PSD

A doença infantil do centrismo

Autor
535

Depois do que aconteceu na última semana, o resultado das próximas eleições está agora em aberto. Se a geringonça falhar, só há uma alternativa política: a direita. Não será certamente o centro.

No lançamento da sua candidatura à liderança do PSD, Rui Rio anunciou que quer liderar um partido do centro e mesmo do centro esquerda. Não deixa de ser estranho visto que a maioria dos portugueses que votam no PSD serão de direita e de centro direita. Pior do isso, a declaração de Rio visa afastar-se da herança de Passos Coelho, o qual supostamente terá levado o PSD demasiado para a direita. Rio mostra que pouco entendeu do que se passou em Portugal desde 2011. Um governo de esquerda levou o país à falência, à recessão e à ajuda externa. Um governo de direita restituiu a independência financeira e o crescimento económico a Portugal. Talvez Rui Rio devesse mostrar um pouco mais de orgulho na contribuição da direita e do seu partido para a dignidade do seu país.

Um PSD de centro faria de Portugal um caso inédito no contexto europeu. Seria o único país da União Europeia sem um grande partido de direita. Todos os outros países da União Europeia têm partidos de direita. Todos, sem excepção. E, por acaso, estão no governo na maioria desses países. Além disso, o grupo de centro direita, o PPE, é o maior no Parlamento Europeu desde 2004. Grupo do qual o PSD faz parte. Ou seja, com Rui Rio na liderança, o PSD teria uma dupla natureza: de centro esquerda em Portugal e de centro direita na Europa. Seria uma contribuição interessante de um politico que defende mais transparência nas relações entre os partidos e os cidadãos.

Um PSD de centro mostraria ainda uma clara incompreensão da mudança introduzida pela geringonça na política portuguesa. Os partidos socialistas e Marxistas juntaram-se para atacar a direita e construir uma maioria de esquerda em Portugal. Mesmo que Rui Rio jurasse, dia sim dia não, que o PSD está no centro esquerda, os partidos da geringonça continuariam a colocá-lo na direita. Se os adversários políticos atacam o PSD por ser de direita, a defesa mais eficaz será afirmar os méritos das políticas de centro direita. E não custa muito. Uma coligação de direita tirou o país da falência, fê-lo regressar ao crescimento económico, combateu a corrupção, recusou as alianças entre os poderes político e financeiro, e além disso, o PSD contribuiu de um modo decisivo para o desenvolvimento económico e para a justiça social em Portugal durante os últimos trinta anos. São mais do que razões para sentir orgulho no legado político do centro direita em Portugal. Para o PSD, a melhor maneira de combater os ataques dos seus adversários não é a negação da sua identidade mas a sua afirmação com orgulho. Por que razão, depois de tudo o que aconteceu em Portugal desde a subida ao poder do governo socialista de Sócrates, só a esquerda continua a ser orgulhosa e a direita está condenada a ser envergonhada? Parece-me que deveria ser exactamente o oposto.

Há ainda uma outra questão relevante para os militantes sociais democratas. Será a colocação do PSD no centro esquerda a melhor estratégia para chegar ao poder? Pela minha parte, estou certo de que seria uma estratégia condenada ao fracasso. Antes de mais, a colocação do PSD no espaço do PS pareceria à maioria dos portugueses como uma escolha oportunista. Além disso, os portugueses pensariam, e muito bem, que seria melhor votar no original do que numa cópia falsa. Por fim, no pós-geringonça, o PSD já não consegue imitar o PS, a não ser que acredite na possibilidade de fazer alianças com o PCP ou com o BE.

A melhor estratégia para o PSD passará pela capacidade de mobilizar o eleitorado de direita. Ao contrário do que muitos políticos julgam, as vitórias eleitorais começam com a mobilização do seu eleitorado natural e só depois com a conquista de votos no centro. As eleições de 2015 mostraram um ponto que nenhum líder do PSD pode ignorar. Mesmo depois de quatro anos muito difíceis, 40% dos portugueses votaram numa coligação de direita. E em 2015 ninguém tinha dúvidas que o PSD e o CDS estavam à direita. Até o Rui Rio o dizia. A direita regressa ao poder se souber construir uma maioria a partir daqueles 40%. Não o conseguirá se o PSD se afirmar como um partido de centro esquerda.

Depois do que aconteceu na última semana, o resultado das próximas eleições está agora em aberto. A aliança entre o Presidente e o PM acabou, o PCP será um parceiro muito mais difícil para o governo e António Costa está claramente desorientado. Tudo pode acontecer se as esquerdas e o próprio PS deixarem de acreditar na liderança de Costa. Se a geringonça falhar, só há uma alternativa política: a direita. Não será certamente o centro, e muito menos o centro esquerda.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Brexit

Boris Johnson /premium

João Marques de Almeida

Em Londres, só um louco ou um suicida é que defenderiam o acordo assinado com a União Europeia. Resta saber se os líderes europeus terão a lucidez de reconhecer o evidente: o acordo que existe morreu.

PS

O que se passou nos anos Sócrates? /premium

João Marques de Almeida
3.291

Meu caro Dr António Costa, não é apenas Joe Berardo que deve pedir desculpa aos portugueses. O PS também o deveria fazer pelos erros graves que o seu governo cometeu entre 2005 e 2011. 

Extremismo

Os fascistas da saúde /premium

João Marques de Almeida
2.671

O Bloco e o PCP (e o PAN para lá caminha) são os fascistas da saúde em Portugal. Têm dois objectivos: terminar com a iniciativa privada na saúde, e acabar com a liberdade de escolha dos cidadãos.

Política

A direita está em crise?

Fernando Leal da Costa

A crise da direita é conjuntural e resolver-se-á com a lógica darwiniana de adaptar-se para sobreviver. O primeiro problema a resolver é pois adaptar-se às circunstâncias sem que isso a descaracterize

Rui Rio

Por este Rio abaixo! /premium

Luís Reis
254

Rio autopromoveu-se para além do limiar da sua incompetência, mas não para além do seu ego. O Princípio de Peter pode ser agora rebaptizado: o Princípio de Rio. Esse Princípio será também o seu fim.

Política

Podemos falar de coisas sérias?

Salvador Furtado

Outubro já não está assim tão distante, e o governo sabe isso. Mas o assunto da maior carga fiscal de sempre? E o da corrupção? E o de sermos um dos países com um dos piores crescimentos da zona euro?

Ambiente

A onda verde na UE e os nacionalismos

Inês Pina

Se hoje reduzíssemos as emissões de CO2 a zero já não impedíamos a subida de dois graus centígrados. E estes “míseros” dois graus vão conduzir ao fim das calotas polares e à subida do nível do mar.

Finanças Públicas

Como evitar um 4º resgate? /premium

Paulo Trigo Pereira

Portugal necessita de mais doze anos (três legislaturas completas) de crescimento económico e de finanças públicas quase equilibradas para sair da zona de risco financeiro em que ainda se encontra.

Ambiente

A onda verde na UE e os nacionalismos

Inês Pina

Se hoje reduzíssemos as emissões de CO2 a zero já não impedíamos a subida de dois graus centígrados. E estes “míseros” dois graus vão conduzir ao fim das calotas polares e à subida do nível do mar.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)