1. Apesar de combater um frágil outsider, notou-se-lhe a endurance pessoal, a impiedade politica, o dote comunicacional. António Costa tem anos disto, foi o benjamim de toda a gente, o PS desejava-o. Percebeu que era agora e caiu bem na família. Mas isto, já sabíamos. Falta o resto que é imenso. Falta a realidade: a nossa, a que se vive no país, a portuguesa. Nunca percebi qual a explicação racional para que entre essa realidade e o modo como é percepcionada no Largo do Rato – e dentro da cabeça do próprio António Costa – haja um abismo tão inexplicável; persiste-se em negar as causas da crise que nos arrasou, remetendo-a para uma vulgar crise “de confiança” motivada pela “situação internacional”; redime-se politicamente um passado contra o vento da realidade – como ela foi- e negando a maré da bancarrota – como ela ia sendo. No PS não há dúvida, nem aflicção.

Quando António Costa e os seus pares definem os últimos três anos da governação como um “erro brutal” – da austeridade ao cumprimento do memorando da troika, passando por cortes e sacrifícios – perguntamos como teriam feito, com o país sem um cêntimo para pagar salários e assegurar as funções mínimas do Estado? Quando o tom é de arrogante escárnio por Seguro ter viabilizado o primeiro OE da actual maioria e com isso termos tido que comer; quando Costa acha sinceramente que quando ele for “à Europa” falar mais alto e menos “servilmente” os nossos amanhãs deixam de ser de “empobrecimento” para se tingirem de desafogo (pago por quem?); quando o PS considera que tudo mudará mal um governo de esquerda puder carregar no botão do “crescimento económico”; quando na bancada socialista se considera que enxotando ideias “erradas”, trocando-as por “certas” e mudando de partido, tudo volta aos folgados dias de ontem, quem está enganado?

Se for eu, óptimo: como não decido, não escolho, nem governo, não virá daí mal ao (nosso) mundo. Se for o PS, sucede que o engano custará caríssimo: em dinheiro, em tempo, em credibilidade. E, Santo Deus: tudo outra vez desde o princípio?

Dir-me-ão que já falei disto mais de uma vez ou que estou sempre a escrever as mesmas coisas mas de que falar quando o perigo do “tudo outra vez desde o principio” se anuncia a si mesmo?

Uma manhã de Primavera deste ano de 2014, fui – com gosto – ao Largo do Intendente de propósito para oferecer a António Costa o livro que fiz com Vítor Gaspar. Meti-me no metro e fui, mas lembro-me do que ouvi: de Vítor Gaspar, com graça; do resto, sem nenhuma. Os argumentos eram os de hoje: a “obsessão” com a divida, a importância descomunal que “se” dava ao défice, os erros “crassos” da política do governo; a obediência servil à Alemanha e a subserviência cega à troika (cito de memória mas quem de imediato não reconhecerá António Costa nestes propósitos se eles não se alteraram um milímetro?).

É verdade: nada, ou quase nada, mudou na atitude político-mental de quem não compreende a economia que se vive nos nossos dias; não alcança a importância crucial da saúde das empresas como motor de verdadeiro crescimento económico; não atende à economia como fonte de criação de riqueza e tem tendência a achar que o mercado é algo de desprezível a que aqui só obedecem os neoliberais que nunca houve.

Delfim Neto, professor emérito em Economia, ex-titular das Finanças do Brasil e observador credenciado da vida política brasileira, dizia há dias no Público, a propósito do PT, “que o PT acredita que não há restrições económicas, acredita que se houver força política, dois e dois podem ser cinco”.

Boa síntese, infelizmente exportável: o PS também achará sempre que, com a sua “força política”, dois e dois podem ser cinco. A sério.

Com o espalhafato vigente no Largo do Rato a alimentar todas as ilusões não será tão depressa que estes fundidos fios da realidade serão substituídos por outros não danificados.

