PSD

O Rio vai nu /premium

Autor
  • Sebastião Bugalho
425

O modo como Rio faz oposição é inteiramente inconsequente. Rio esconde a sua posição sobre determinado assunto até este ser decidido – e depois da decisão ser tomada pelo governo afirma que é contra.

A expectativa em torno da liderança de Rui Rio não era inteiramente desprovida de senso. Durante a disputa interna que viria a vencer, o seu discurso tocou em pontos certeiros sobre o estado do país e da política nacional. Não é mentira que o mundo partidário necessite de um “banho de ética”; não é mentira que as forças sociais-democratas na Europa se encontrem em risco de vida; não é mentira que Bruxelas tenha comportamentos excessivamente burocratizados e distantes dos interesses de cada Estado-membro. Tudo isto correspondia a um diagnóstico que Rio apresentava há vários anos, de forma tão convicta que por vezes quase populista. Mas era levado a sério – pela imprensa, pelos militantes do seu partido e até por quem não o apoiava. Passos elogiou os seus mandatos na autarquia do Porto; Cavaco Silva classificou-o como “um fazedor”. Ou seja, Rui Rio era respeitado e proprietário de um capital político significativo e já antigo. A frase mais repetida durante as diretas terá sido: “Independentemente de quem ganhar, estamos bem entregues. Podem ficar descansados”.

O facto é que, menos de um ano depois, tudo isso caiu por terra.

Os primeiros que Rui Rio desiludiu foram aqueles que acreditaram nele. Aqueles a quem ele prometeu seriedade, oferecendo depois trapalhada. Aqueles a quem ele prometeu patriotismo, falando depois em alemão. Aqueles a quem ele prometeu centro-esquerda, dando depois centro-nada. Aqueles a quem ele prometeu moral, preferindo depois relativismo. Acreditem nisto: o Rui Rio que foi presidente da Câmara destruiria o Rui Rio que ainda é presidente do PSD. Um homem que procurou distinguir-se pela excecionalidade durante toda a sua carreira política acabou a ser distintamente medíocre. Um homem que toda a vida foi olhado como institucionalista rendeu o seu partido ao adversário, comprometeu o papel do parlamento nacional, do seu grupo parlamentar e da responsabilidade dos seus deputados. Sacrificou princípios para proteger amigos, segurou gente que mentiu sobre a sua presença e sobre o seu currículo, convidou outros para trabalhar consigo cujo historial de processos em tribunal envergonharia qualquer organização. Não mobilizou, não melhorou, não cresceu. E compreendeu, até agora, muito pouco.

O modo como faz oposição é inteiramente inconsequente. Rio esconde a sua posição sobre determinado assunto até este ser decidido – e depois da decisão ser tomada pelo governo afirma que é contra. Foi assim com a não-recondução da Procuradora-Geral da República, cujo mandato criticou primeiro e elogiou depois, e foi assim com o chumbo do Orçamento do Estado, que recusou revelar para depois anunciar dizendo que é assim “há três anos”. Nunca fala antes e nunca acrescenta nada depois. Isto faz com que não possa capitalizar quando o governo vai de encontro à sua recomendação, e com que não possa dizer que avisou quando a decisão contrária se mostrar incorreta. Resumindo, parece feito para não resultar.

Hoje, a questão já não é se conseguirá ganhar, é por quanto irá perder. A questão já não é se vai ficar, é quando irá sair. E a questão já não é quem é o senhor que se segue, é se ainda haverá PSD para alguém liderar a seguir. Meu caro leitor, ser contrapeso de um regime é uma das maiores responsabilidades em democracia. Rui Rio, está visto, não tem aptidão para lidar com ela. É rei sem reino nem castelo. Vai nu.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Revolução

2019 e a natureza das revoluções /premium

Sebastião Bugalho

Em 2015 Portugal saiu das legislativas num clima “polarizado” e “crispado”. Quatro anos depois todos os partidos com assento parlamentar, da esquerda à direita, acabaram a aprovar as metas de Bruxelas

PSD

A tentativa de riogicídio  /premium

Sebastião Bugalho

Montenegro oferece a Rio o que ele não tinha: uma causa mobilizadora. Os autocratas necessitam e beneficiam de um inimigo externo e Rio, que nunca quis ser anti-Costa, cultivará o anti-montenegrismo.

Governo

Pode alguém pedir que se aja com escrúpulos?

Rita Fontoura

A falta de escrúpulos está a destruir o nosso país. Fomos enganados e estamos a ser enganados. É algo que não salta à vista e por isso engana, o que não espanta já que quem nos governa teve bom mestre

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)