Ser bem-sucedido tornou-se numa necessidade de sobrevivência tão essencial como o ar que se respira e uma qualidade de alguém que veste bem, tem casa confortável, dinheiro suficiente para comprar marcas de luxo, viajar, e frequentar lugares da moda. A ingenuidade deste paradigma contamina uma larga franja social desesperada por pertencer ao grupo de heróis, que nada fizeram de heroico, criado pelas potências do marketing, jornalismo e redes sociais enquanto máquinas de produção de acontecimentos banais. Vive-se uma eterna imaturidade em histórias de sucesso partilhadas, como nos tempos em que os meninos ouviam a Cinderela e adormeciam com a magia do foram felizes para sempre…”. Há uma necessidade subtil de brilho, reconhecimento, regalias fáceis e sucesso sem esforço que entrou no domínio patológico e está a impregnar o comportamento.

A obrigatoriedade geral de triunfar é um sentimento vago que pode ser devastador da saúde mental, porque nem sempre é clara a forma de aí chegar, nem o porquê de todos terem de ser perfeitos, espartanos e formidáveis. Quantos crimes, quanta violência, quanto sofrimento atrás do sonho impossível, atrás da frustração de não conseguir, de não ser extraordinário como influencers, estrelas, atletas, empresários e outros, que arremessam a pedrada do seu sucesso e felicidade nas suas Fanpage ao mundo doente, carente e infeliz.

Mas a euforia nunca deu a ninguém boas noites de sono. A fama, sempre efémera, faz reféns de followers, feeds, e brandjacking, causando dependência, instabilidade emocional e despersonalização. Não há imunidade ao revés, e o sucesso dá facilmente a mão ao alcoolismo e a outras substâncias, à depressão, à violência doméstica e outros dramas de gente comum. Sem espanto, eis a imprevisibilidade indiferente ao sucesso, a lembrar esta humanidade frágil que todos somos, e a sublinhar a incapacidade estrutural de muitas pessoas para serem felizes tenham o sucesso e a riqueza material que tiverem.

Esta visão nada diz aos muitos exasperados por visibilidade social, construída e montada como o mundo gosta, “para inglês, português, chinês… ver”. Difunde-se na sociedade como medida do sucesso, requisito vital em todas as tarefas e realizações, mas cada vez mais um importante factor de stress e angústia manifesto em perturbações psíquicas, disfarçadas ou negadas, porque tudo vale por um momento de glória. Instalam-se rituais de comparação à performance alheia, prática compulsiva redutora da dinâmica do individuo, que mede o seu valor pela régua das metas alcançadas, convertendo o excesso de expectativa no primeiro catalisador do fracasso.

O caminho da vitória pode ser um calvário de ansiedade e bizarria do comportamento. Não faltam exemplos de figuras caricatas com horror ao insucesso, que por mão de poderes mediáticos, político-partidários e outros, se mantêm sem uma réstia de honra em lugares de relevo – pseudo-sucesso que só falta de insight e demência justificam. Alguns dos nossos interesses públicos e privados são controlados por estes vitoriosos que, possuídos pelo poder e ávidos de tudo que reluz, confundem-se obsessivamente com o cargo detido, sua tábua de salvação, pois bem sabem que se a perderem deixarão de existir.

Para se ter sucesso e ser feliz é sempre preciso mais…. “Mais”, é palavra chave do êxito. Não há, porém, receitas de sucesso certo, ou melhor, talvez haja – a título de exemplo – deveremos cercar-nos de pessoas que podem ajudar no trampolim social e aconselhar os filhos a integrar as listas da JS, ou da JSD, formas fáceis de bom posicionamento no pódio da vida.

Nesta actualidade marcada por pessimismos e optmismos militantes, ambos perto da alienação, onde se divide o mundo entre desgraçados e heróis, é oportuno referir um pessimista consciente, Émile Cioran (1911- 1995), quando diz, a história não está em perigo a história é o desastre, a prova da nossa falibilidade.

Necessitamos, pois, de uma cultura de humildade intelectual, não é por alguém fazer uma coisa a vida toda que está preparado para a fazer hoje. Os “Velhos do Restelo” de Camões, continuam por aí, espíritos acanhados, a atirar aos novos temerários “Ó gloria de mandar! Ó vã cobiça…“ mas o medo é ter de ceder-lhes o lugar, eles sim, velhos detentores “desta vaidade a que chamamos fama” um sucesso, autoproclamado, medíocre, feito demasiadas vezes sobre jovens muitíssimo capacitados votados ao insucesso por falta de nau que os leve a novos descobrimentos.

Importa pensar o sucesso como evento transformador da sociedade em que cada um contribui com o seu melhor esforço para uma vida satisfatória. A actualidade é testemunho de convulsões e paradoxos, um percurso de desistências, um inventário do nosso descontentamento que se quer substituído por um viver criativo, mas sem ilusões…. E não é a publicar nas redes sociais o cão com pedigree e os filhos loiros de olhos azuis que as pessoas são mais felizes e têm êxito. Teremos de rejeitar o orgulho na ignorância e a práxis de pintar o sucesso sem obra. São necessárias melhores inspirações no vasto mundo artístico e científico, muito para lá da página de Instagram das Brand Personas e celebridades da praça, influências antipedagógicas a um passo da alienação.

Sem cair no elogio do frouxo, interiorizar a falha é, porém, um importante organizador mental que nos confronta com as nossas reais competências, uma oportunidade para melhores esforços de mudança, sem que sejam necessários workshops de life coaching para atenuar a consciência, por vezes dolorosa, de que há gente melhor do que nós.

E sobreviveremos ao sucesso sim, sempre depois da sobrevivência ao fracasso…

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