Poucos momentos simbolizariam tão bem a capitulação – moral e política – das nossas instituições como o ocorrido esta semana, no Palácio de Belém. A conferência de imprensa que anunciou a vinda da fase final da Champions League para Lisboa, no terceiro aniversário da tragédia de Pedrógão Grande, foi um dos mais vergonhosos atos que o regime protagonizou na sua história recente. Estavam lá todos: o presidente da Assembleia da República, que descartou a utilização das máscaras que o Parlamento depois tornaria obrigatórias; o primeiro-ministro, que foi de dizer “fiquem em casa” para proclamar que “não podemos esperar que passe”; o ministro da Economia, que cativa nos apoios às empresas o que o ministro das Finanças cativou nos serviços públicos; o presidente da Câmara de Lisboa, que lida com o maior foco pandémico do país, mas tem tempo para eventos desportivos; o ministro da Educação, que vai abrir o país a um torneio de futebol, mas que continua a fechar as escolas às crianças portuguesas; o secretário de Estado do Desporto, que utilizou as suas funções para indicar a empresa de um amigo, mas que não se demite há mês e meio; o sr. Presidente da República, que discursou a favor das comemorações do 25 de Abril, esteve sentado na reunião que decidiu a manifestação do 1 de Maio, mas veio agora apresentar o modelo reduzido do 10 de Junho como aquele que sempre defendeu.

Não há, ao fim de um trimestre de pandemia, ponta por onde se lhe pegue. É, perdoem-me a coloquialidade, uma bandalheira. O regime vê-se confrontado com o prenúncio da maior crise económica da sua existência, com a imprevisibilidade de um vírus global ainda sem vacina, com alterações profundas nos equilíbrios de poder europeus e ocidentais, com a ascensão de um partido anti-sistémico no seu seio; e como responde? Irresponsabilidade, irresponsabilidade, irresponsabilidade. Somos o único país da zona-euro que perde um ministro das Finanças e, num cenário destes, o aplaude e promove. O único, sem dúvida, que entregou o plano de recuperação económica a um gestor petrolífero sem responsabilização ou escrutínio. E também o único que liga a televisão numa data que devia ser de luto nacional para encontrar as mais altas figuras de Estado juntinhas, batendo palmas a jogos de bola. Um “momento único e irrepetível”? Um “prémio aos profissionais de saúde”?   Terão endoidecido? Ou quererão integrar a comissão de honra de André Ventura?

No próximo ano, muito se escreverá sobre a evolução do fenómeno populista e da dita direita inorgânica em Portugal. O que provavelmente não será tão discutido é a origem desse fenómeno.

Se definirmos um movimento político inorgânico como aquele que existe sem base institucional ou organizativa, é claro que o surgimento de Ventura se insere nesse quadro. Mas estará sozinho nesse modo de fazer política? Não foram os últimos cinco anos de política portuguesa exatamente isso? A coligação de poder Costa/Marcelo não foi, verdadeiramente, anti-institucional – tanto na presidência dos afetos, como na rutura que a “geringonça” representou com a história do PS? Haverá dupla mais informal, intuitiva e arbitrária do que a do atual primeiro-ministro com o atual Presidente da República? E não foi justamente isso que a pandemia expôs? E que aquela singular moldura de quarta-feira, aplaudindo a vinda da Champions como episódio quiçá tão marcante quanto a chegada à Índia, simbolizou?

Foram, afinal, os senhores que mataram as instituições ou elas que estavam já esgotadas? E o que revela isso sobre a agenda de mudança de regime de André Ventura? Não será a direita inorgânica filha de uma governação igualmente inorgânica? Não será o regime o maior mandatário do movimento contra si mesmo? E não éramos nós capazes de melhor do que isto? Em janeiro, nas presidenciais, como é que se derrotará um candidato anti-sistémico se o sistema perdeu, a cada gesto e decisão, as instituições em que assentava?

Exagero?

Liguem a televisão.