Como é sobejamente conhecido, os termos “direita” e “esquerda” resultaram de um acaso histórico ocorrido durante a Revolução Francesa. Porém, desde essa criação acidental que a esquerda se autopromoveu a única e legítima representante do povo. Aliás, também a palavra “povo” tem sido objeto de conceções oportunistas e que não tomam em conta o facto de se tratar de um conceito jurídico e não de um elemento sociológico de matriz económica.

Que essa apropriação seja indevida ou abusiva é algo que não preocupa a esquerda. Por isso, fala do Estado Social como de um filho querido se tratasse, apagando da História os dois principais nomes que o edificaram: Bismarck e Churchill. Uma omissão a que não será alheia a circunstância de qualquer um destes estadistas nunca ter aceitado o(s) modelo(s) preconizado pela esquerda.

Durante séculos e com demasiada frequência, em nome dessa pretensa superioridade moral, a esquerda baseia o seu modus operandi numa ética que está para além dos dois modelos clássicos: a ética da convicção, baseada em princípios, e a ética da responsabilidade, assente nos resultados. Algo que poderá ser designado como “ética camarada”. Uma terminologia que aceita ou repudia um mesmo ato de acordo com o protagonista.

Por isso, quando em 2013, em pleno Rossio, o então Secretário-Geral da CGTP, Arménio Carlos, apesar da conhecida desafeição marxista pelo presépio, um símbolo da religião, se referiu ao etíope Abbebe Selassie, representante do Fundo Monetário Internacional (FMI) que vinha a Lisboa na qualidade de membro da Troika, como o rei mago “mais escurinho”, a esquerda não se queixou de racismo.

Para a esquerda, só a direita é racista e xenófoba, mesmo quando o PCP, nos loucos anos 20 do século passado, se referia aos autóctones das colónias portuguesas de África como “pretalhada ignara”.

A pretensa superioridade moral da esquerda coloca-a acima do racismo, da xenofobia e do piropo. Por isso, quando Jerónimo de Sousa, destroçado pelo fraco resultado do  candidato presidencial  do partido, que chegou a estar atrás do popular Tino de Rãs, se referiu aos principais rostos femininos do Bloco de Esquerda como “umas carinhas larocas” nem as visadas se sentiram no direito de exigir um pedido de desculpas ao líder comunista. Talvez porque alguns desses rostos já estivessem a preparar o refrão que pedia a Santo António para levar Bolsonaro para o pé de Salazar. Um refrão que, na leitura da esquerda, nada tem de ofensivo. Era o que mais faltava! Ninguém tem o direito de censurar as vozes da esquerda!

Verdade que, por vezes, uma parte da esquerda se mostra incomodada com os comportamentos de outra parte da esquerda. Uma espécie de luta de galos pelo mesmo poleiro. Uma luta que interessa duplamente ao PAN.

Assim, quando João Soares, em abril de 2016, se viu obrigado a deixar a pasta da Cultura por ter ameaçado dois jornalistas com um “par de bofetadas”, o Bloco de Esquerda veio a público criticar um desempenho tão pouco cultural. Reação que seria suavizada quando, recentemente, um vereador bloquista da Câmara Municipal de Lisboa ameaçou dar um “par de murros” nas “fuças” de um vogal da Junta de Freguesia do Areeiro. O calão da ameaça a fazer toda a diferença.

Como se percebe, a vida política nacional é rica em exemplos desta pretensa superioridade moral da esquerda. Aliás, é em seu nome, que em pleno estado de emergência, o PCP se considerou no direito de realizar o seu congresso. Mais do que uma questão de legalidade, tratou-se de uma afirmação do direito de reunião.

Que tal aconteça quando os portugueses estão confinados por força do recolher obrigatório, é algo que não incomoda o PCP. Importante é, na mesma semana, ajudar a aprovar o Orçamento e gritar bem alto que se está na oposição.

A falsa superioridade moral da esquerda tudo autoriza!