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Deus tornou-se um sem-abrigo

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873

O que mais me prende na escrita de Halík e Tolentino é a clareza com que falam de Deus sem que a palavra amor esteja “besuntada com a enjoativa geleia dos clichés piedosos e mundanamente sentimentais”

No rescaldo desta edição da Feira do Livro de Lisboa, e ainda com pilhas de livros por organizar depois das sucessivas idas e vindas ao parque, ao entardecer, apetece-me falar de dois autores que se ligam: Tolentino Mendonça e Tomás Halík. Começo por Halík:

“Provavelmente, a razão mais comum para rejeitar Deus é alguém ter uma ideia de Deus psicológica ou moralmente inaceitável para ela ( a ideia de um mestre-escola tirânico e castigador, associada aos traumas de infância e a uma educação religiosa distorcida). Se as pessoas rejeitam esse tipo de Deus, têm razão em fazê-lo, e isso é bom para a sua saúde espiritual e mental”.

Retirei este fragmento do mais recente livro de Halík, Teólogo, Filósofo, Sociólogo e Psicólogo checo, clandestinamente ordenado sacerdote no final da década de 70 e, por isso, também conhecido por ser um dos Padres da “Igreja Subterrânea”, activa durante a ocupação comunista. Os seus primeiros estudos de Teologia foram igualmente feitos na clandestinidade, mas depois pôde dar-lhes livre sequência na Universidade Pontifícia Lateranense, em Roma, e na Faculdade Pontifícia de Teologia, em Wroclaw, Polónia.

Muitos dos que Halík refere no parágrafo citado ainda hoje pensam em Deus como alguém controlador e castigador, que revela uma imagem do inferno infinitamente mais poderosa que a do céu. Há décadas esta era uma catequese possível e conheço pessoas que, em criança, tinham pesadelos nocturnos com o inferno. Hoje são adultos, mas ficaram na 4ª classe da fé, digamos assim. Não acreditam em Deus, têm aversão à Igreja e até assumem esse trauma, se for caso disso. Percebo-os, porque também eu fugi dessa imagem de Deus e escapei dessa Igreja. Mas com tanto que há para ler e conhecer, ver e saber, discutir e debater, é uma grande pena viver a idade adulta tendo apenas a 4ª classe, seja da fé ou do que quer que seja.

Tomás Halík esteve há pouco tempo em Lisboa e conversou demoradamente com amigos novos e admiradores de longa data, como Tolentino Mendonça. Ambos esgotam todas as salas onde se sentam para falarem dos seus escritos, e os seus leitores não se cansam de os ouvir. Nem de os ler.

Um e outro escrevem acima de tudo para pessoas a caminho, para buscadores inconformados. Quanto a Halík, a sua obra é, como sublinha Tolentino, “uma procura, uma corajosa exposição de si, uma viagem no aberto, um manual de desassossego. Para os leitores e para ele próprio”.

Nos livros de Tolentino e de Halík não há palha, tudo é grão pronto a ser descascado, moído e transformado em alimento e, por isso mesmo, tudo parece escrito para saciar a grande fome humana de sentido existencial e espiritual. Os ensaios e reflexões destes teólogos servem tanto a crentes como a não-crentes, porque ambos os autores preferem as perguntas às respostas.

De onde provém a ternura e a bondade, num mundo minado de conflitos e condicionado por extremistas que se fazem explodir para matar inocentes? Eis a questão inaugural do novo livro de Halík, cujo título português é um exclamativo “Quero Que Tu Sejas!”, seguido de um provocador interrogativo “Podemos Acreditar no Deus do Amor?”.

“Na primeira metade do século XX, tendo por pano de fundo todos os horrores da guerra e dos genocídios, a pergunta milenar ‘de onde vem o mal?’ foi levantada de novo com uma nova urgência. É muito possível que hoje em dia nos tenhamos acostumado tanto ao mal, à violência e ao cinismo, que façamos a nós próprios, com surpresa, outra pergunta: de onde provém a ternura e a bondade? Que fazem elas aqui, no nosso mundo cruel?”

Neste mundo cada vez mais sofrido e cheio de fracturas expostas pode não haver ninguém verdadeiramente apto a dar respostas definitivas, sobretudo quando se trata de interrogações desta natureza. Halík não arrisca e prefere não as dar. “Onde está a fonte da ternura e da bondade? Será que eu o sei? Devo confessar que não. (…) Há algumas interrogações demasiado boas para serem estragadas com respostas. Há perguntas que devem continuar a ser uma janela aberta”.

Este livro de Halík, aliás como todos os outros, lê-se com prazer e sofreguidão. Não sei se a sofreguidão e o prazer vão bem um com o outro, mas a minha experiência enquanto leitora compulsiva de Tolentino e também de Halík, é essa mesma. O prazer demorado de horas a fio de leitura, no silêncio total, sem música nem vozes, apenas o vento a passar entre as folhas da árvore mais alta do jardim em frente, de lápis na mão para poder sublinhar e anotar nas margens as ideias e reflexões que nascem da leitura; a sofreguidão de ler mais e mais, sentindo que todas as horas são poucas para absorver, ler e reler, andar para a frente e voltar atrás.

