Entra ano, sai ano e em todas as conferências nas quais participo sobre questões de gênero, preciso repetir a mesma coisa: as mulheres precisam mudar de verbo. Falo isso em virtude da célebre frase “meu marido me ajuda bastante com as coisas da casa”. E pode ser marido, namorado, filho, não importa. O erro está no verbo.

Quando uma mulher diz que alguém ajuda, ela está tomando a atividade com dela e dizendo que toda contribuição dos outros é uma espécie de favor — o que é um caminho tão equivocado quanto perigoso, sobretudo considerando o fato de que estamos vivendo no século XXI.

Em tempos nos quais homem e mulher têm seus trabalhos externos (além dos trabalhos da casa), o verbo “ajudar” precisa ser abandonado com urgência. O homem faz a parte dele, a mulher faz a parte dela- simples assim. Trata-se de partilha, não de ajuda. E isso engloba os filhos, a limpeza, a cozinha e todas as outras tarefas que a vida doméstica exige.

A Covid-19 trouxe impactos drásticos para praticamente todas as esferas das nossas vidas. Mas sabemos bem que a vida familiar foi das que mais sofreu em todos os cantos do mundo. O confinamento trouxe tensão, falta de espaço e, em muitas casas, a interrupção do valioso trabalho das empregadas domésticas. Quem não entendia o valor desse trabalho, certamente passou a compreendê-lo melhor.

Mas eis que o caos se instaurou de forma generalizada em nossas casas: comida para fazer, louça para lavar, criança para cuidar, chão para varrer, roupa para estender, prazo para entregar. Os trabalhos, de todos os tipos, remunerados ou não, se acumularam. E, pelo que se pode observar, de um modo geral, se acumularam mais em cima das mulheres do que dos homens.

Estudos recentes comprovaram, por exemplo, que a produção de artigos científicos escritos por pesquisadoras mulheres caiu drasticamente durante o período de isolamento social, enquanto no que tange aos homens, não se verificou a mesma mudança. Isso se deve ao fato de que os compromissos profissionais das mulheres tendem a ser vistos como “mais adiáveis” do que os dos homens.

Muitas mulheres tendem a flexibilizar mais as suas próprias agendas, permitindo que a agenda masculina siga intacta, mesmo que isso resulte numa sobrecarga posterior para ela. Os trabalhos continuam tendo que ser feitos, não é mesmo? Mulheres acabam por ser ensinadas, desde muito cedo, a respeitar mais o trabalho masculino do que o feminino e, nessa fase, isso se tornou verdadeiramente insustentável.

A partilha justa das tarefas domésticas nem sempre é um 50%-50%. Há fases em que a mulher pode estar com uma demanda maior de trabalho do que o marido e não há problema nenhum- muito pelo contrário- em haver um homem que faça 70% do trabalho da casa, enquanto a mulher faz 30% para viabilizar sua vida profissional. E, como é óbvio, pode haver uma outra fase em que a situação se inverta e que o justo seja o oposto.

O importante é dizer: sim, as mulheres estão, na esmagadora maioria dos lares, extremamente sobrecarregadas. E é preciso que falemos sobre isso, é preciso identificar a distribuição injusta das tarefas e repensar isso dentro das famílias. Porque é fácil dizer que há mulheres histéricas, nervosas, chatas, mal humoradas. Difícil é reconhecer que há mulheres verdadeiramente exaustas e sobrecarregadas e que é preciso fazer algo para reverter esse quadro.