Maioria de Esquerda

Marcelo tem Costa no bolso e precisa do Passos

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Para Costa, os partidos só servem se o ajudarem a governar. Para Costa, a oposição não conta. Nunca vi um PM desde que há democracia em Portugal desvalorizar deste modo o pluralismo político.

1. Tornou-se quase um lugar comum dizer que o Presidente da República está demasiado alinhado com o primeiro-ministro, havendo mesmo quem o acuse de ter perdido margem de manobra em relação a São Bento. Discordo desta análise. Marcelo Rebelo de Sousa tem gerido com muita inteligência a sua relação com António Costa. É verdade que o tem apoiado, mas também o tem condicionado nalgumas questões essenciais, e soube preservar a sua liberdade de ação.

Já muita gente se esqueceu que, no seu primeiro mandato, o então Presidente Cavaco Silva apoiou de um modo claro o então primeiro-ministro José Sócrates. Entre 2006 e 2010, a relação entre Cavaco e Sócrates foi de uma grande cordialidade e cooperação. O apoio de um Presidente da área da direita a um governo socialista faz parte dos manuais da política portuguesa. Tal como aconteceu com Cavaco, Marcelo quer garantir a sua reeleição. Para isso, não pode hostilizar o governo socialista.

Marcelo sabe ainda que, entre as figuras socialistas, António Costa seria o adversário mais temível nas presidenciais de 2021. Se em 2020 Costa não estiver em São Bento tudo fará para ser candidato presidencial. Ninguém no PS lhe fará sombra. Além disso, depois de ter formado a geringonça, Costa teria muitas hipóteses de ser o candidato das esquerdas. Marcelo, o mestre dos cenários políticos, percebe isso muito bem e por isso está a tentar neutralizar Costa. Aliás, estou convencido que, no caso da geringonça não chegar a 2019 no poder, a grande dificuldade para Costa será encontrar uma forma de culpar Marcelo e de fazer dele o adversário das esquerdas. Mas, ninguém tenha dúvidas, se a geringonça falhar, ele e os seus camaradas tudo farão para iniciar uma guerra contra Marcelo.

O Presidente tem condicionado o Governo, sobretudo na relação com a Europa. Há um ano, não era evidente que Costa não escolhesse o caminho do conflito com a União Europeia. E havia muitas pressões para que o fizesse. Marcelo foi fundamental para impedir a tentação da oposição a Bruxelas. O Presidente tem ainda feito avisos importantes ao governo, sobretudo em relação ao crescimento económico. Estes avisos permitem a Marcelo manter uma certa distância perante o governo. Se acrescentarmos a esta liberdade, o poder da palavra presidencial (que em grande medida advém da sua popularidade), Marcelo tem capacidade política para condicionar e, se quiser, até para enfraquecer António Costa. E Costa sabe.

Há igualmente um segundo consenso em relação a Marcelo Rebelo de Sousa: quer ajudar a afastar Passos Coelho da liderança do PSD. Mais uma vez, discordo. É óbvio que Marcelo não tem qualquer simpatia por Passos Coelho. Rebelo de Sousa nunca entenderá como é que ele nunca chegou a PM e uma pessoa, pela qual não tem qualquer respeito intelectual, esteve quatro anos em São Bento. A sua eleição para Belém terá atenuado essa frustração, mas isso não quer dizer que Marcelo tenha alterado a sua opinião sobre Passos. Marcelo quer fazer a vida difícil a Passos, quer testar a sua resiliência, mas vai esticando a corda sem nunca a partir. Estou convencido que um dos grandes prazeres de Marcelo, no exercício da Presidência, é fazer a vida negra a Passos. Quase que o imagino a dizer a Marques Mendes quais devem ser as frases assassinas para usar contra Passos no serão de Domingo no SIC.

Mas nada disto significa que Marcelo queira Passos Coelho fora da liderança do PSD. O Presidente sabe que há muitos riscos externos, percebe as fragilidades da geringonça, assiste com atenção ao agravamento dos juros da dívida soberana, conhece os problemas do sistema financeiro. Uma crise financeira e orçamental, e a demissão do PM fazem certamente parte dos seus vários cenários para os próximos anos. No contexto desse cenário, a questão central para Marcelo é a seguinte: quem será a pessoa mais capaz para governar se o país voltar a cair numa crise? O PS não sabe governar em crise (pelo menos desde os tempos de Mário Soares como PM). Por isso, teria que ser o PSD, com o CDS, a governar, e de novo em crise. Rui Rio pode ter sido um bom presidente da Câmara do Porto, mas duvido que Marcelo o veja como o homem certo para lidar com uma crise. Só resta Passos, e Marcelo sabe. Marcelo quer fazer a vida dificil a Passos, e isso até o diverte, mas enquanto houver a possibilidade do diabo um dia chegar a Lisboa, o Presidente precisa do antigo PM.

2. António Costa deixou cair duas máscaras no último debate parlamentar. Furioso com o voto negativo do PSD sobre a TSU, Costa afirmou sem qualquer pudor que “o PSD não conta para nada”. Para Costa, os partidos só servem se o ajudarem a governar. Para Costa, a oposição não conta. Nunca vi um PM desde que há democracia em Portugal desvalorizar deste modo o pluralismo político. Tivesse Passos Coelho dito isto quando era PM, e as esquerdas teriam anunciado o regresso do fascismo a Portugal. Costa não só acha que o PS tem o monopólio de fazer oposição, como também julga que goza de um direito exclusivo a tiques autoritários.

Mas no mesmo debate o PM deixou cair uma segunda máscara. À pergunta de Passos Coelho sobre o valor do défice, Costa respondeu “saberemos quando o diabo vier”. Costa tem toda a razão. Recordando os truques contabilísticos que se descobriram depois do fim do governo socialista de Sócrates, só saberemos verdadeiramente o que foi feito para atingir o défice do ano passado quando o PS sair do governo.

3. Quando voltarem a ouvir alguém das esquerdas a defender a transparência do sistema financeiro riam-se. E com gargalhadas bem sonoras. As esquerdas só querem a transparência dos bancos privados. Quanto aos bancos públicos, como se vê com a Caixa Geral de Depósitos, nem pensar. Os portugueses não têm o direito a saber os abusos que os governos socialistas de Sócrates fizeram na Caixa, e que todos nós vamos pagar. O PCP e o BE estão a contribuir para um enorme acto de branqueamento sobre a instrumentalização do banco do Estado para fins privados, que vai custar muitos milhões a todos os portugueses. Se no fim disto tudo, ainda vos restar alguma vergonha, não voltem a dar lições de moral sobre a banca.

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