Ligar para a Saúde24. Esteve em contacto, mesmo afastado, com máscara e numa sala grande, com uma pessoa que dois dias mais tarde verificou que estava infectada. São feitas umas perguntas automáticas que, com o teclado do telefone, se vai respondendo sim ou não. Somos atendidos. Fazem as mesmas perguntas. A última pergunta: esteve a mais de dois metros? Pensa-se que sim, mas não se tem a certeza, sim, devia-se ter, mas não se tem a certeza. É recomendado o isolamento de 14 dias mas a contar do dia do contacto para o Saúde24. Mas qual é o sentido disso? O contacto foi há mais de quatro dias. Não pode ser de outra maneira, respondem. Será contactado pelo delegado de saúde nos próximos três dias, prometem. Os dias passaram e não houve nenhum contacto. Nada aconteceu, o alarme, foi falso. Mas é inevitável pensar: e se fosse verdadeiro? É preciso acreditar que teria sido diferente, mas teria sido também necessário mais um contacto com a Saúde24.

Além da pandemia, que é aterradora, o que mete mais medo é a percepção de que a situação está fora de controlo. Fazem-se anúncios de iniciativas que pensávamos já estarem a ser concretizadas, como a constituição de equipas de rastreio. Prometia-se em meados de Outubro reforçar as equipas de rastreio . No início de Novembro, o Público noticia que os militares vão ajudar nos rastreios e na semana passada sabemos que as Forças Armadas vão disponibilizar 500 pessoas para os rastreios, além de médicos e hospitais de campanha. A última notícia é que o Governo vai mobilizar 300 agentes de protecção civil e já identificou 800 funcionários públicos que podem fazer, em casa, rastreios. Veja-se bem a quantidade de anúncios sem que se consiga ter a certeza de que se está, de facto, a fazer o que se anuncia.

E quem fala de rastreios, fala da contratação de médicos e enfermeiros, que suscita uma guerra de números que os profissionais de saúde devem olhar com toda a perplexidade. Não se consegue sequer perceber porque é tão difícil contratar pessoas. Não existem? É o processo burocrático que o impede? Falta dinheiro? No debate da proposta de Orçamento do Estado na generalidade, o ministro das Finanças e o BE envolveram-se numa guerra de números que não beneficia ninguém. Esta semana o Público divulgou números a mostrar que, de facto, são menos os médicos. Mas interessa pouco se são mais ou menos os profissionais de saúde, interessa sim perceber se são suficientes. E não parecem ser, até pela exigência que agora se lhes vai fazer, de não poderem sair do SNS nem ter férias.

Todos sabemos que a situação é muito difícil. Quem segue os dados sabe que estamos agora numa situação muitíssimo mais grave do que na Primavera, quando ficámos quinze dias em casa. Mas a gestão da situação parece caótica, sem dados e sem meios, como se a pandemia tivesse começado agora. Não se percebe porque é que o Governo apenas recomeçou agora as reuniões públicas com os técnicos de saúde, quando estas podem ter um contributo muito importante para as pessoas em geral perceberem e acreditarem que a situação é grave. Percebe-se ainda menos que se lancem dados para fundamentar decisões, que se sabem impopulares, que no espaço de pouco mais de uma semana são desmentidos.

Ver o primeiro-ministro fundamentar a sua declaração sobre os contágios familiares com base em notícias de jornais durante a conferência de imprensa de anúncio de novas medidas que fez no sábado, dia 22 de Novembro, é no mínimo confrangedor. Como se sabe, os técnicos disseram na reunião que decorreu no Infarmed, que só 10% dos casos de contágio ocorrem dentro do ambiente familiar. António Costa tinha dito que isso acontecia em 68% dos casos no dia 7 de Novembro. E quando confrontado com a contradição, apresenta-nos, no sábado, notícias de jornais. Foi com base nas notícias que tomou a decisão? Não saberá o Governo que as notícias não são estudos científicos, expõem a diferença, o “outlier”, o “homem que mordeu o cão”?

Não é assim que vamos conseguir convencer as pessoas que a situação é grave e que temos de ter ainda mais cuidado do que na Primavera, que temos, tanto quanto possível, de estar fechados em casa. Mais uma vez se sublinha que a situação não é fácil e todos os governos, de todo o mundo, enfrentam neste momento dificuldades. Mas as medidas que se estão a adoptar são difíceis de compreender, não apenas porque não têm sido devidamente fundamentadas, mas também porque variam ao longo do território e têm demasiadas excepções.

Veja-se, por exemplo, o teletrabalho. A última legislação publicada não é clara o suficiente para as empresas que não o desejem, mas possam fazê-lo, optarem pelo teletrabalho. Bastava dizer-se que o teletrabalho é obrigatório sempre que a actividade o permita. E aplicar a todo o território. Acabou por ser isso que o primeiro-ministro disse no Sábado, ao anunciar que vão reforçar as operações de fiscalização para verificar se se está a cumprir o teletrabalho.

O maior receio em relação ao que se está a passar é que o Governo esteja a actuar a olhar para as sondagens, levando até em conta a preocupação manifestada pelo Presidente da República na entrevista à RTP, quando disse que quem está no poder tem perdido eleições. Neste momento não se pode pensar em eleições, nem mesmo o Presidente. Tem de se ser suficientemente corajoso para esquecer as eleições e tomar as medidas que a ciência recomenda. Repare-se que os países que estão a controlar melhor a pandemia são aqueles que seguem as recomendações dos cientistas, como se pode ver neste gráfico da “The Economist”.

Claro que se deve procurar o apoio da população em geral, explicando as medidas com dados fornecidos pelos cientistas. Não é apenas por calculismo de quem se quer manter o poder que se deve procurar o apoio. É também pelos tempos perigosos que estamos a viver, com o crescimento dos populismos, que têm na actual conjuntura um terreno fértil para conquistarem eleitores. Mas a luta contra o populismo faz-se com informação credível, fundamentada. E sem medo de adoptar medidas que possa fazer perder as eleições.

Os nossos exemplos históricos, de coragem sem pensar em eleições, de Mário Soares e de Pedro Passos Coelho, aconteceram por causa de crises financeiras. É altura de António Costa mostrar que também não tem medo dos eleitores. É preciso não ter medo e adoptar as medidas que forem necessárias para combater a pandemia. Ou medo teremos de ter todos nós porque o Governo tem medo de governar.