O PS publicitou a sua jubilosa expectativa face aos confrontos entre o líder da sua bancada e o primeiro-ministro julgando (equivocadamente) que se trata de ter maior tarimba ou mais cultura política e achando naturalmente que os socialistas estão em vantagem nos pergaminhos políticos e culturais. Mais modestamente julgo que o desfasamento entre o modo como Ferro Rodrigues e Passsos Coelho percepcionam a realidade e lidam com ela, nunca permitirá senão um politicamente desinteressante diálogo de surdos. Como se viu, aliás, no debate parlamentar, na tão mortiça actuação de Ferro Rodrigues, doublé de líder da bancada.

Há quem considere que será a própria realidade que se encarregará da sale besogne de trazer o PS ao “mundo real”. E que António Costa perceberá depressa o que tem pela frente. .

Sim, talvez os socialistas europeus tratem disso. Dir-lhe-ão que a sua “narrativa” – peço desculpa da horrenda expressão – esbarra em duas poderosas evidências: primeiro, Portugal não cresceu durante os quinze anos de euro. (Ou cresceu? Sejamos sérios.) E mesmo assim sofreu uma crise profundíssima cuja origem remete exclusivamente para o excesso de despesa financiado a crédito. Em segundo lugar, certamente que esses bons amigos lhe farão notar que a sua “escapatória” europeia tropeçará no buracão do completo fracasso do Hollande.

2. Vejo gente – e não apenas à direita – preocupada com o tipo de alianças que fará o novo líder socialista, interrogando-se sobre que bússola escolherá para navegar do mar da oposição até à enseada (não amena) do poder mas além de cedo, julgo haver uma questão prévia. A a geometria de tais alianças será sempre desenhada pela resolução – ou não resolução – desta “crise de realidade”. A escolha dos parceiros para o jogo do poder não será nunca um início mas sempre um resultado: se o PS desembaciar o olhar para poder olhar o país como ele é, os seus parceiros serão uns; se insistir que dois e dois podem ser cinco, os “companheiros de jornada” serão outros.

Saber se António Costa se virará para a esquerda onde pessoas se esgotam em sulfúricos insultos dirigidos a outras pessoas, que de resto odeiam e de quem desconfiam; ou se ele se irá mover para a sua direita – onde no PSD talvez não haja Rio e no CDS se ignora se estará Portas – será sempre o segundo acto.

Mas é no primeiro que reside a substância da peça.

3. A menos que. A menos que António Costa seja capaz de não se esgotar na rejeição pura e simples da actual governação – rejeitar e condenar não é de borla -, mas aponte um caminho. Sem o remeter para o programa eleitoral, esperar pelo programa de governo ou dizer que está em curso uma “agenda”. Duas ou três boas ideias, coisas simples, sinais. Direcção, orientação, sinalização do caminho. Saber por onde passa a estrada alternativa socialista e quais as suas balizas. Ao contrário de muita gente, acho que Costa, durante a campanha das primárias, fez muito bem em ter dito muito pouco. Hoje acho que fará muito mal se esperar por programas e estatísticas, embrulhadas em prazos e promessas.

Coisas simples, sim: o PS não quer a austeridade, recusa a continuação do apertar cinto. Como paga a diferença? Onde está o misterioso botão do crescimento económico? Que muda – em números e bondades – com a entrada em cena do “investimento público”? Isso.

E se de caminho no Largo do Rato alguém se lembrar de finalmente separar o trigo do joio da passada governação socialista, era uma boa ideia: não só acabaria a indigesta e esquizofrénica fulanização de Sócrates, como o próprio PS poderia averbar notas positivas. Eu ainda me lembro de como uma boa parte da direita amou Sócrates com enlevo e se reviu naquele “matador” com instinto de reformista. Era aliás “vox populi” entre ricos e poderosos (eu ouvia-os) que “a maneira das reformas se fazerem era com um governo de esquerda”. (E embora essa seja outra história, eis aqui uma das explicações para o desamparo a que Manuela Ferreira Leite foi votada na sua campanha legislativa de 2009: a influência, o poder dos bastidores, os interesses, o dinheiro, reconduziram Sócrates, ele “ainda era melhor”para eles)

