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As revoluções são, por natureza, contraditórias – no sentido em que incorrem habitualmente em contrassensos. Os pais fundadores dos Estados Unidos da América – John Adams, George Washington, Ben Franklin – passaram metade da sua vida adulta a brindar diariamente ao rei a que depois reclamariam independência. A Magna Carta, berço do parlamentarismo britânico, foi assinada por homens que conversavam em francês. Napoleão Bonaparte, que começou por ser um perigoso revolucionário, declararia mais tarde “o fim da revolução”, sendo a contradição tão gritante que até o seu título caiu em paradoxo: Bonaparte era Imperador, não do Império mas da República.

No caso português, a revolução de Abril trouxe incoerências igualmente estruturais, na medida em que alguns dos que vinham derrubar a ditadura mantinham proximidades a totalitarismos paralelos. Não devemos, nesse sentido, julgar estes paradoxos com estranheza. As revoluções, como momentos de mudança, possuirão inevitavelmente vestígios daquilo que seja mudado. Ao contrário do que certos ideólogos preconizam, não há «anos-zero» em História. Isto é, as revoluções, por mais virtuosas que possam ser, não têm o condão de recomeçar a humanidade. Elas continuam-na, mudando com ela. Devemos, por isso, ser tolerantes com os protagonistas desses episódios, revolucionários ou não, – não lhes exigindo uma adequação perfeita à era que vêem inaugurada.

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