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Lembram-se do Jogo do Ganso, o concurso transmitido pela TVI, na altura canal 4, em meados dos anos noventa, no qual os concorrentes eram os peões de um tabuleiro gigante com sessenta e três casas? Nele, os concorrentes eram submetidos a todo o tipo de provas e desafios e, na maior parte das vezes, o jogo parecia estar a correr bem, até que os dados eram de novo lançados e a sorte ditava que tinham de voltar ao início. Tentavam de novo. E então novamente e novamente.

É assim que funciona a Covid-19. Há um aumento de infecções, de internamentos e de óbitos, independentemente de a percentagem de pessoas inoculadas ser de 60%, 90% ou de 100%. Segue-se uma nova variante, Delta, Lambda, Épsilon ou Ómicron, que é anunciada com a mesma ênfase que seria dada a uma invasão alienígena, isto é, com medo suficiente para justificar novas medidas restritivas, mas não o suficiente para considerar a vacinação inútil. Depois entra em acção uma enxurrada de especialistas – o tamanho do ganso – que nunca acertam. E eis-nos de novo obrigados a voltar ao ponto de partida, como os gansos, mas muito mais histéricos do que aqueles animais sábios e equilibrados.

Mas será o vírus que dita as regras do jogo? Obviamente que não. Toda a história da pandemia começou por ser vivida como tragédia e depois como farsa, parafraseando Marx em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. A farsa começou quando os governos estabeleceram uma analogia entre a pandemia e a guerra. Nessa narrativa simplificada, o vírus tornou-se o “inimigo invisível”, os hospitais a “linha da frente”, os profissionais de saúde os “heróis” ou “soldados”, os corpos os “campos de batalha” e a vacina a arma final que nos “libertará do vírus”. Ora, o “estado de guerra” permite que o território seja militarizado, que sejam adoptadas medidas excepcionais, que se apele à ordem, disciplina e obediência da população e reduzir o número de mortos a um boletim de guerra. Permite, ainda, uma política de comunicação adequada à guerra. Durante os conflitos, os governos impõem censura aos media, impedindo os jornalistas de fazerem o seu trabalho, com a desculpa de não facilitar a vida ao inimigo ou de a informação poder vir a ser usada para dar a conhecer ao invasor as estratégias adoptadas para derrotá-lo. A farsa fica então completa quando toda a comunicação pública acaba afectada pelo clima de guerra, sobretudo desde a chegada das vacinas.

É o Governo que tem uma concepção de si mesmo igual à de um governante esclarecido, a de uma autoridade apresentada como absolutamente inquestionável, quase além e acima de qualquer crítica e escrutínio. Chega a ser nauseante a demonstração contínua do papel paternal e solidário do Estado que administra as vacinas e exerce uma vigilância meticulosa do comportamento da sociedade, neutralizando assim o egoísmo e o individualismo tóxico dos desertores. Mas a verdade é que funciona muito bem e gera grande consenso. E não só porque se traduz num distorcido sentido de pertença socialmente virtuoso, segundo o qual a opressão, abuso, censura e discriminação são as reações necessárias de quem se preocupa com a coesão social e aquela fatia de liberdade que termina onde começa a do outro, autorizado e legitimado até perseguição e linchamento.

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É claro que esta visão da política e do Direito nada tem a ver com a tradição do constitucionalismo democrático e liberal ocidental, mas diante de uma ameaça iminente a Constituição é ignorada e o Parlamento não serve para praticamente nada.

São os meios de comunicação social que, salvo raras excepções, parecem manuais de instruções para cumprir as regras ditadas. Alguns adaptaram-se de tal forma à censura que já a impõem por conta própria. Eles não informam, debitam as suas opiniões inalienáveis, com uma vontade ainda mais deplorável do que a do governo. O seu dever agora é de conduzir os leitores/telespectadores às decisões pandemicamente correctas, isto é, às decisões que outros garantiram que fossem “certas” e então todos dizem as mesmas coisas do dia anterior, da semana anterior, do ano anterior.

