Qual 0,2%, qual 0,3%! O superavit este ano vai ser para aí 27%! É só a nova lei da eutanásia ser aprovada já amanhã e, com o que o estado vai poupar no Serviço Nacional de Saúde e nas reformas, António Costa e Mário Centeno vão fazer um brilharete no Orçamento de 2020. Acredito até que não é impossível sonhar com um superavit de 30%. Basta o Ministério da Saúde colocar nos hospitais públicos, junto às filas de espera para as consultas, um “Balcão da Eutanásia” e o céu é o limite. Qualquer alternativa a esperar as costumeiras horas a fio para ser atendido, além disso confortavelmente deitado, será êxito garantido. É que, ainda por cima, nem se dá pelo tempo a passar. Depois, é só renomear o Serviço Nacional de Saúde para Serviço Nacional de Suicídio e economiza-se a dobrar: uma vez que nem a sigla muda, poupa-se também em sinalética e estacionário.

Sendo a eutanásia um assunto tão divisivo, creio ser mais que justo destacar a posição magnânima do Partido Comunista Português. Por um lado, o PCP emitiu um comunicado contra a eutanásia, apelando aos seus votantes mais conservadores e procurando evitar que fujam para o Chega. Por outro lado, o seu carrapato ecológico-progressista, o Partido Ecologista “Os Verdes”, é a favor da eutanásia, em clara concorrência com o Bloco de Esquerda e o PAN. Fica portanto claro que o PCP dá para os dois lados, acabando por enfrentar igualmente o Livre num dos seus terrenos de combate ideológico predilectos.

Para convencer os portugueses da bondade do seu projecto de lei sobre a eutanásia, o Bloco de Esquerda deu a conhecer um cartaz onde se lê “A eutanásia não te obriga a morrer”. Está muito bem visto. Fica só a faltar o Bloco esclarecer quem é que o Estado obrigará a matar um doente que queira ser eutanasiado, caso nenhum médico se predisponha a fazê-lo. Mas adiante, que tenho sugestões de outros aforismos muito giros para próximas campanhas bloquistas. Por exemplo este: “A liberalização do mercado de trabalho não te obriga a despedir ninguém”. Que acham? Ou então outro: “A licença de uso e porte de arma não te obriga a matar ninguém”. Soberbo, não? Ficarei atento aos vindouros cartazes do Bloco.

Mas se é facto que a problemática da eutanásia é complexa, a verdade é que, lá fora, a coisa tem corrido às mil maravilhas. Nomeadamente na Holanda, onde o sucesso tem sido tal que já se debate a disponibilização nas farmácias, para cidadãos com mais de 70 anos, de um comprimido suicida gratuito. O que levanta complexas questões filosóficas e morais. Que descurarei, porque me assalta outra dúvida, não menos pertinente: que recomendações terá o farmacêutico para dar ao cliente que adquire esta pílula? “Atenção, ingira o comprimido entre refeições. Caso contrário, ao patinar, vomita a carpete toda. O que é um transtorno muito grande para toda a família. Porque aquele pivete a podre entranha-se mesmo no tecido e, por muito que se esfregue, nunca mais sai. Nos dias de calor então é um fedor que não se aguenta. Enfim, o ideal, se tiver essa possibilidade, é tomar o comprimido entre refeições e à varanda, já debruçado sobre o parapeito. Assim cai logo para dentro do contentor do lixo. É uma limpeza.”

Onde a eutanásia também está muito na moda é por terras helvéticas. A Suíça é, hoje, um destino turístico de referência para quem quer recorrer à eutanásia. Ora, numa altura em que Portugal está tão forte no turismo, aqui está um nicho de mercado que devíamos explorar. Até porque as carradas de emigrantes do norte da Europa que vieram para cá viver nos últimos anos à conta da isenção de IRS e dos vistos gold, não sendo, de todo, “carne fresca”, são óptima “carne já em vias de putrefação” para alimentar este sector. Até parece que estou a ver os slogans promocionais de Portugal, destino de eutanásia, espalhados pela comunicação social estrangeira: “Certamente já ouviu falar da inigualável luz de Lisboa. Chegou a hora de vir ver a luz apagar-se na nossa capital”. Ou talvez melhor ainda: “Portugal. Se acha um país bom para viver, espere até experimentar cá falecer.”