Nas linhas e entrelinhas de Halík e Tolentino leio sempre uma e a mesma coisa. Assim como que um enunciado de tudo o que Deus não é. Gosto dessa certeza à partida, pois a palavra Deus continua a ser uma palavra difícil no mundo e há demasiados livros a falar do seu amor, sem conseguirem chegar ao essencial. E pior, revelando este amor através de leis humanas, mais e menos fundamentalistas. Ou usando palavras estranhas, conceitos que são como fatos velhos e gastos, completamente fora de uso, que não assentam a ninguém por não terem a ver com acom as circunstâncias da vida de cada um. Fatos que não servem para aquilo que somos chamados a ser. Por tudo isto, fazem falta bons livros mais à nossa medida, que elevem o pensamento, mas também nos façam mergulhar nas profundezas densas dos grandes mistérios existenciais.

Concordo inteiramente com Tolentino, quando ele diz que na festa anual do livro é importante haver espaço para livros de natureza religiosa, com reflexões críticas do ponto de vista espiritual, pois cada vez é mais importante que este tipo de literatura de ensaio ganhe ‘condição e estatuto de cidadania’ e possa ser discutido como todos os outros livros. “É importante que o leitor médio, que passeia pela feira se interesse por livros que oferecem reflexões de qualidade que podem não substituir outras, de outra natureza, mas também têm um lugar próprio”.

Tolentino diz mais: “faz pena ver que a nossa realidade é muito diferente da de outras paragens como Itália, França e Espanha, para dar os exemplos mais próximos, onde pessoas de cultura média se interessam por livros de religião e teologia. Em Portugal temos uma iliteracia quase total no conhecimento e no debate teológico e filosófico. E, por isso, é extraordinariamente meritório o esforço de editoras como as Paulinas e outras, pois um bom livro religioso é fundamental para a formação cultural de toda a mulher e todo o homem”.

Também concordo com Halík e identifico-me com a sua atitude, quando assume que “nas livrarias religiosas sempre evitei instintivamente livros que tivessem a palavra amor no seu título, receando que os primeiros capítulos estivessem impregnados do perfume doentiamente barato do piedoso sentimentalismo que nunca deixa de me dar volta ao estômago (…) o amor vê-se mais nos actos do que nas palavras.”

Posto tudo isto, aquilo que mais me prende na prosa de Halík, mas também de Tolentino, é essa clareza com que falam de Deus sem que a palavra amor esteja “besuntada com a enjoativa geleia dos clichés piedosos e mundanamente sentimentais”.

Gosto da maneira livre e criativa como cada um fala daquilo que importa a Deus e afinal nada tem a ver com as nossas opiniões nem com o facto de acreditarmos ou não na sua existência, mas sim com a natureza e o grau do nosso amor traduzido em obras, gestos, acções e abertura aos outros. “Deus não está preocupado com a fé no sentido de ‘crenças’, ‘opiniões’, mas com a fé associada fundamentalmente ao amor” esclarece Tomás Halík.

O problema é que nos tempos modernos Deus tornou-se um ‘sem-abrigo’. Começou por Descartes, como recorda o autor checo, e passou a ser lógico para o ateísmo dizer: não há Deus. Ora “Deus não é uma simples ideia, emoção, conceito ou fantasia. Essa forma de ausência de Deus do mundo objecto-sujeito não precisa necessariamente de ser interpretada de forma ateia. Há outras interpretações possíveis”. E são estas interpretações que podemos ler nas reflexões destes dois autores iluminados e iluminantes.

Termino com dois fragmentos que ficam a fazer eco e talvez sejam pistas para as fontes de ternura e bondade no mundo. Uma fala da culpa empobrecedora e de uma não aceitação do perdão; outra mostra em que é que Jesus foi verdadeiramente revolucionário:

“Deus não tortura os seres humanos com remorsos recalcados. Se depois de um acto de arrependimento diante Deus esses remorsos continuam a manifestar-se e a perturbar-lhes a paz de espírito, então esses cristãos podem ter a certeza de que tais sentimentos não são a voz de Deus, nem devem ser tomados a sério. Este conselho tradicional remonta aos Padres do Deserto e aos Santos Confessores, continuando a fazer parte das recomendações pastorais de hoje, sustentadas por descobertas psicológicas e pedagógicas contemporâneas”.

Sartre dizia “o inferno são os outros”, mas muito antes Jesus disse: “ o céu são os outros” e este seu ensinamento de que o céu (Deus, que parece tão distante) afinal está sempre aqui – e ‘aqui’ no nosso próximo – esse sim, é revolucionário sem dúvida alguma.

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