São os cientistas, especialistas e peritos, aos quais se juntaram os “puristas”, que num dia dizem estar contra a vacinação de jovens e no outro já não estão. A liberdade de expressão acaba quando, no mundo da chamada ciência, a política consegue fazer emergir uma posição claramente dominante, que anula todas as outras.

Todavia, tal como a mentira, a farsa também tem pernas curtas e a comprová-lo está o facto de o “país mais vacinado do mundo” não confiar na vacina: dele e da dos outros, claro. Portanto, para além das máscaras obrigatórias, do certificado digital, dos testes negativos, incluindo para os vacinados, são exigidos testes negativos a qualquer pessoa que entre em território nacional por terra, mar ou ar. Cidadão da UE ou não, pouco importa: apesar dos 88% de imunizados, em menos de um mês passamos do “nós já ganhámos a este vírus” para o “não importa o sucesso da vacinação”.

A nossa tragédia é a de não sabermos quando acaba este cínico jogo do ganso, uma vez que o Governo decidiu continuar a vincular a liberdade dos cidadãos a uma mentira, a saber: a um certificado digital inútil, quando não nocivo se associado a uma segurança que não é efectivamente garantida pelas duas doses da vacina, como ilustra o caso zero da Ómicron em Portugal. Na verdade, nem com três ou trinta doses, conforme relatam várias pesquisas publicadas em revistas científicas – todas ignoradas pelo Governo e autoridades de saúde – com especial destaque para estudo da Ariel University, publicado na semana passada no British Medical Journal, que revela o declínio gradual da proteção das vacinas após três meses. Em Israel, pelo contrário: poucas horas depois da publicação do estudo, o primeiro-ministro Naftali Benett anunciou que Telaviv estava “a um passo da emergência”, caso não fosse administrada uma quarta dose (recorde-se que a terceira foi administrada em Agosto).

Em suma, se fosse o vírus a ditar as regras do jogo, as autoridades de saúde já teriam trabalhado muito para acelerar os recalls para a terceira dose e o primeiro-ministro abandonado a névoa paternalista, mas isso implicaria reconhecer o fracasso de toda a estratégia adoptada. Então há que manter a farsa, com raciocínios cada vez mais bizarros: “a vacinação vale a pena”, mas é preciso “reforçar o esforço de vacinação” devido “à época festiva”. Nenhum jornalista presente na conferência de imprensa pensou em chamar uma ambulância, pelo contrário: só abrem a boca para o questionar sobre a possibilidade de virem a ser adoptadas medidas suplementares. A vacina tornou-se um acto de fé inabalável. Em actos de fé, não faz sentido fazer perguntas. É o lema fascista aplicado à saúde, “acreditar, obedecer, lutar”.

Daqui resulta, que o problema nunca foi o dos portugueses que não estendem o braço em nome da Pátria, ou das futuras Antígonas que terão de escolher entre proteger os filhos ou a cidade. São ridículas, aliás, as vozes que continuam a descarregar as suas frustrações em cima dos “negacionistas” – uma espécie de homem branco de Pascal Bruckner. Este assunto ficou resolvido no artigo de Günter Kampf, publicado na revista The Lancet, no qual explica que “o risco de contágio para as pessoas vacinadas começa a aumentar noventa dias após a segunda dose”. O problema é a perda de eficácia das vacinas e o facto de a vacinação em massa favorecer a selecção de variantes mais resistentes ao vírus.

Mas se considerarmos que a campanha de vacinação decorreu antes ou durante o Verão, quantos milhões de potenciais infectantes circulam com um certificado digital que nada diz sobre o seu estado de imunização? E se a isso acrescentarmos o facto de apenas oitocentas mil pessoas terem recebido até ao momento a dose de reforço, que outra condição nos resta senão aquela do jogo do ganso? Então eu me pergunto para onde foi a variante inteligente, os jornalistas, intelectuais e constitucionalistas livres, dotados de espírito crítico, mas animados por um forte compromisso civil.