As revoluções são, por natureza, contraditórias – no sentido em que incorrem habitualmente em contrassensos. Os pais fundadores dos Estados Unidos da América – John Adams, George Washington, Ben Franklin – passaram metade da sua vida adulta a brindar diariamente ao rei a que depois reclamariam independência. A Magna Carta, berço do parlamentarismo britânico, foi assinada por homens que conversavam em francês. Napoleão Bonaparte, que começou por ser um perigoso revolucionário, declararia mais tarde “o fim da revolução”, sendo a contradição tão gritante que até o seu título caiu em paradoxo: Bonaparte era Imperador, não do Império mas da República.

No caso português, a revolução de Abril trouxe incoerências igualmente estruturais, na medida em que alguns dos que vinham derrubar a ditadura mantinham proximidades a totalitarismos paralelos. Não devemos, nesse sentido, julgar estes paradoxos com estranheza. As revoluções, como momentos de mudança, possuirão inevitavelmente vestígios daquilo que seja mudado. Ao contrário do que certos ideólogos preconizam, não há «anos-zero» em História. Isto é, as revoluções, por mais virtuosas que possam ser, não têm o condão de recomeçar a humanidade. Elas continuam-na, mudando com ela. Devemos, por isso, ser tolerantes com os protagonistas desses episódios, revolucionários ou não, – não lhes exigindo uma adequação perfeita à era que vêem inaugurada.

A constituição da «geringonça», um fenómeno político também assumido como «revolucionário», não foi imune a este tipo de contrassenso. O Bloco de Esquerda, que fez um caminho firmemente eurocético durante a governação PSD/CDS, diz-se hoje “europeísta” e “não de extrema-esquerda”. O PCP, ainda orgulhosamente defensor do regime de Maduro na Venezuela, apoia um governo que considera que o tempo de Maduro “acabou”. António Costa, que ia “seguir a mesma linha” do Syriza, é hoje um orgulhoso defensor do “rigor nas contas públicas”. O Partido Socialista, que ia “virar a página da austeridade”, concluirá a legislatura com mais greves, cativações e carga fiscal que todo o período da troika.

Atravessando o Atlântico, onde também se olha para a Casa Branca como palco de uma revolução, é pertinente recordar que foi Barack Obama, e não Donald Trump, que começou a pressionar os países da NATO para cumprirem as quotas de despesa em Defesa, e que foi Barack Obama, e não Donald Trump, a virar a política externa norte-americana do Ocidente para a Ásia. Não sou só eu que o digo, caro leitor. O insuspeitíssimo Francisco Seixas da Costa confirmou que Trump veio “prolongar a última fase [isolacionista] de Obama”, o que revela que a presidência Trump não se trata, afinal, de algo assim tão revolucionário na arena internacional. Regressando à Europa, Emmanuel Macron foi biografado pomposamente como o rosto de uma nova “revolução francesa” e não deixou de ser vítima do adversário de todos os homens que tentaram reformar a França democrática: a rua.

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O ponto deste texto é que é muito difícil sustentar o carácter revolucionário dos momentos que se analisam como tal. Em 2015, Portugal saiu das legislativas num clima “polarizado” e “crispado”. Os acordos à esquerda eram “a queda de um muro” e um “momento histórico” (mais um) para o sistema político português. Quatro anos depois, o país chega a um novo ciclo eleitoral com todos os partidos com assento parlamentar, da esquerda à direita, a terem aprovado metas de Bruxelas, com todos os partidos de poder, da esquerda à direita, a quererem esclarecer os crimes que ocorreram na Caixa Geral de Depósitos e com um governo apoiado por comunistas a planear a sua segunda recepção ao líder da Igreja Católica.

E a revolução? Que lhe aconteceu?