Quando Manuel Pinho se sentou na comissão parlamentar, na semana passada, não subsistiam dúvidas acerca da irrelevância do que ali iria dizer. Antes da realização da audição, os avisos haviam sido dados e os deputados alertados: Pinho não se pronunciaria sobre as suspeitas de corrupção de que é alvo. Foi o que aconteceu e, sim, foi uma vergonha, cuja desfaçatez indignou muita gente. Mas foi uma vergonha anunciada e com pouca relevância política. E que, pior, abafou o que de politicamente relevante aconteceu: o silêncio cúmplice do PS durante toda a audição.

Dizer, logo à partida, que as declarações de Manuel Pinho não tinham relevância política não serve para retirar um pingo de indignidade ao comportamento do ex-ministro, que foi um desafio à autoridade das instituições democráticas e um desrespeito pelo escrutínio público – como escreveu João Miguel Tavares, Pinho foi ao parlamento gozar connosco. Dizê-lo também não serve para atenuar a responsabilidade dos deputados no golpe de teatro – ao deixarem Manuel Pinho dissertar sobre políticas públicas de energia durante três horas, os deputados converteram a audição numa lavandaria (expressão certeira de Pedro Sousa Carvalho) da imagem pública do ex-ministro. O ponto que sobra é o sublinhar do lógico: se se sabia que não haveria respostas de Pinho, o foco da audição deixou de estar nas declarações do ex-ministro e passou a estar nas questões colocadas pelos deputados: quem é que mete o dedo na ferida e quem é que se cala?

Perante um caso de corrupção cuja gravidade para o regime só rivaliza com o de José Sócrates, era importante perceber como é que os partidos se posicionam e até onde estão dispostos a ir no apuramento da verdade. Nomeadamente o PS, como sempre assinalou Ana Gomes, por ser o partido que deu a Manuel Pinho a plataforma política que o fez ministro e através da qual este montou o seu esquema de corrupção. A audição serviu para isso. E, nesse sentido, foi bastante esclarecedora e útil: o PS foi o único partido a abster-se de questionar Pinho sobre as suspeitas de corrupção, refugiando-se no texto do requerimento parlamentar e posicionando-se do lado errado da barricada. Assim, de um lado ficaram aqueles que fazem perguntas, exigem esclarecimentos e reclamam a verdade (PSD, CDS, PCP, BE). E, do outro lado, instalaram-se Manuel Pinho (que recusa responder), o PS (que prefere não perguntar) e José Sócrates (que, entretanto, surgiu em defesa de Pinho). Era fundamental esta separação das águas entre quem busca a verdade e quem foge dela. Ficou feita.

Que o PS tenha tomado essa opção justificando-se com o requerimento da audição – argumento que só um ingénuo levaria a sério – apenas reforça a má-fé dos socialistas neste caso. Quem conhece o funcionamento dos trabalhos parlamentares sabe bem que, numa audição, os deputados perguntam o que quiserem perguntar, ultrapassando vastissimamente e quase sempre os temas que justificaram inicialmente as audições e que constam dos respectivos requerimentos. É assim que funciona e as regras são simples: os deputados perguntam o que quiserem, quem for chamado à audição responde como achar adequado. Portanto, tem tanto significado político Manuel Pinho ter-se recusado a responder aos deputados como o PS ter optado por não o questionar acerca do único tema que ali importava: a sua relação com Ricardo Salgado, os pagamentos ilícitos que recebeu do GES e as suspeitas de corrupção que se ergueram contra o ex-ministro.

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