Parece que a directora do SEF, que se demitiu nove meses após o assassínio, sob a sua responsabilidade, de um cidadão ucraniano, vai para Londres ganhar 12 mil euros/mês num cargo criado à medida. É um castigo justo. Ou o castigo possível num regime onde as infracções têm consequências um bocadinho desiguais. Se um sujeito não pagar as dívidas ao fisco, o sujeito está desgraçado. Se uma socialista com funções relevantes no Estado assobiar após a tortura cobarde e fatal de um homem, quem se desgraça é este: a socialista avança três casas para um emprego airoso a cuidar dos portugueses que vivem no Reino Unido, urgentemente carecidos dos cuidados dela. Enquanto não fechar os olhos a um genocídio entre a comunidade, a dona Cristina Gatões ficará descansada por lá. Em caso de genocídio, o importante é que não apareça nas notícias. Se aparecer, o PS arranjará maneira de punir devidamente a senhora.

Num país de sonho, a dona Cristina Gatões, os inspectores psicopatas e os colegas que calaram o crime seriam entregues na fronteira ucraniana à família alargada do falecido e à claque do Dínamo de Kiev. O ministro da Administração Interna estaria no olho da rua, sem perspectivas de integração no mundo civilizado. E o governo cairia com estrondo nas sondagens e depois literalmente.

Num país digno, a dona Cristina Gatões sairia do SEF para um tribunal, e não para exercer direito. O dr. Cabrita voltaria a tirar fotocópias no Largo do Rato. E o próprio governo teria de patrocinar imensa “publicidade institucional” para escapar do escrutínio dos “media”, embora não escapasse do escrutínio dos eleitores.

No beco esconso em que se enfiou Portugal, a dona Cristina Gatões segue para o Harrods, o dr. Cabrita implementa um “botão de pânico” para que os torturados possam desopilar antes do coma, e o governo nem é beliscado no processo. O presidente da República, que finta o “recolhimento” para ocupar confeitarias, profere umas banalidades sobre o assunto, tão tardias que o humilham.  Os “activistas” do costume manifestam-se no Rossio contra a policia americana e a opressão israelita. Os “media” discutem o racismo de um árbitro da Transilvânia. O coordenador do plano de vacinação anuncia a uma nação ansiosa o apoio à candidatura presidencial de uma leninista. O adjunto da dona Cristina Gatões, que por acaso tutelava o centro provisório onde se martelou o ucraniano, sobe a director. E a viúva de Ihor Homeniuk, que pagou a transladação do cadáver, compreensivelmente não entende o que aconteceu, nem a barbárie organizada que passa por normal neste cantinho da Europa.

O episódio mostra três coisas. A primeira é a inutilidade dos proverbiais pedidos de demissão, com que a oposição indígena finge fazer oposição. Os pedidos eram inúteis em democracia e são ofensivamente ridículos no sistema sombrio em que vivemos. Como as “personalidades” em questão são profundamente irrisórias, peúgas com olhos cujo currículo se esgota nos serviços prestados à causa socialista, é escusado enxotá-las do “trabalho” que desempenham. No máximo, consegue-se promover a peúga com olhos a um “trabalho” mais bem remunerado e promover a peúga com olhos seguinte ao “trabalho” da anterior. No máximo, os resmungos em curso para enxotar o dr. Cabrita vão colocar o herói das golas antifumo numa prateleira de “prestígio”, a troco de outra criatura de semelhante grandeza moral. Provas da grandeza? A criatura será convidada a integrar o presente governo; a criatura aceitará.

A segunda coisa evidenciada pelo homicídio de Ihor Homeniuk é a desumanidade dos senhores que mandam. Não é um fenómeno novo. A desumanidade foi flagrante em Pedrógão, é absoluta face aos doentes abandonados em prol da salvação do SNS e é vasta para com aqueles que as brincadeiras do “confinamento” arruinaram. Ihor Homeniuk é só um exemplo, para cúmulo singular e “remoto”, dos esforços a que esta gente se dá para que as mortes alheias não lhes perturbem a popularidade. As mortes propriamente ditas merecem-lhes radical indiferença: o eventual custo eleitoral das mortes é motivo para reuniões alvoroçadas de modo a controlar os “danos”.

Para felicidade dessa deplorável gente, o custo sai barato e os danos nunca são graves. A terceira coisa demonstrada pelo tristíssimo fim do ucraniano é a impunidade dos socialistas no poder. Nem falo das tramóias, dos compadrios, dos saques, das falências. Fiquemos pelo essencial: por fogo, negligência, decreto ou pancadaria, os cidadãos vão tombando sem que algum dos culpados directos, indirectos ou simbólicos pague por isso. Não há, nos culpados, sequer uma alminha a sofrer uma pequenina fracção do que sofreram as pessoas que morreram e as pessoas que as choraram. E a alminha que realmente conta passeia incólume, risonho e luzidio pela destruição que semeia, habilidade aperfeiçoada à época em que era a sombra do “eng.” Sócrates.

Engraçado. A alminha sobreviveu a esse governo por não ser o respectivo líder, e safa-se no actual por sê-lo. Na altura, não tinha obrigação de saber. Agora, não tem obrigação de saber. E tinha. E tem. Esqueçam a sujeita do SEF, o balofo das golas, a Martinha chorosa e restantes descartáveis sem autonomia nem interesse. Essas nulidades não caem do céu, caem do PS e obedecem a um único indivíduo. O indivíduo que, além do empobrecimento material a galope, inspira uma pobreza de espírito sem grandes precedentes na nossa sociedade dá pelo nome de António Costa.

O dr. Costa é um catálogo rechonchudo de vícios. Em simultâneo, exibe uma espécie de virtude: não se importa de ser assim. E, misteriosamente, poucos se importam que ele o seja. O dr. Costa não precisa de testar a Covid, dado que nada lhe pega. Aliás, já testou ameaças públicas a um velhinho e as repercussões foram nulas (excepto para o velhinho, logo desmascarado como um “facho”). Ao dr. Costa os portugueses toleram tudo. Desvairada e genuinamente, muitos portugueses até o respeitam. Mas convém os portugueses não se convencerem que a inversa é verdadeira: o dr. Costa respeita-os tanto quanto respeitou Ihor Homeniuk, que há nove silenciosos meses morreu sozinho num lugar estranho – para ele e, cada vez mais, para mim.