Crónica

É mais fácil sair do armário do que sair do Bloco /premium

Autor
756

A óptima notícia foi o afastamento de vários ministros do Governo de António Costa. A péssima notícia foi que Costa os substituiu logo por novos ministros, ainda mais seus amigos que os anteriores.

Não foi nada fácil, mas a semana passada lá saíram 25 militantes do Bloco de Esquerda. Os descontentes lamentaram “o taticismo de decisões” e “o jogo da comunicação na sua forma burguesa”, e alegaram que “pouco resta do projeto original do Bloco de Esquerda de ser uma força política em alternativa à sociedade existente”. Portanto, vamos lá ver se percebi bem. Em Fevereiro de 2019 estes militantes repararam que o Bloco é fingido, burguês, e já não quer ser alternativa à sociedade existente, foi isso? Ou seja, quando o Bloco decidiu coligar-se com PS e PCP pareceu-lhes tudo normal. Quando Francisco Louçã foi nomeado Conselheiro de Estado acharam até bastante expectável. Quando se descobriu que o vereador Robles era um soberbo especulador imobiliário não demonstraram surpresa. E agora é que repararam nisto? Tudo bem. Nunca é demasiado tarde para assinalar estupendas hipocrisias. E assim segue o Bloco de Esquerda, já sem os ultra-radicais dissimulados mas sempre com os ultra-dissimulados radicais.

Isto numa semana marcada por uma óptima notícia e por uma péssima notícia. A óptima notícia foi o afastamento de vários ministros do Governo de António Costa. A péssima notícia foi que Costa os substituiu imediatamente por novos ministros, ainda mais seus amigos que os anteriores. O primeiro-ministro afirmou que a remodelação governamental foi uma “separação de águas necessária”. Ora aí está António Costa, qual Moisés do Largo do Rato, a separar as águas, guiando o povo socialista rumo à vitória eleitoral prometida. Aliás, a olho nu estes dois líderes históricos são praticamente indistinguíveis: Moisés viu as águas do Mar Vermelho separarem-se para escapar ao Faraó do Egipto, e António Costa vê os vermelhos a separarem as águas para escaparem ao ónus da participação na geringonça.

A propósito de geringonça, e para celebrar um ano de liderança do PSD, Rui Rio tomou finalmente uma posição que afronta o Governo. Tumba! Mesmo ali, durinho. O Rio a aprovar uma moção de censura contra o Governo de António Costa. Toma, Costa! Embrulha. Quer dizer, a moção de censura não é exactamente do PSD. O CDS é que apresentou a moção de censura ao Governo. Assim é que foi. Não, mas o PSD apoiou forte e feio! E exige que António Costa tire ilações desta moção de censura, atenção. Quer dizer, não podemos afirmar com rigor que exija. É mais uma coisa do género “Eh, pá. Vejam lá isso do Governo e das vossas políticas, e tal.” É mais isto. Não, na verdade nem sequer é isto. Nas palavras do próprio Rui Rio o PSD vota a favor da moção de censura mas “é por demais evidente que não tem qualquer efeito prático”. Entusiasmante, cativante, motivador. São tudo adjectivos. Infelizmente nenhum deles apropriado a este caso.

Já repugnante, assustadora, e inacreditável são adjectivos apropriados para a questão do abuso de menores na Igreja portuguesa. O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa diz que há no país um número “reduzido” de casos. “Quando digo que é reduzido, é reduzido mesmo. São pouquíssimos”, afirmou. Imagino o Presidente Truman: “Bombas atómicas? Lançámos pouquíssimas. O número de casos foi mesmo muito reduzido. Hiroshima e Nagasaki. Duas bombinhas. Dois é pouco mais que zero, se virmos bem”. Enfim, temo ter finalmente percebido o entusiasmo da Igreja com a notícia da realização em Portugal das próximas Jornadas Mundiais da Juventude.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Caixa Geral de Depósitos

Rebentou a Berarda! /premium

Tiago Dores
409

Mais do que a receber Comendas, Joe Berardo é fortíssimo a receber encomendas. Basta lembrar como o governo de José Sócrates lhe encomendou que votasse ao lado do Estado na OPA da Sonae à PT.

Crónica

Portugal, um país à prova de fake news /premium

José Diogo Quintela
218

Porra Vasily! Então, mas o que é que andas a fazer, pá? Portugal não necessita dos nossos trolls, nem das nossas fake news. Os partidos tradicionais encarregam-se de escangalhar a imagem da democracia

Televisão

Os novos gladiadores /premium

Laurinda Alves

Tal como na Roma antiga se juntavam multidões para incitar ver morrer gladiadores, também os espetadores do Jeremy Kyle Show gostavam de ter sangue todas as manhãs e de ver inocentes lançados às feras

Crónica

Ao ministro Cabrita, os carecas agradecidos

Luiz Cabral de Moncada

O que é que se pretende? Um homem novo escorreito, bonito, higiénico e saudável promovido por uma ideologia baseada na boa aparência e no uso da escova de dentes?

Caixa Geral de Depósitos

Rebentou a Berarda! /premium

Tiago Dores
409

Mais do que a receber Comendas, Joe Berardo é fortíssimo a receber encomendas. Basta lembrar como o governo de José Sócrates lhe encomendou que votasse ao lado do Estado na OPA da Sonae à PT.

Crónica

Serei eu um monstro?

Inês Pina

Cultivamos uma dissonância cognitiva. Se algo acontece e se sentimos que podíamos fazer algo, rapidamente sentimos que há alguém que podia/devia fazer mais do que nós. O que é isto?

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)