O governo está completamente desorientado perante a pandemia do Covid. A senhora directora-geral da Saúde continua a falar, exactamente como em Março, da “montanha” que será necessário subir e da “maratona” que será necessário correr. Entretanto, passou mais de meio ano. Quantos metros de montanha já subimos e quantos kms da maratona já corremos? Ninguém sabe.

O governo inicialmente pretendia proibir as feiras, mas depois o PM permitiu as feiras, esquecendo-se de avisar a senhora directora-geral. Nenhum português sabe se haverá estado de emergência e, se houver, como será, quando começará e quando acabará. Será uma emergência não urgente? O será uma emergência urgente? Haverá confinamento obrigatório ou o dever cívico de ficar em casa durante a noite?

Quanto à ministra da Saúde, já ninguém a ouve, é como se não existisse. O teste do comando da televisão é fatal. Quando um ministro é competente, uma pessoa aumenta o som para ouvir com atenção o que diz. Quando é incompetente, uma pessoa muda de canal, pensando ‘não vale a pena ouvir disparates’. É o que acontece com a ministra da Saúde.

Há vários níveis de incompetência no governo. António Costa tem experiência e habilidade políticas, talvez até em excesso, mas sempre se desconfiou que não seria um líder para tempos difíceis. O Covid confirmou a desconfiança. Quando tudo corre bem, o PM anda feliz e bem disposto. Tem aquele ar de quem se julga mais esperto do que todos os outros. Quando as coisas correm mal, fica com um ar perdido, anda irritado, come as palavras a falar e repete-se. As declarações no sábado passado, depois do Conselho de Ministros extraordinário, foram um exemplo de como não se deve falar ao país. Num momento muito grave para os portugueses, o que ficou daquela prestação foram umas graças com os jornalistas, com aquele habitual sorriso trocista. Esta falta de sensibilidade social é verdadeiramente incompreensível.

A incompetência da ministra revela o fracasso absoluto dos critérios usados pelo PS para escolher os governantes. Os ministros não são escolhidos pelas suas competências, mas pelas distritais a que pertencem, pelas fidelidades ao actual ou a potenciais futuros líderes partidários. Este é um governo onde os secretários de Estado sobem a ministros, e os chefes de gabinete sobem a secretários de Estado. Assim se fazem carreiras políticas, e se preparam futuras candidaturas à liderança do PS. E nem a pandemia muda a maneira de se fazer política. É uma falta de respeito absoluta pelos portugueses.

Mas há também uma incompetência geral que resulta da cultura de arrogância do PS e das esquerdas. Como foi possível que no dia 25 de Abril, quase dois meses depois do início da pandemia e com o país em confinamento, Ferro Rodrigues tenha recusado o uso de máscaras no Parlamento dizendo que a revolução não se celebra mascarado? Ora o PS, agora, quer todos os portugueses a usar máscara na rua. Quando muitos criticaram as excepções das celebrações do 1 de Maio, da Champions em Portugal e da Festa do Avante, não foi por anti-comunismo ou por uma antipatia contra o futebol. Foi por triunfalismos prematuros e por decisões incoerentes. Em Maio já muitos previam uma segunda vaga para o Outono, e em Agosto já se sabia que ela chegaria. O governo comportou-se como se não houvesse segunda vaga. Perdeu assim autoridade e credibilidade. É esse o problema das decisões incoerentes.

Como é possível que António Costa não tenha percebido o elementar. Durante uma crise de saúde pública, o PM nunca poderia perder credibilidade e autoridade perante os portugueses. O comportamento errático do PM e do governo foi fatal para a reputação do governo. Hoje, a maioria dos portugueses não acredita no governo em relação à pandemia.

Aliás, a maioria dos portugueses é muito mais responsável do que o governo. Os portugueses têm mostrado que são responsáveis e que se sabem proteger, sem cair em exageros histéricos. É verdadeiramente extraordinário que um governo errático, irresponsável e incompetente queira dizer aos portugueses como se devem comportar. Não é necessário, os portugueses sabem tomar conta da sua saúde.

Mas há ainda um problema ideológico neste governo. A prioridade é mostrar que o Serviço Nacional de Saúde é suficiente para lidar com a pandemia, quando o governo sabe melhor que qualquer outro português que é insuficiente. Por que razão o governo foi incapaz, desde Março, de tratar os grupos de saúde privados, as fundações e as instituições de solidariedade como parceiros no combate ao Covid? Não é vergonha trabalhar com privados. E os grupos privados estão inteiramente disponíveis para ajudar e colaborar com o governo.

O problema é que parte do governo (há excepções como os ministros da Economia e das Finanças) é refém de uma ideologia radical que não aceita investimentos privados no sector da saúde. Uma ideologia que quer reduzir os serviços de saúde ao SNS. Uma ideologia que todos os governos do centro esquerda na Europa já abandonaram. Uma ideologia importada de Cuba e da Venezuela.

O governo quer restringir as nossas liberdades porque receia o esgotamento do SNS, recusando a cooperação da saúde privada no combate ao Covid. Em nome da ideologia e da desconfiança do sector privado, o governo está a prejudicar a nossa economia e a limitar a nossa liberdade. Como mostrou a história do século XX e das primeiras décadas do XXI, o socialismo acaba sempre em choque com as liberdades individuais. As crises apenas aceleram o inevitável.