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Atentados de Paris

As origens tolerantes da intolerância

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Hoje, consideramos ofensivo tudo aquilo com que não concordamos ou de que não gostamos. A indignação é uma indústria. Nas redes sociais, milhares de pessoas circulam à espera de serem ofendidas.

Hoje, o Charlie Hebdo volta à carga: com menos páginas, menos colaboradores, mas com uma tiragem maior e com a inevitável caricatura de Maomé (por Luz, um dos sobreviventes). Esta insistência maometana dividiu imediatamente as opiniões (o debate no Guardian é um bom exemplo): há quem ponha a liberdade de expressão acima de tudo, mas também há quem acuse o Charlie Hebdo de usar a liberdade de expressão para atacar uma religião. E se fossem judeus ou africanos? Aqueles que “não são Charlie” não ousam, claro, a justificar os assassinatos; mas lá vão moendo a “ofensa” e a “provocação”. Não vale a pena discorrer sobre a liberdade de expressão sem perceber esta atitude.

Uma das questões mais interessantes da sociedade ocidental é a de saber como é que a tolerância gerou a intolerância. Inicialmente, a ideia era definir um espaço público onde todas as opiniões pudessem circular e onde, consequentemente, nada fosse tabu. Iconoclastas como os do Charlie Hebdo alargaram, desde a célebre década de 1960, as fronteiras do que se podia dizer e mostrar. Tudo correu bem enquanto o alvo da irreverência foram os poderes estabelecidos: os políticos, o cristianismo ou a “moral burguesa”.

Mas enquanto o “establishment” era exposto à mais veemente sem-cerimónia, eis que os grupos identitários “libertados” na mesma época começavam, em contra corrente, a reivindicar o direito de serem protegidos da verrina e da paródia a que os chefes de Estado estavam agora sujeitos. Não lhes bastava corrigirem discriminações jurídicas e de facto. Pretendiam ainda eliminar todos os seus vestígios, através da censura de qualquer expressão que remetesse para velhas perseguições ou rebaixamentos, independentemente da intenção com que fosse usada.

A tolerância e a igualdade desaguaram assim no “direito de não ser ofendido”. Subitamente, a primeira luta de uma “minoria” não é para dispor dos mesmos direitos dos outros cidadãos, mas, em nome de antigas discriminações, adquirir privilégios especiais, tornando-se mais ou menos sagrada e intocável. Na prática, tudo isto tem sido um meio de os porta-vozes de grupos identitários adquirirem poder de chantagem e, por aí, acesso favorecido às instituições e aos recursos públicos. Por isso, a extrema-esquerda ocidental fez-se imediatamente campeã de muitas destas causas, não por qualquer consideração ou estima, mas por simples oportunismo político: à falta de classe operária, servem as minorias de carne para canhão.

O “politicamente correcto” é um dos seus efeitos. Começou nas universidades anglo-saxónicas, hoje patrulhadas por milícias bem-pensantes, sempre a farejar injúrias e a desenterrar desrespeitos. Na Grã-Bretanha, como explicava o Spiked este fim de semana, o Charlie Hebdo não seria possível. Mas expurgar o presente não basta para alguns dos novos fariseus: é preciso também corrigir o passado, e de repente é Mark Twain, porque usou uma certa palavra, que aparece editado para “uso do delfim”.

Esta mentalidade inquisitorial está hoje generalizada através da adopção universal do direito de não ser ofendido. De acordo com o novo código, estamos habilitados a considerar ofensivo tudo aquilo com que por acaso não concordamos ou de que não gostamos. A indignação tornou-se assim uma indústria. Nas redes sociais, milhares de pessoas circulam à espera de serem ofendidas: são os turistas do ódio. Cá fora, a imprensa aguarda as regulares erupções de repúdio e raiva para obrigar a instituição ou a personagem alvejada a percorrer a via sacra do constrangimento e da humilhação. Subitamente, eis as sociedades mais livres de sempre caídas no pântano do mais pegajoso puritanismo, que a tudo dá uma importância desmesurada: qualquer infelicidade de expressão justifica um pedido de desculpas. Nunca a irrelevância fez tanto barulho.

É verdade: o nosso mundo foi feito desta maneira, à custa da domesticação de atitudes e do policiamento da linguagem — à mesa, no salão, na rua, na escola, na assembleia. Mas é por isso que a liberdade de expressão é valiosa, porque significa, intelectualmente, um dique à fatal pressão do conformismo e da normalidade. Não existe para proteger as opiniões consensuais e os bons sentimentos, mas as opiniões e os sentimentos menos recomendáveis. Como disse Michel Houellebecq, o direito à liberdade de expressão não faz sentido, se ao mesmo tempo for proibido dizer isto e aquilo. Mas quer isso dizer que não há limites, como também reclama Houellebecq? Há, claro: os limites da lei.

Se me caluniarem ou apelarem à violência contra mim ou contra qualquer grupo a que eu pertença, posso recorrer à lei, que protege o direito ao bom nome e à integridade física. Mas se me ferirem o gosto ou a sensibilidade, tenho outra solução: não vejo o filme, não ouço o disco, não compro o jornal, não vou ao site. Exerço a minha liberdade. É a única maneira: outra qualquer receita tiraria todo o sentido à liberdade de expressão, e obrigar-nos-ia a admitir que a experiência histórica das sociedades mais livres de sempre teria servido apenas para apurar que, no fundo, ninguém se dá bem com a liberdade.

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