“Ninguém se salva sozinho”, disse há poucos dias um velho doente, à chuva, sozinho, quando a noite caía sobre uma invulgarmente vazia Praça de São Pedro. Uma imagem pungente que confirma o que desde tempos imemoriais a Humanidade sabe: que “não é conveniente que o homem esteja só” (Gn 2,18). O velho na praça é o Santo Padre Francisco. Hoje, entretanto, passam 15 anos sobre a morte de um outro homem, de um outro velho, que também muito ensinou ao mundo e que vale a pena relembrar: São João Paulo II.

Quis o acaso – e o Covid19 – que o mundo vivesse este ano a Quaresma numa agrura há muito não experimentada pelo Ocidente, em quarentena forçada “dentro de casa”. Porém, quando hoje o mundo vive em pânico e se fecha sobre si – as famílias em sua casa e os países nas suas fronteiras – por causa de uma ameaça global à saúde pública “as decisões (…) não pode[m] deixar de abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, sem-tecto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança num futuro melhor” (João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis).

Recentemente a guerra na Síria, ante uma confrangedora indiferença quotidiana do resto do mundo, matou mais de 380.000 pessoas e pôs “fora de casa” – porque ficaram literalmente sem ela – 13 milhões de pessoas. Hoje, quando escrevo estas linhas, morreram já em todo o mundo 47.287 pessoas por causa do novo coronavírus. Já na Síria só crianças morreram 22.000. Onde esteve, desde 2011, “a solicitude pelos refugiados [que] deve estimular-nos a reafirmar e a evidenciar os direitos humanos, universalmente reconhecidos, e a solicitar que também para com eles sejam efectivamente respeitados” (João Paulo II, Mensagem para a Quaresma 1990)? Onde estará agora?

Agora, por força desta pandemia, milhares de empresas fecharão, milhões de pessoas perderão o emprego, e um número ainda por estimar de famílias mergulharão na pobreza. “Como é possível que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, (…) quem viva privado dos cuidados médicos mais elementares, quem não tenha uma casa onde abrigar-se? E o cenário da pobreza poderá ampliar-se ilimitadamente se às antigas pobrezas acrescentarmos as novas” (João Paulo II, Novo Millennio Ineunte). Que resposta daremos?

O Covid19 sugou neste tempo todo o espaço mediático e marcou indelevelmente todo o espaço privado. Sugará seguidamente todos os recursos existentes, com as medidas extraordinárias para fazer face à urgência, e os recursos vindouros, com o endividamento que se adivinha para fazer face à emergência. É normal que assim seja e é desejável que assim seja, porque “se, em certa medida, todos são responsáveis por todos, cada qual tem o dever de se esforçar pelo desenvolvimento económico de todos: é dever de solidariedade e de justiça, mas também o caminho melhor para fazer progredir a humanidade toda” (João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis).

Se assim não for, hordas de radicais das ideologias – das colectivistas às nacionalistas, da esquerda à direita –, que começam já a mostrar as garras, declararão os óbitos e escreverão apressados epitáfios ao capitalismo, ao globalismo e à democracia liberal. Os mesmos capitalismo, globalismo e democracia liberal, que nos permitem enfrentar, com um conforto sem par na história da humanidade, esta ameaça. Os mesmos que nos permitem ter uma fé inabalável na ciência para a descoberta de uma vacina e de medicamentos que mitiguem os sintomas desta doença e das próximas. Os mesmos que nos permitem esperar uma mobilização da indústria para fabricar ventiladores e equipamentos de protecção individual. Os mesmos que nos garantem uma cadeia de distribuição para que não nos faltem alimentos e papel higiénico (!) em casa. Os mesmos que nos permitem exigir verdade na apresentação de factos. Os mesmos que nos asseguram escrutínio público das medidas tomadas e das consequências das mesmas. Os mesmos que nos forneceram a tecnologia que nos permite estar em contacto permanente com os que amamos e agora se encontram à distância. Os mesmos que nos libertaram para rir no meio do medo. Os mesmos que nos forjaram na convicção moral de que todos, independentemente da sua condição, merecem protecção; e que quando assim não é justamente nos permitem a indignação.

Não foram os países autoritários ou autocráticos, nem colectivistas ou socialistas, nem nacionalistas e fechados ao outro, que nos entregaram este mundo livre, próspero e confortável em que vivemos. Com falhas seguramente. Com margens de indignidade ultrapassadas seguramente. Com desequilíbrios no uso dos recursos naturais seguramente. Mas onde nunca tantos viveram tão bem e tantos aspiraram legitimamente viver melhor. Onde, para recuperar uma formulação antiga, o mais indigente vive com mais conforto que em qualquer outro período da História.

Ora se tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu (Ec 3:1), este será, pelas ameaças que enfrenta, o tempo certo para a nossa Civilização viver  a Quaresma em penitência, reconhecendo as falhas, em oração, definindo o propósito, e em conversão, mobilizando o acto. Conservando o que nos aproxima do bem; evitando o que nos aproxima do mal.

Reconhecendo que “se por «capitalismo» se indica um sistema económico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no sector da economia, a resposta é certamente positiva (…). Mas se por «capitalismo» se entende um sistema onde a liberdade no sector da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral (…), cujo centro seja ético (…), então a resposta é sem dúvida negativa.” (João Paulo II, Centesimus Annus)

O capitalismo vive hoje uma encruzilhada entre as fortes ameaças que vêm de fora e as muitas oportunidades que lhe vêm de dentro. De fora surgem as ameaças provenientes de soluções ideologicamente alternativas, cujos resultados desastrosos a aflição do presente parece querer esquecer. De dentro emergem as oportunidades de melhoria, que a Doutrina Social da Igreja muito ajuda a compreender. Será capaz de se salvar?

Post Scriptum – Um católico vive o pináculo do seu ano na Quaresma. 40 dias iniciados na 4.ª feira de Cinzas que nos conduzem numa longa ausência de Aleluia, por um caminho de provações, renúncias e recolhimento à Páscoa do Senhor. Com a certeza da Ressurreição, para quem tem fé, sabemos, porém, que antes enfrentamos a tentação, o Calvário e a morte. É um tempo especialmente difícil. Mas é também um caminho guiado e esperançoso.