Esperei ardentemente – e em vão. Três semanas após o primeiro-ministro afirmar, em entrevista à Antena 1, que a crise que atravessamos é uma boa oportunidade para os portugueses aprenderem alemão, não se leu uma só notícia, não se ouviu uma única crítica, não se deu pela indignação de viva alma.

O leitor não se engane. Este não é um texto de 2013. É mesmo de hoje, de 28 de novembro de 2020, e foi António Costa que o disse. “Muitos empresários estão a investir na formação dos seus profissionais em alemão. Podemos aproveitar este período de inatividade para não perder a qualidade dos nossos recursos humanos”, considerou o primeiro-ministro, imerso na habitual irrealidade. Pode parecer mentira, mas não é. A gaffe, que se tornaria facto político para qualquer outro, passou notavelmente despercebida.

Quase um mês depois, em novo acesso de germanofilia, Costa tweetou uma imagem sua, ao telefone com Christine Lagarde, garantindo que os compromissos que o seu governo assumiu com a Lone Star quanto ao Novo Banco seriam cumpridos, independentemente do que acabara de ser votado, à esquerda e à direita, na Assembleia da República.

No espaço de um mês, então, António Costa apontou a ruína económica do país como um tempo de aprendizagem linguística, descartou a democracia parlamentar em defesa de um fundo abutre norte-americano e negociou um Orçamento do Estado com a abstenção do Partido Comunista. Como é capaz de tamanho contorcionismo sem lesões morais ou físicas é, para mim, um enigma. Mas talvez a proeza tenha mais que ver com a natureza da plateia do que com as capacidades do artista.

Se o primeiro Orçamento do governo após a sua reeleição, há um ano, expôs bem o caráter feirante conferido ao plenário na última meia década, este OE levou ao palco novas excentricidades. O PSD, nos antípodas do Bloco de Esquerda e por este acusado de namoro “com a extrema-direita”, votou favoravelmente a sua proposta contra a transferência de 476 milhões de euros para o Novo Banco – proposta essa que não contava com referência alguma à auditoria pretendida por Rui Rio. O PS, que passou o mês a reclamar um “cordão sanitário” em redor do Chega, atravessou a câmara para mendigar a André Ventura um voto contra, demonstrando que o diálogo com “o fascismo”, afinal, pegou de estaca e para toda a gente. Os senhores membros do governo – o mesmo governo que auto-proclamou a sua queda no dia em que dependesse do PSD – viu um seu secretário de Estado bater à bancada dos sociais-democratas, pedindo licença para falar com Rio e, quiçá, conseguir que este mudasse de ideias.

Cá fora, perante este espetáculo de incoerências e sonsices, penso que já ninguém dá grande importância. É isto o regime. Tudo e o seu contrário. Nenhum posicionamento e, por isso, qualquer posicionamento. Em todos e com todos. Uma democracia representativa em que já ninguém representa nada.

Não é, estou convencido, um fim de ciclo. Foi só o fim da vergonha.