PSD

Rio poderia ter liderado o PSD (e não quis) /premium

Autor
  • Sebastião Bugalho
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Anos e anos de suspense e alegada preparação para o cargo – e a frescura da chegada de Rio durou escassas semanas. A sua eleição para o cargo celebra um ano e a verdade é que foi um ano desastroso.

Não deixa de ser irónico que a liderança de Rui Rio tenha durado menos tempo do que aquele que se esperou pela liderança de Rui Rio. Anos e anos de suspense e alegada preparação para o cargo – e a frescura da sua chegada durou escassas semanas. Este mês, a sua eleição para o cargo celebra um ano e a verdade é que foi um ano desastroso – tanto para o cargo como para o incumbente. Quando falo «em tempo de liderança» quero dizer tempo efectivo de revigoração, iniciativa e mobilização. E esse, creio que poucos discordarão, foi curto. O ponto deste texto é simples: não tinha de ter sido.

Se Rio venceu as diretas contra Santana em janeiro do ano passado, começou a perder o partido em fevereiro, no congresso. Eu lembro-me: estava lá. Rio vencera a eleição interna, mas Luís Montenegro fora ganhar a reunião magna, na antiga FIL. Desde aí, a sucessão de asneiras foi interminável e é já conhecida. O mais curioso de tudo isso – além de ninguém esperar que fosse tão mau – é a facilidade com que Rio poderia ter hoje o partido na mão. Tendo feito as coisas de maneira diferente, Rui Rio seria hoje um credível candidato a primeiro-ministro – algo que manifestamente foi deixando de ser ao longo do último ano.

E como?, perguntará o meu caro leitor. Ora, regressemos ao apoteótico discurso de Montenegro no último congresso. Foi em tudo uma intervenção de pré-candidatura (“não pedirei licença a ninguém”) e de desafio (“não fui eu que estive dez anos à espera”) e foi aplaudida justamente por isso. Foram 24 minutos de política pura e dura. Rio vacilou e procurou recuperar a sala subindo ao palco e anunciado os membros da sua direção. O tiro saiu-lhe pela culatra assim que o nome de Elina Fraga foi enunciado. Mas Rio poderia ter feito diferente. Poderia ter chamado Montenegro de volta ao palco e dito: «Luís, tudo o que disseste tem o seu sentido. Serviste, como lembraste, a liderança parlamentar num tempo muito difícil para o partido e para o país. E é apelando a esse patriotismo e sentido de dever que te peço que fiques. Não saias do Parlamento. Fica. Regressa à liderança de bancada. Ajuda-me a derrotar António Costa e o governo do Partido Socialista». Perante o PSD em peso, Montenegro não teria grande margem para escapar ao convite. Rio, assim, teria não apenas mantido a união do grupo parlamentar como teria também salvaguardado a união do seu partido, capturando a oposição interna. Hugo Soares e Abreu Amorim, por exemplo, dedicariam mais do seu tempo a continuar o seu bom trabalho do que a criticar a atual direção.

Evidentemente, Rui Rio não deveria ficar por aí. Em vez de iletrados sem qualquer gota de ética, poderia ter indicado Hugo Carneiro (seu próximo, ex-quadro do Banco de Portugal) para secretário-geral do partido, conferindo uma dinâmica jovem e competente à sua estrutura. Em áreas fundamentais como a tecnologia, a inovação e a Europa, vários quadros do PSD (como Carlos Moedas, Poiares Maduro, José Eduardo Martins ou Pedro Duarte) manifestaram solidariedade máxima com o então presidente-eleito apesar de não serem oriundos do seu círculo. Rio, no entanto, nunca os aproveitou ou promoveu como protagonistas. Até olhando para aqueles que Rio escolheu não se consegue vislumbrar um aproveitamento digno. Nomes como Tiago Moreira de Sá, Ricardo Baptista Leite, Cristóvão Norte ou Joaquim Sarmento – todos seus apoiantes e todos competentes – não se tornaram vozes ativas como mensageiros do partido. O problema foi mesmo esse: não houve mensagem, nem se incentivaram os eventuais mensageiros.

Fora do plano interno, o desperdício foi idêntico. Hostilizou-se o CDS-PP, tomando-o como adversário, quando a direita tinha tudo a ganhar em construir um projeto político credível e uno. Rio sentava-se com Assunção Cristas, assumia que os centristas são hoje a segunda força política na cidade de Lisboa e negociava uma coligação com Assunção a número 1 na capital e o ex-presidente da Câmara do Porto a número 1 na Invicta. Os grupos parlamentares possuem uma sintonia antiga e o adversário – o governo de Costa – merecia uma oposição a sério, que infelizmente não teve. Como já aqui escrevi, a direita poderia ganhar em 2019. Bastava Rui Rio ter feito tudo de maneira diferente. O meu caro leitor poderá dizer-me que o cenário descrito não passa de uma fantasia. Tem razão. Mas não deixa de ser uma fantasia mais agradável que esta realidade.

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