavam presentes.

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Assim, os investigadores estão agora focados sobretudo nas três variantes: B.1.1.7 do Reino Unido, 501Y.V2 da África do Sul e P.1 do Brasil. Mas há pelo menos mais três que ainda estão em estudo, como a P.2 do Brasil (que pertence à mesma linhagem da P.1), a CAL.20C na Califórnia (Estados Unidos) e uma, ainda sem nome, descoberta na Baviera alemã. Sobre a variante da Baviera ainda nada se sabe, a P.2 do Brasil parece não ter tanto impacto na disseminação como a P.1, mas as outras já mostraram ter sucesso na propagação — se as mutações conferem vantagem ou se aconteceu por acaso ainda é motivo de discussão.

Uma coisa parece certa, quanto mais vírus andarem em circulação, quanto mais pessoas forem infetadas, maior a probabilidade de surgirem novas mutações e, eventualmente, novas variantes — uma mutação não gera automaticamente uma variante, apenas quando o vírus resultante tem uma função ou comportamento diferente.

“Se uma pessoa tem a infeção durante muito tempo há o risco de desenvolver uma nova variante.”
Marc Veldhoen, virologista do Instituto de Medicina Molecular

“O vírus multiplica-se fazendo erros — erros que acontecem por acaso, não há nenhum processo que os determine. Mas quanto mais pessoas infetadas, quando mais células infetadas, quanto mais longa a infeção, mais cópias com erros serão produzidas”, reforça o virologista Marc Veldhoen. “Depois de muitas cópias terem sido produzidas, algumas com erros, os vírus que estiverem melhor adaptados — ou seja, que tiverem mais sucesso a infetar humanos — serão selecionados e uma nova variante pode surgir.”

Além disso, e tal como verificado com a variante do Reino Unido: “Se uma pessoa tem a infeção durante muito tempo há o risco de desenvolver uma nova variante”, afirma o investigador.

Estas variantes podem comprometer a eficácia das vacinas?

Se estas variantes, nomeadamente a sul-africana e a brasileira, forem capazes de escapar aos anticorpos desenvolvidos contra outras variantes do SARS-CoV-2, os especialistas receiam que isso possa vir a comprometer a eficácia dos testes, vacinas e tratamentos.

“É possível que apareçam variantes capazes de escapar às vacinas, embora, felizmente, com a tecnologia de ARN seja muito fácil modificar as vacinas para acompanhar a evolução do vírus”, disse Olivier Gascuel, bioinformático do Instituto Pasteur, citado pelo El Mundo. “Teoricamente, também possível que algumas dessas variantes contornem o sistema imunológico e permitam reinfecções — tão pouco frequentes no momento. Esses são os dois pontos-chave a serem lembrados no futuro.”

"Até ao momento, ainda não encontrámos um vírus com uma única mutação que tenha conseguido evadir-se completamente à resposta imunitária, tornando a vacina inútil."
Stuart Turville, professor do Programa de Imunovirologia e Patogénese do Instituto Kirby

Federico Martinón-Torres, chefe do serviço de Pediatria do Complexo Hospitalar Universitário de Santiago (Espanha), considera que não há motivos para pensar que as vacinas não vão funcionar contra a variante britânica — a Pfizer/BioNTech já veio, aliás, afirmar que continua a ser eficaz. “Mesmo que uma parte do vírus sofra mutações, é muito provável que a resposta imune induzida pelos outros componentes da vacina seja igualmente protetora”, disse citado pelo jornal espanhol.

“Até ao momento, ainda não encontrámos um vírus com uma única mutação que tenha conseguido evadir-se completamente à resposta imunitária, tornando a vacina inútil”, reforça Stuart Turville, professor do Programa de Imunovirologia e Patogénese do Instituto Kirby (Austrália), citado pelo Australian Science Media Centre. O que pode acontecer, admite, Marc Veldhoen é que a eficácia da vacina ser um pouco inferior. “Mas vão continuar a funcionar”, diz, até porque a eficácia está, atualmente, acima dos 90%. “O que pode acontecer é que as pessoas que esperávamos que não tivessem sintomas, depois de vacinadas, desenvolvam sintomas ligeiros quando são infetadas.”

Mesmo em relação aos testes, ainda não existem motivos para considerar que não funcionam, desde que um mesmo teste tenha capacidade de identificar várias porções do genoma em simultâneo. Com testes deste tipo, mesmo que uma porção não seja identificada, o teste continuará a identificar os casos positivos. Este foi aliás o caso da variante do Reino Unido, em que uma das mutações provoca um erro de leitura no teste PCR. Esse erro tornará mais simples identificar as amostras que possam corresponder a esta variante, como verificou o Instituto Nacional de Saúde Pública Dr. Ricardo Jorge.

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Mais preocupante, diz Marc Veldhoen, são os anticorpos monoclonais, feitos por replicação de um único anticorpo (clones) e específicos de uma determinada área da proteína. Se a mutação no gene provocar uma alteração precisamente nessa região da proteína, o anticorpo monoclonal usado como tratamento deixa de ser eficaz. “Já não seria uma boa ideia usar apenas um num tratamento”, diz. “Mas agora será necessário testar os anticorpos monoclonais em desenvolvimento com a nova variante e alguns podem já não funcionar.”

Um vírus que consegue escapar às vacinas ou aos tratamentos não é nada que surpreenda os investigadores. As mutações constantes acabam por originar variações do vírus que mostram ter mais sucesso a ultrapassar barreiras, multiplicar-se e infetar outras pessoas. O que os investigadores não esperavam era que acontecesse tão depressa, refere o jornal The New York Times.

O que se supunha era que as vacinas se mantivessem eficazes durante anos, mas a propagação descontrolada do vírus — e as múltiplas mutações no processo — poderão ter dado ao vírus opções suficientes para se escaparem às armas que os cientistas se esforçaram por encontrar nos últimos 12 meses.

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