Ainda se lembram das previsões para 2020, feitas no fim do ano passado?  Quase toda a gente adivinhou que ia haver recessão. O que ninguém adivinhou é que a recessão iria ser fabricada pelos governos, a pretexto de achatar as curvas de uma epidemia. Terá valido a pena? Deixemos a questão para daqui a uns tempos, quando o nevoeiro da infecção tiver levantado. Para já, a pergunta é outra: qual vai ser a factura final da quarentena, e quem a vai pagar?

Há quem já tenha perdido muita coisa ou mesmo tudo. Há, também, quem tenha sido auxiliado pelo Estado ou esteja à espera desse auxílio. Como pagar tudo isto? Os políticos ocidentais não parecem demasiado angustiados. A inflação, ao extinguir-se, deixou-lhes na mão a varinha mágica do dinheiro barato e abundante, que tem sido o remédio que há vinte anos aplicam a todas as crises. Vão usá-lo outra vez, claro. Em Portugal, onde se esperam as migalhas dessas larguezas monetárias, também não há sinais de inquietação. António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa já decretaram que não haverá austeridade. Há professores de economia a demonstrar o contrário? Não importa. Por mim, acredito nos donos da maioria. Sim, bem sei: se o Estado fizer mais dívida, o crédito será mais difícil, como já acontece à Itália; se recorrer ao apoio internacional, terá de satisfazer certas condições, como a de reequilibrar contas. Mas insisto: por mais que subam os impostos ou por maiores que sejam os cortes, não vai haver austeridade. Costa e os seus aliados estão certos. Por duas razões.

Primeiro, porque a actual maioria manda mesmo, e se diz que não haverá austeridade, a austeridade não será tema, tal como não foram, durante cinco anos, a falta de investimento e a degradação dos serviços públicos, ou, agora, a modéstia dos auxílios do Estado, por comparação com outros países. Costa e os seus parceiros  chamam “austeridade” unicamente aos cortes das pensões e dos salários mais altos da função pública. O que quer dizer que tudo o  mais – aumento de impostos, cortes de investimento, debilitação dos serviços, apoios mesquinhos e complicados, etc. – não é “austeridade”. Até à crise de 2011, os governos socialistas agravaram sempre os impostos. Mas austeridade, só houve quando Manuela Ferreira Leite congelou os salários da função pública ou Vítor Gaspar encolheu  as pensões mais elevadas.

A segunda razão pela qual não haverá austeridade é esta: se a actual maioria já mandava, agora manda muito mais. A quarentena agravou as fragilidades da economia privada e da sociedade civil em Portugal. Por esse lado, a história vai ser de endividamento, falência e desemprego. Os corifeus da maioria congratulam-se com o aumento da dependência do Estado (“quem é que ainda é liberal, agora?”), e discutem nacionalizações como se fosse 1975. Estão à vontade. Do lado do PSD, só ouvem falar de colaboração. Quanto aos pequenos partidos, que em 2019 ainda lhes serviram para se fingirem angustiados com o “populismo”, parece que, afinal, já não contam. Sim, haverá certamente umas quantas colunas de opinião dissonantes – as suficientes para os porta-vozes da situação lamentarem o “radicalismo” da “direita inorgânica”.

Em suma, será o que os líderes da maioria quiserem. Em pleno estado de emergência, decidiram que para eles havia festas e manifestações, e houve. Se decidirem que não haverá austeridade, quem poderá discordar? Eles mandam. Como dizia o cocheiro de Fradique Mendes: “Lá para o Sr. D. Fradique é o que quiser”.