Entrevistei Ricardo Salgado, por exemplo, poucos meses antes das eleições de 27 de Setembro de 2009, e não esqueço os hinos de louvor que ouvi às grandes obras publicas e ao andamento da pátria, quando nessa altura já havia uma corda ao pescoço do país (que a pobre Manuela se esfalfava por denunciar). Foi o que se viu e todos nos lembramos: o fim do dinheiro na caixa do país. E a humilhação de meia dúzia de banqueiros determinar o que se devia fazer: clamar ao mundo por socorro.

Voltando ao presente: que ideias distintivas, novas, boas, exequíveis têm António Costa e a sua equipa para o duplo salvamento que prometem? A saber: o de retirar Portugal das maléficas garras desta maioria, e o de salvar o país do seu modesto quadro de “empobrecimento” para o transpor para o rasgado horizonte dos aumentos: dos salários aos feriados, passando pelo tudo, para todos. E claro, como se fará isto sem aterrar em Lisboa, seis meses depois, um avião com o segundo resgate lá dentro.

4. Espanta-me a quantidade de gente que evoca os pequenos partidos como se eles existissem para além da sempre prestimosa atenção da “media” ou da oportuna utilidade que darão terceiros (veja-se as visitas que têm recebido, com ou sem o “Grândola” a tocar); como se tivessem “posologia”; como se o país os conhecesse; como se dispusessem de bandeiras, tropas, objectivos, conhecimentos, projectos, programa, para além de “acabar com a austeridade” (e quem não quereria?) e aparecerem no telejornal. Posso estar enganada (eu depois pedirei desculpa), mas julgo que a nobre empreitada a que se propõem será um dia substituída pela mais cómoda tarefa de apanhar o elevador do PS, cair no abrangente colo do Largo do Rato e começar outra vida. Marinho Pinto, o populista impoluto, esteve num partido há meses, zangou-se, saiu, gritou, acusou e inventou outro partido. Produzindo um espectáculo igual aos que ele se consome – e nos consome – a condenar. Mas nele actuando em regime de extenuantes sessões non-stop. Que faz Marinho Pinto além de barulho?

5. Isto dito, com que pulsações estará hoje a maioria? E com que tensão arterial? Baixinha, umas e outra. Eu, se fosse a eles, afligia-me. O espectáculo da Justiça é indecoroso, e o da Educação deplorável. Já sei, já se sabe, que não é “culpa” dos ministros. É responsabilidade política, que é pior. E mesmo que a media amplie ou exagere, as anomalias, graves, estão lá: não foram inventadas e têm vindo a crescer.

O Governo tem menos de um ano não para mostrar o que vale, mas para mostrar o que valeu. Saber fazer render os talentos que teve na maré baixa é mostrar que sabe agora partir para outra: para o último ano, um novo fôlego, um outro discurso, caras diferentes (algumas, pelo menos), iniciativa, antecipação. Surpresa. Política.

Já não seria sem tempo.

PS: Falei acima de Rui Rio: Costa designou-o como adversário. Publicamente e com fanfarras de anúncio. Nunca vi tal coisa. Os partidos são uma espécie de Estados. Soberanos. São eles que mandam neles. Longe de mim recomendar a observância política do – avisado – provérbio “não ponhas a carroça à frente dos bois”. Mas senti uma estranheza face à “designação”, a estas horas, de um próximo líder do PSD. É até um pouco ridícula. Percebe-se evidentemente o alcance politico do gesto mas ele não deixa de ser isso mesmo: um pouco ridículo. Para não falar se fosse ao contrário: a direita a ousar escolher os seus adversários preferidos dentro da esquerda e a designá-los publicamente. Quantos Carmos e Trindades teriam já desabado?