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Esta semana voltou-me à memória o extraordinário filme de Robert Zemeckis com um desempenho portentoso de Tom Hanks que parece talhado para estes papéis onde tudo gira à volta de um único personagem. Mas o motivo inspirador que me devolveu à memória do “Náufrago” envolveu desta vez dois personagens: o veterano Eduardo Cabrita, sinceramente a precisar de uma ilha para descansar tantos são os rombos que dá no barco socialista e o jovem Francisco Rodrigues dos Santos que, querendo recuperar a acutilância que o CDS deixou de ter, pode, de verdade, não escapar ao naufrágio eleitoral que alguns preconizam para o seu partido.

Tudo isto para falar, outra vez, da reorganização da direita e da importância crescente de existir um espaço alternativo a um partido socialista farto de si próprio e cada vez mais dependente do bombeiro António Costa.

Se é verdade que os partidos tradicionais deste espaço político não aproveitam o tradicionalismo da sua base eleitoral, hoje mais atreita à mudança e desconfiada do “mais do mesmo”, parece também clara a ideia de que nenhuma das forças de direita tem tido o suficiente impulso mobilizador para retirar a sua putativa base eleitoral do mutismo de outros tempos que lhe deram o epíteto de “maioria silenciosa”.

A maioria das pessoas convictamente de direita, num tempo de poucas convicções, faz um longuíssimo introito para explicar que já lhe passou pela cabeça votar no Chega, para abandonar higiénica e rapidamente essa ideia à mínima resistência ou ligeira indignação de quem possam ter pela frente.

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André Ventura, tal como Tom Hanks, é um “one man show” que diz com desassombro aquilo que outros dizem de boca pequena, ou só se atrevem a pensar quando estão muito sozinhos. Mas a verdadeira fragilidade do Chega é quando o partido já não chegar para eleições onde, pela natureza das funções escolhidas, seja preciso mais do que um líder engenhoso e perspicaz como é, indiscutivelmente, André Ventura.

A falta de quadros do partido e a dificuldade em ir buscar à putativa base eleitoral a coragem e o comprometimento do seu líder, podem ser fatais ao Chega no futuro, porque as lógicas repartidas do exercício do poder exigem a existências de elites convincentes. Púnhamos os olhos no Vox, gostando-se ou não, e temos o exemplo de um verdadeiro impulsionador de uma nova geração de políticos, bem preparada e com uma intervenção esclarecida e robusta.

No lado do status quo da direita, só descortinamos más notícias: um Rui Rio com opções frouxas e populistas nas autárquicas, a tentar endurecer um discurso que contrasta com uma ação poltica de assistência ao governo e subserviência perante o verdadeiro líder da direita que é Marcelo Rebelo de Sousa.

Resta a Iniciativa Liberal. Com quadros interessantes, mas sem o instinto do Chega para um protesto que permita a catarse política e social. O que falta ao Chega existe na Iniciativa Liberal e vice-versa.

E assim, quase parece que é, pelo menos, possível um entendimento para uma nova geração que, como Isabel Díaz Ayuso em Madrid e provavelmente em toda a Espanha, traga uma frescura verdadeiramente alternativa á direita portuguesa!