Não foi nada fácil, mas a semana passada lá saíram 25 militantes do Bloco de Esquerda. Os descontentes lamentaram “o taticismo de decisões” e “o jogo da comunicação na sua forma burguesa”, e alegaram que “pouco resta do projeto original do Bloco de Esquerda de ser uma força política em alternativa à sociedade existente”. Portanto, vamos lá ver se percebi bem. Em Fevereiro de 2019 estes militantes repararam que o Bloco é fingido, burguês, e já não quer ser alternativa à sociedade existente, foi isso? Ou seja, quando o Bloco decidiu coligar-se com PS e PCP pareceu-lhes tudo normal. Quando Francisco Louçã foi nomeado Conselheiro de Estado acharam até bastante expectável. Quando se descobriu que o vereador Robles era um soberbo especulador imobiliário não demonstraram surpresa. E agora é que repararam nisto? Tudo bem. Nunca é demasiado tarde para assinalar estupendas hipocrisias. E assim segue o Bloco de Esquerda, já sem os ultra-radicais dissimulados mas sempre com os ultra-dissimulados radicais.

Isto numa semana marcada por uma óptima notícia e por uma péssima notícia. A óptima notícia foi o afastamento de vários ministros do Governo de António Costa. A péssima notícia foi que Costa os substituiu imediatamente por novos ministros, ainda mais seus amigos que os anteriores. O primeiro-ministro afirmou que a remodelação governamental foi uma “separação de águas necessária”. Ora aí está António Costa, qual Moisés do Largo do Rato, a separar as águas, guiando o povo socialista rumo à vitória eleitoral prometida. Aliás, a olho nu estes dois líderes históricos são praticamente indistinguíveis: Moisés viu as águas do Mar Vermelho separarem-se para escapar ao Faraó do Egipto, e António Costa vê os vermelhos a separarem as águas para escaparem ao ónus da participação na geringonça.

A propósito de geringonça, e para celebrar um ano de liderança do PSD, Rui Rio tomou finalmente uma posição que afronta o Governo. Tumba! Mesmo ali, durinho. O Rio a aprovar uma moção de censura contra o Governo de António Costa. Toma, Costa! Embrulha. Quer dizer, a moção de censura não é exactamente do PSD. O CDS é que apresentou a moção de censura ao Governo. Assim é que foi. Não, mas o PSD apoiou forte e feio! E exige que António Costa tire ilações desta moção de censura, atenção. Quer dizer, não podemos afirmar com rigor que exija. É mais uma coisa do género “Eh, pá. Vejam lá isso do Governo e das vossas políticas, e tal.” É mais isto. Não, na verdade nem sequer é isto. Nas palavras do próprio Rui Rio o PSD vota a favor da moção de censura mas “é por demais evidente que não tem qualquer efeito prático”. Entusiasmante, cativante, motivador. São tudo adjectivos. Infelizmente nenhum deles apropriado a este caso.

Já repugnante, assustadora, e inacreditável são adjectivos apropriados para a questão do abuso de menores na Igreja portuguesa. O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa diz que há no país um número “reduzido” de casos. “Quando digo que é reduzido, é reduzido mesmo. São pouquíssimos”, afirmou. Imagino o Presidente Truman: “Bombas atómicas? Lançámos pouquíssimas. O número de casos foi mesmo muito reduzido. Hiroshima e Nagasaki. Duas bombinhas. Dois é pouco mais que zero, se virmos bem”. Enfim, temo ter finalmente percebido o entusiasmo da Igreja com a notícia da realização em Portugal das próximas Jornadas Mundiais da Juventude.