Bom tempo, céu azul, algum calor, e o espírito tende a voar para outras plagas, para o Verão que se aproxima, perto do mar ou de uma piscina muito azulinha. E para perto dos romances que não se teve tempo de ler durante o ano. Espero este ano ter sorte em praia e leituras. E se for um sortudo da pior espécie ainda encontro, num romance qualquer, uma boa proposta de casamento.

Suponho que é preciso explicar. Vá lá Deus saber porquê, tornei-me, ao longo dos anos, um dos maiores especialistas mundiais de propostas de casamento. Se alguém me propusesse organizar uma antologia, pronta a ser vendida nas estações dos correios, com um nome do tipo “As mais belas propostas de casamento da literatura universal”, confesso que às tantas era capaz de aceitar (se fosse bem pago). As propostas de casamento costumavam ser um ingrediente fundamental do romance, nomeadamente do romance do século XIX. Desgraçadamente, a coisa parece há muito ter passado de moda. Ou sou eu que não ando actualizado.

Se bem que a melhor proposta de casamento que conheço se encontre na Guerra e Paz de Tolstoi (tão mais genial quanto a proposta não é feita de facto: Pedro Bezukoff não se propõe nunca a Helena Kuragine – é o pai desta, o Príncipe Vacili, que faz de conta que sim) e que a literatura francesa seja óptima no capítulo, a referência máxima é a literatura inglesa do século XIX. De Jane Austen a Thomas Hardy, passando por George Eliot, há material para preencher uma antologia inteira, aumentada de edição para edição.

E Portugal? Bom, é o momento de manifestar o meu acordo, neste ponto preciso, com uma verdade que Marcelo Rebelo de Sousa repete com pontualidade hebdomadária: os portugueses, quando querem, estão entre os melhores. Enfim, pelo menos um está. Júlio Dinis, é claro. Não há romance dele que não tenha lancinantes propostas de casamento dignas de figurarem numa antologia do género. Enquanto não chegam (chegarão?) praias, mar e piscinas e a descoberta de algum novo exemplar memorável para a imaginária recolha literária, relembremos Júlio Dinis.

Comecemos pelo seu primeiro romance, As Pupilas do Senhor Reitor. Daniel pede a mão a Margarida, pede-lhe “que reúna ao seu o meu destino”. Margarida, é claro, ama-o. Prova? “Em poucos instantes as faces, de ordinário pálidas, passaram-lhe por cambiantes rápidos de cor”. Mas, por razões elevadas, recusa o oferecimento. Daniel insiste, incapaz de se constranger ao silêncio, e a recusa vem de novo. Mais tarde, em circustâncias dramáticas (na presença do cadáver do velho Álvaro) e animado pela “solenidade do lugar e do momento”, é repetida a proposta. Desta vez, Daniel adivinha que “não era com a indiferença que teria a lutar”. Margarida afasta-se, mas tudo se prepara para um desenrolar feliz. E às três é de vez. No dia seguinte, quando Daniel encontra Margarida, esta “tremia sobressaltada”, pronta já às “branduras do sentimento” e às “explosões da paixão”. Os olhares encontraram-se, antecipando definitivamente “as suaves alegrias das núpcias”.

Uma família inglesa não fica nada a perder no capítulo. Carlos ama Cecília e escreve-lhe uma carta onde, depois de confessar o seu amor por ela, lhe pede que esta lhe revele também “o estado dos seus sentimentos”. Claro que há obstáculos vários, mas tudo acaba bem. Carlos vai a casa de Manuel Quintino, o pai de Cecília, e a coisa resolve-se. Se as minhas contas estão certas, isto passa-se perto do lugar onde moro, a Praça Mouzinho de Albuquerque, vulgo Rotunda da Boavista. Por aquela altura, a zona da Casa da Música, ou pelo menos a zona à volta, era um “pleno bosque”, “longe do rumor da cidade”, e havia vinhedos e quintas, bom lugar para, vindo do Águia de Ouro (na Batalha), se “cultivar a bucólica”, enquanto, mais longe que o Águia de Ouro, havia a guerra da Crimeia, tão distante – ou perceptível, e falante, apenas pela ausência – como as guerras napoleónicas em Jane Austen. Aqui à volta, apenas vaquinhas.

Mas A Morgadinha dos Canaviais é, em matéria de propostas de casamento, muito mais rica. Cristina fez compreender a Henrique “todos os castos e abençoados prazeres da família”, e ele promete-lhe “a constante adoração, rodeada de respeitos” do homem que as virtudes de Cristina “reconciliaram com o mundo”. A “sobressaltada criança” aceitou o pedido. E que dizer de Augusto e Madalena, a Morgadinha, esse “anjo libertador” que oferece a Augusto a sua alma e os seus afectos? Como a Henrique, igualmente a Augusto foram benéficos os prazeres da família: “além de se ocupar de agricultura, alimenta a imaginação, já não a fazer versos, mas em outra forma de poesia: a organizar a escola sob bases mais racionais, e dotação mais fecunda; a generalizar e educar os processos agrícolas, a implantar indústrias novas”.

O último romance de Júlio Dinis, Os Fidalgos da Casa Mourisca, tem a singularidade de conter aquela que é a proposta de casamento mais longa de Júlio Dinis: algumas páginas. Jorge começa por ser mediador da proposta de casamento de Clemente a Berta (um tópico clássico destas histórias, o do mediador), para depois proclamar a Berta (que tem “os olhos húmidos de pranto”) o seu próprio amor: “A causa íntima, a causa oculta das minhas acções para consigo, Berta, essa causa misteriosa, que eu procurava esconder da vista de todos e sufocar no meu coração… quer sabê-la, Berta? Essa causa é o muito amor que lhe tenho.” A partir daqui, Jorge não pára, só acabando com “um silêncio eloquente de paixão”. É o que dá sufocar as coisas durante muito tempo no coração. A ser verdadeira a opinião de um filósofo, Lucrécio, segundo o qual as pessoas que falam muito rapidamente emagrecem, dada a quantidade de átomos que, em eflúvios sonoros, lhes saem do corpo, Jorge deveria ter acabado a proposta magríssimo. Pelas mais nobres razões, Berta, que também o ama, recusa. Mas, mais tarde, a coisa vai ao sítio. E os prazeres da família também a Jorge fizeram bem: “eivado de uma filosofia democrática e revolucionária” e possuindo “avançados princípios sociais”, decide introduzir na sua propriedade “inovações já abonadas pela experiência de países mais cultos”.

Não há em Júlio Dinis propostas de casamento extravagantemente cómicas, como em Jane Austen, George Eliot, Tolstoi ou Samuel Butler (The Way of all Flesh). Nem, sobretudo, se brinca com a coisa, como Batsheba faz em Far from the Madding Crowd, de Hardy. Tudo é previsível e invariável: os homens possuem todos um impecável carácter e as mulheres – que inevitavelmente se “sobressaltam” no momento da proposta – são incrivelmente dadas às “branduras do sentimento”.  Mas há qualquer coisa que, se saltarmos inteiramente para dentro da coisa romanesca, como sabe muito bem fazer, dá a Júlio Dinis um lugar honroso na grande competição internacional das propostas de casamento. Ainda estou para descobrir exactamente o quê. Talvez, no fundo, porque fosse bom que as coisas fossem assim, como manifestamente não são.