Qual a probabilidade de voltar a conseguir juntar estas três figuras no título de uma crónica? Virtualmente, zero. Era agora, ou nunca. Assim sendo, decidi avançar. Muita gente salientou a irreverência do assessor da deputada Joacine Moreira, Rafael Esteves Martins, ao apresentar-se na sessão de arranque da nova legislatura vestindo uma saia. Devo dizer que, para mim, aquela espécie de batina não remeteu exactamente para a irreverência. Ao ver alguém entrar no Palácio de São Bento naqueles preparos, o pensamento que me assaltou foi: “Cardeal Cerejeira?! Sua Eminência por aqui, de volta a uma sessão de abertura da Assembleia?! Deixe-me adivinhar: vem assessorar o André Ventura, certo?” Enfim, realmente é incrível como as modas acabam sempre por voltar.

Mas não posso negar que ver Rafael Esteves Martins envergando aquela saia incomodou-me bastante. Bem sei que se tratava de uma ocasião solene, mas era mesmo preciso levar uma saia com um corte tão clássico e austero, passível de reforçar o estereótipo de que os homens se vestem de forma monótona e antiquada? Meus senhores, já é mais que tempo de nos libertarmos destes preconceitos sociais retrógrados e usarmos as nossas minissaias – ou até micro-saias, por que não? – quando nos der na real gana, que diabo!

Esta polémica em torno de indumentárias exibidas na Assembleia da República trouxe-me à memória a visita ao Parlamento português feita, nos idos de 1987, por Cicciolina. Para os leitores mais jovens, menos familiarizados com a história da política europeia e do cinema transalpino, Cicciolina era uma deputada italiana. Para os leitores mais jovens familiarizados com o cinema italiano, agora estamos a falar de política. Cicciolina era, então, a figura cimeira de um partido cuja matriz ideológica assentava, não tanto em princípios de direita, ou de esquerda, mas mais na exibição de seios. Do direito e do esquerdo. E esta visita de Cicciolina a Portugal seguiu de forma bastante rigorosa a linha programática do partido. Culminou, portanto, com a exibição dos seios da deputada, em plena galeria do hemiciclo, durante uma sessão parlamentar. Ou seja, enquanto em 1987 comentava-se que uma deputada se despiu, em 2019 comenta-se o que o assessor de uma deputada vestiu. E depois admiram-se que os jovens se interessem cada vez menos pela política.

Agora, é com grande apreensão que constato a controvérsia em que está mergulhado o mundo do têxtil, pois a verdade é que o banzé em redor da saia do assessor de Joacine Moreira vem já na senda de outra polémica envolvendo a bandeira portuguesa. Parece que numa manifestação de apoio à nova deputada do Livre, um dos manifestantes afiançou que a bandeira portuguesa “exalta uma forma de encarar o mundo que é uma forma racista e imperialista”. Não podia estar mais de acordo. Primeiro. A nossa bandeira é racista, porque para a sua confecção recorre-se amiúde ao algodão. E o algodão é, sem dúvida, um símbolo perfeito do racismo. Afinal, trata-se, historicamente, de um produto do trabalho escravo em terras americanas. Segundo. A nossa bandeira é imperialista, porque já vi muitos exemplares da mesma a esvoaçarem, impantes, beneficiando de vento sul. Ora, o vento sul vem de África. É assim inegável que a bandeira portuguesa continua a usurpar, ao melhor estilo neo-colonial, os recursos naturais pertença dos povos africanos.